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A Restouração

há 3 minutos
7 min de leitura

Farsa em um ato e uma tornozeleira


 Ilustração quadrada de atmosfera dramática: uma tornozeleira eletrônica dourada e um pneu aparecem diante de um palácio imponente. O contraste entre o objeto de vigilância reluzente, o pneu e a arquitetura luxuosa sugere uma história de poder familiar, privilégio e encenação, evocando a farsa por trás de uma aparente restauração.

Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

— Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852)


Advertência: Os personagens desta farsa são inteiramente fictícios. Qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência, e, no Brasil, a coincidência costuma ter CPF, foro privilegiado e assessoria de imprensa.


Personagens


•       O PATRIARCA — ex-capitão, ex-presidente, ex-elegível. Usa a tornozeleira como quem usa medalha.


•       O PRIMOGÊNITO — presidente recém-empossado. Moderado, segundo ele mesmo.


•       O DO MEIO — governa pelo celular. Nunca tira os olhos da tela.


•       O EXILADO — volta do estrangeiro de boné importado e com um sotaque adquirido em seis meses.


•       O CAÇULA — vereador de cidade praiana, influenciador, candidato a qualquer coisa.


•       A PRIMEIRA-DAMA — madrasta dos três primeiros. Louva em voz alta e faz inventário em voz baixa.


•       O FAZ-TUDO — assessor eterno. Recolhe envelopes.


•       O MINISTRO DA ECONOMIA — o único que trouxe planilha.


•       O EMISSÁRIO DO SULTÃO — traz um estojo.


•       CORO DOS PATRIOTAS — de camisa da seleção, agitando a bandeira de outro país.


Tem um CORIFEU.


Cenário: salão nobre do Palácio. A faixa presidencial pende de um cabide, como peça de brechó. Na parede, uma moldura vazia. Num canto, iluminado como um altar, um pneu.


Prólogo

(Diante da cortina. O CORO entra marchando, desafinado. Um patriota se ajoelha diante do pneu e reza.)


CORIFEU — Respeitável público! Esta noite a História se repete. Já foi tragédia, já foi farsa; agora é reprise com patrocínio e intervalo comercial.


CORO — Deus, pátria, família!


CORIFEU — Nessa ordem?


CORO — Família, família, família!


CORIFEU — A família é a base da sociedade. Sobretudo quando a sociedade é anônima e a família é a sócia majoritária.


PATRIOTA (apontando o pneu) — Ele ainda vai responder!


CORIFEU — Calma, irmão. Ele está em oração há quatro anos. O silêncio também é uma resposta.

(Saem.)


Cena 1 — A posse

(O PRIMOGÊNITO, de faixa, ensaia diante de um espelho.)


PRIMOGÊNITO — Brasileiros e brasileiras... (corrige) Brasileiros e brasileiras de bem... (corrige de novo) Brasileiros. Serei o presidente de todos. Inclusive dos que não votaram em mim, que eu já identifiquei.


(Entra o FAZ-TUDO com uma pasta e uma caixa de papelão com fenda, feito cofrinho.)


FAZ-TUDO — Excelência! Que saudade deste carpete.


PRIMOGÊNITO — Você não estava afastado?


FAZ-TUDO — Afastado não, doutor. Arquivado. Afastado volta com processo; arquivado volta com crachá.


PRIMOGÊNITO — E essa caixa?


FAZ-TUDO — Fundo de solidariedade do gabinete. Cada servidor contribui espontaneamente com setenta por cento do salário. Com o resto, faz o que quiser. É liberdade econômica.


PRIMOGÊNITO — Isso não é... aquilo?


FAZ-TUDO — Aquilo o tribunal anulou. Isto aqui é inédito.


(Um bipe agudo. Todos congelam. O som vem de baixo da mesa.)


PRIMOGÊNITO — Que é isso?


FAZ-TUDO — É o seu pai, Excelência. Mandou instalar viva-voz na tornozeleira.


VOZ DO PATRIARCA (metálica) — Alô! Alô! Quem tá falando aí é o presidente?


PRIMOGÊNITO — Sou eu, pai.


VOZ — Ótimo, porque eu também sou. Escuta aqui: a primeira canetada é o meu negócio.


PRIMOGÊNITO — Pai, eu prometi moderação. Prometi não governar para a família.


VOZ — E eu lá sou família? Eu sou o Brasil, tá ok?


PRIMOGÊNITO — O senhor é um preso.


VOZ — Preso político! Todo preso é político, menos bandido. E bandido é quem não é da família.


(O bipe some. O FAZ-TUDO sacode o cofrinho, satisfeito com o som.)


Cena 2 — A reunião ministerial

(Mesa comprida. Entra O DO MEIO, filmando a si mesmo.)


DO MEIO (ao celular) — Bom dia, Brasil. Estou entrando na reunião ministerial. Não posso contar o que foi decidido porque ainda não decidiram, mas já adianto que foi um sucesso e que a imprensa vai mentir sobre isso.


PRIMOGÊNITO — Senta. Você é o quê neste governo?


DO MEIO — Eu sou a verdade.


PRIMOGÊNITO — Não existe esse ministério.


DO MEIO — Por enquanto. Tenho dois milhões de seguidores e cinco robôs. Ou o contrário. Fiz uma enquete: a população aprovou esta reunião antes de ela começar.

(Entra O EXILADO: boné estrangeiro, óculos escuros, três malas.)


EXILADO — Hello, my family! Doze horas de voo na executiva. Paga com quê? Com patriotismo.


PRIMOGÊNITO — Você não podia voltar.


EXILADO — Agora posso: meu irmão é presidente. Eu sempre disse que no Brasil não havia justiça, por isso fui buscá-la lá fora. Pedi tarifa, pedi sanção, pedi que cassassem o visto de meia dúzia. Me deram tudo. Só não me deram o green card.


PRIMOGÊNITO — Você pediu sanções contra o seu próprio país.


EXILADO — Contra o país, não! Contra o país que estava aqui. O país de verdade estava comigo, num condomínio na Flórida.


(Entra O CAÇULA, de óculos espelhados, em transmissão ao vivo.)


CAÇULA — Fala, galera! Live direto do Planalto! Deixa o like se você quer me ver ministro! (ao irmão) Qual ministério tá sobrando?


PRIMOGÊNITO — Você é vereador de uma cidade de praia.


CAÇULA — Por isso mesmo. Já tenho experiência em gestão de areia.


(Entra O MINISTRO DA ECONOMIA, pálido, abraçado a uma planilha.)


MINISTRO — Senhor presidente, trago o diagnóstico fiscal.


TODOS — Depois!


MINISTRO — O déficit...


DO MEIO (ao celular) — Ministro comunista infiltrado tentando falar de déficit. Compartilhem.


MINISTRO — Fui indicado por vocês!


DO MEIO — Então é pior. Traidor.


(Entra A PRIMEIRA-DAMA, Bíblia num braço, prancheta no outro.)


PRIMEIRA-DAMA — Glória! (consulta a prancheta) Sofá do salão: patrimônio da União. Quadro da parede: patrimônio da União. Estes castiçais... (enfia-os na bolsa) presente. Glória!


PRIMOGÊNITO — Isso é do palácio.


PRIMEIRA-DAMA — Meu filho, no palácio tudo o que brilha é presente, e todo presente é pessoal. Está escrito.


MINISTRO — Em que versículo?


PRIMEIRA-DAMA — No do acervo privado.


Cena 3 — O decreto

(Todos cercam o PRIMOGÊNITO, que segura uma caneta como quem segura uma granada.)


EXILADO — Assina a anistia.


DO MEIO — Assina que eu já postei que você assinou.


CAÇULA — Assina que dá engajamento.


PRIMOGÊNITO — Não tenho nem o texto.


FAZ-TUDO (tirando um papel amarelado da pasta) — Tenho uma minuta pronta. Achei na gaveta de um amigo. É de 2022, mas o texto é atemporal. Basta trocar "estado de defesa" por "estado de família".


PRIMOGÊNITO — Eu prometi que seria diferente.


TODOS — E foi! Na campanha!


PRIMOGÊNITO (lê) — "Anistia ampla, geral e familiar, extensiva a ascendentes, descendentes, colaterais, assessores, assessores de assessores e a quem mais tiver o telefone do gabinete."


MINISTRO — E o impacto fiscal?


FAZ-TUDO — Impacto zero. Perdão não custa nada. Para quem recebe.


(O PRIMOGÊNITO assina. Um estrondo. Confete verde e amarelo cai do teto. O CORO invade cantando o hino fora do tom.)


Cena 4 — A volta

(Fumaça. Surge O PATRIARCA. A tornozeleira agora é dourada e reluz como joia. Ele vai direto para a cadeira presidencial e senta.)


PRIMOGÊNITO — Pai, essa cadeira é minha.


PATRIARCA — Você está só esquentando. Igual cachorro de rico: aquece o sofá até o dono voltar.


PRIMOGÊNITO — Eu fui eleito!


PATRIARCA — Com o meu sobrenome. Você é um CPF com o meu nome no meio.


DO MEIO (ao celular) — O mito voltou. Quem não compartilhar é infiltrado.


PATRIARCA — Primeira providência: vou pedir perdão.


(Silêncio atônito.)


PATRIARCA — Ao povo, não; ao povo eu nunca devi nada. Ao Exército, que eu fiz passar vergonha. (pausa) Mentira. Vou pedir indenização.


PRIMEIRA-DAMA — Glória!


PATRIARCA — E pagamento em dinheiro vivo, que é o único dinheiro honesto: não deixa extrato.


(Entra O EMISSÁRIO DO SULTÃO com um estojo de veludo.)


EMISSÁRIO — Sua Alteza envia um mimo pela posse.


(Todos se atiram sobre o estojo.)


PRIMEIRA-DAMA — Presente pessoal!


EXILADO — Eu levo pra avaliar no exterior!


CAÇULA — Faz o unboxing, faz o unboxing!


FAZ-TUDO — Setenta por cento é do fundo!


MINISTRO — Isso vai para o acervo da União!


TODOS (virando-se para ele) — Que União?


(O PATRIARCA abre o estojo. Dentro, faiscando, uma tornozeleira cravejada de diamantes.)


PATRIARCA (maravilhado) — Finalmente alguém entende a minha trajetória.


PRIMOGÊNITO — Pai, eu prometi não disputar a reeleição.


PATRIARCA — Claro que prometeu. Fui eu que mandei. Em 2030 acaba a minha inelegibilidade. Você esquenta a cadeira e eu volto. Esse sempre foi o plano.


PRIMOGÊNITO — E eu?


PATRIARCA — Você vai ficar na História como o moderado.


PRIMOGÊNITO — Sério?


PATRIARCA — Sério. Que nem os outros moderados. Ninguém lembra de nenhum.


Epílogo

(A família se reúne num retrato oficial dentro da moldura vazia. O MINISTRO, à parte, ergue a planilha.)


MINISTRO — E o povo?


TODOS — Que povo?


CORO — Nós!


PATRIARCA — Estes aqui são o povo. O resto é estatística.


MINISTRO — Mas e a conta?


PATRIARCA — A conta é de quem não é da família.


(A luz cai sobre o grupo e se concentra no pneu. O CORIFEU avança até a boca de cena.)


CORIFEU — Moral da história, respeitável público: neste país não se herda o poder. Herda-se a impunidade. O poder vem de brinde.


(Escuro total. No breu, um bipe de tornozeleira. Depois outro. Depois um coro de bipes, em ritmo de marcha.)


PANO.


Notas para a encenação


•       Duração: cerca de 30 minutos, em ato único, sem intervalo.


•       Elenco: nove atores e um coro de três a cinco. O Emissário pode ser feito pelo mesmo ator do Corifeu. Na Cena 1, o Patriarca é apenas voz, de preferência distorcida por um alto-falante escondido sob a mesa.


•       A tornozeleira é o objeto central da peça. Bipa nos momentos de maior hipocrisia e muda de natureza a cada cena: aparelho de monitoramento, telefone, joia, relíquia.


•       O pneu fica iluminado do início ao fim e nunca é explicado.


•       Tom: farsa de ritmo rápido, mais perto da commedia dell'arte que do esquete de telejornal. Nenhum personagem pisca para a plateia: todos acreditam em cada palavra que dizem, e é daí que vem o riso.

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