A Restouração
Farsa em um ato e uma tornozeleira

Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.
— Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852)
Advertência: Os personagens desta farsa são inteiramente fictícios. Qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência, e, no Brasil, a coincidência costuma ter CPF, foro privilegiado e assessoria de imprensa.
Personagens
• O PATRIARCA — ex-capitão, ex-presidente, ex-elegível. Usa a tornozeleira como quem usa medalha.
• O PRIMOGÊNITO — presidente recém-empossado. Moderado, segundo ele mesmo.
• O DO MEIO — governa pelo celular. Nunca tira os olhos da tela.
• O EXILADO — volta do estrangeiro de boné importado e com um sotaque adquirido em seis meses.
• O CAÇULA — vereador de cidade praiana, influenciador, candidato a qualquer coisa.
• A PRIMEIRA-DAMA — madrasta dos três primeiros. Louva em voz alta e faz inventário em voz baixa.
• O FAZ-TUDO — assessor eterno. Recolhe envelopes.
• O MINISTRO DA ECONOMIA — o único que trouxe planilha.
• O EMISSÁRIO DO SULTÃO — traz um estojo.
• CORO DOS PATRIOTAS — de camisa da seleção, agitando a bandeira de outro país.
Tem um CORIFEU.
Cenário: salão nobre do Palácio. A faixa presidencial pende de um cabide, como peça de brechó. Na parede, uma moldura vazia. Num canto, iluminado como um altar, um pneu.
Prólogo
(Diante da cortina. O CORO entra marchando, desafinado. Um patriota se ajoelha diante do pneu e reza.)
CORIFEU — Respeitável público! Esta noite a História se repete. Já foi tragédia, já foi farsa; agora é reprise com patrocínio e intervalo comercial.
CORO — Deus, pátria, família!
CORIFEU — Nessa ordem?
CORO — Família, família, família!
CORIFEU — A família é a base da sociedade. Sobretudo quando a sociedade é anônima e a família é a sócia majoritária.
PATRIOTA (apontando o pneu) — Ele ainda vai responder!
CORIFEU — Calma, irmão. Ele está em oração há quatro anos. O silêncio também é uma resposta.
(Saem.)
Cena 1 — A posse
(O PRIMOGÊNITO, de faixa, ensaia diante de um espelho.)
PRIMOGÊNITO — Brasileiros e brasileiras... (corrige) Brasileiros e brasileiras de bem... (corrige de novo) Brasileiros. Serei o presidente de todos. Inclusive dos que não votaram em mim, que eu já identifiquei.
(Entra o FAZ-TUDO com uma pasta e uma caixa de papelão com fenda, feito cofrinho.)
FAZ-TUDO — Excelência! Que saudade deste carpete.
PRIMOGÊNITO — Você não estava afastado?
FAZ-TUDO — Afastado não, doutor. Arquivado. Afastado volta com processo; arquivado volta com crachá.
PRIMOGÊNITO — E essa caixa?
FAZ-TUDO — Fundo de solidariedade do gabinete. Cada servidor contribui espontaneamente com setenta por cento do salário. Com o resto, faz o que quiser. É liberdade econômica.
PRIMOGÊNITO — Isso não é... aquilo?
FAZ-TUDO — Aquilo o tribunal anulou. Isto aqui é inédito.
(Um bipe agudo. Todos congelam. O som vem de baixo da mesa.)
PRIMOGÊNITO — Que é isso?
FAZ-TUDO — É o seu pai, Excelência. Mandou instalar viva-voz na tornozeleira.
VOZ DO PATRIARCA (metálica) — Alô! Alô! Quem tá falando aí é o presidente?
PRIMOGÊNITO — Sou eu, pai.
VOZ — Ótimo, porque eu também sou. Escuta aqui: a primeira canetada é o meu negócio.
PRIMOGÊNITO — Pai, eu prometi moderação. Prometi não governar para a família.
VOZ — E eu lá sou família? Eu sou o Brasil, tá ok?
PRIMOGÊNITO — O senhor é um preso.
VOZ — Preso político! Todo preso é político, menos bandido. E bandido é quem não é da família.
(O bipe some. O FAZ-TUDO sacode o cofrinho, satisfeito com o som.)
Cena 2 — A reunião ministerial
(Mesa comprida. Entra O DO MEIO, filmando a si mesmo.)
DO MEIO (ao celular) — Bom dia, Brasil. Estou entrando na reunião ministerial. Não posso contar o que foi decidido porque ainda não decidiram, mas já adianto que foi um sucesso e que a imprensa vai mentir sobre isso.
PRIMOGÊNITO — Senta. Você é o quê neste governo?
DO MEIO — Eu sou a verdade.
PRIMOGÊNITO — Não existe esse ministério.
DO MEIO — Por enquanto. Tenho dois milhões de seguidores e cinco robôs. Ou o contrário. Fiz uma enquete: a população aprovou esta reunião antes de ela começar.
(Entra O EXILADO: boné estrangeiro, óculos escuros, três malas.)
EXILADO — Hello, my family! Doze horas de voo na executiva. Paga com quê? Com patriotismo.
PRIMOGÊNITO — Você não podia voltar.
EXILADO — Agora posso: meu irmão é presidente. Eu sempre disse que no Brasil não havia justiça, por isso fui buscá-la lá fora. Pedi tarifa, pedi sanção, pedi que cassassem o visto de meia dúzia. Me deram tudo. Só não me deram o green card.
PRIMOGÊNITO — Você pediu sanções contra o seu próprio país.
EXILADO — Contra o país, não! Contra o país que estava aqui. O país de verdade estava comigo, num condomínio na Flórida.
(Entra O CAÇULA, de óculos espelhados, em transmissão ao vivo.)
CAÇULA — Fala, galera! Live direto do Planalto! Deixa o like se você quer me ver ministro! (ao irmão) Qual ministério tá sobrando?
PRIMOGÊNITO — Você é vereador de uma cidade de praia.
CAÇULA — Por isso mesmo. Já tenho experiência em gestão de areia.
(Entra O MINISTRO DA ECONOMIA, pálido, abraçado a uma planilha.)
MINISTRO — Senhor presidente, trago o diagnóstico fiscal.
TODOS — Depois!
MINISTRO — O déficit...
DO MEIO (ao celular) — Ministro comunista infiltrado tentando falar de déficit. Compartilhem.
MINISTRO — Fui indicado por vocês!
DO MEIO — Então é pior. Traidor.
(Entra A PRIMEIRA-DAMA, Bíblia num braço, prancheta no outro.)
PRIMEIRA-DAMA — Glória! (consulta a prancheta) Sofá do salão: patrimônio da União. Quadro da parede: patrimônio da União. Estes castiçais... (enfia-os na bolsa) presente. Glória!
PRIMOGÊNITO — Isso é do palácio.
PRIMEIRA-DAMA — Meu filho, no palácio tudo o que brilha é presente, e todo presente é pessoal. Está escrito.
MINISTRO — Em que versículo?
PRIMEIRA-DAMA — No do acervo privado.
Cena 3 — O decreto
(Todos cercam o PRIMOGÊNITO, que segura uma caneta como quem segura uma granada.)
EXILADO — Assina a anistia.
DO MEIO — Assina que eu já postei que você assinou.
CAÇULA — Assina que dá engajamento.
PRIMOGÊNITO — Não tenho nem o texto.
FAZ-TUDO (tirando um papel amarelado da pasta) — Tenho uma minuta pronta. Achei na gaveta de um amigo. É de 2022, mas o texto é atemporal. Basta trocar "estado de defesa" por "estado de família".
PRIMOGÊNITO — Eu prometi que seria diferente.
TODOS — E foi! Na campanha!
PRIMOGÊNITO (lê) — "Anistia ampla, geral e familiar, extensiva a ascendentes, descendentes, colaterais, assessores, assessores de assessores e a quem mais tiver o telefone do gabinete."
MINISTRO — E o impacto fiscal?
FAZ-TUDO — Impacto zero. Perdão não custa nada. Para quem recebe.
(O PRIMOGÊNITO assina. Um estrondo. Confete verde e amarelo cai do teto. O CORO invade cantando o hino fora do tom.)
Cena 4 — A volta
(Fumaça. Surge O PATRIARCA. A tornozeleira agora é dourada e reluz como joia. Ele vai direto para a cadeira presidencial e senta.)
PRIMOGÊNITO — Pai, essa cadeira é minha.
PATRIARCA — Você está só esquentando. Igual cachorro de rico: aquece o sofá até o dono voltar.
PRIMOGÊNITO — Eu fui eleito!
PATRIARCA — Com o meu sobrenome. Você é um CPF com o meu nome no meio.
DO MEIO (ao celular) — O mito voltou. Quem não compartilhar é infiltrado.
PATRIARCA — Primeira providência: vou pedir perdão.
(Silêncio atônito.)
PATRIARCA — Ao povo, não; ao povo eu nunca devi nada. Ao Exército, que eu fiz passar vergonha. (pausa) Mentira. Vou pedir indenização.
PRIMEIRA-DAMA — Glória!
PATRIARCA — E pagamento em dinheiro vivo, que é o único dinheiro honesto: não deixa extrato.
(Entra O EMISSÁRIO DO SULTÃO com um estojo de veludo.)
EMISSÁRIO — Sua Alteza envia um mimo pela posse.
(Todos se atiram sobre o estojo.)
PRIMEIRA-DAMA — Presente pessoal!
EXILADO — Eu levo pra avaliar no exterior!
CAÇULA — Faz o unboxing, faz o unboxing!
FAZ-TUDO — Setenta por cento é do fundo!
MINISTRO — Isso vai para o acervo da União!
TODOS (virando-se para ele) — Que União?
(O PATRIARCA abre o estojo. Dentro, faiscando, uma tornozeleira cravejada de diamantes.)
PATRIARCA (maravilhado) — Finalmente alguém entende a minha trajetória.
PRIMOGÊNITO — Pai, eu prometi não disputar a reeleição.
PATRIARCA — Claro que prometeu. Fui eu que mandei. Em 2030 acaba a minha inelegibilidade. Você esquenta a cadeira e eu volto. Esse sempre foi o plano.
PRIMOGÊNITO — E eu?
PATRIARCA — Você vai ficar na História como o moderado.
PRIMOGÊNITO — Sério?
PATRIARCA — Sério. Que nem os outros moderados. Ninguém lembra de nenhum.
Epílogo
(A família se reúne num retrato oficial dentro da moldura vazia. O MINISTRO, à parte, ergue a planilha.)
MINISTRO — E o povo?
TODOS — Que povo?
CORO — Nós!
PATRIARCA — Estes aqui são o povo. O resto é estatística.
MINISTRO — Mas e a conta?
PATRIARCA — A conta é de quem não é da família.
(A luz cai sobre o grupo e se concentra no pneu. O CORIFEU avança até a boca de cena.)
CORIFEU — Moral da história, respeitável público: neste país não se herda o poder. Herda-se a impunidade. O poder vem de brinde.
(Escuro total. No breu, um bipe de tornozeleira. Depois outro. Depois um coro de bipes, em ritmo de marcha.)
PANO.
Notas para a encenação
• Duração: cerca de 30 minutos, em ato único, sem intervalo.
• Elenco: nove atores e um coro de três a cinco. O Emissário pode ser feito pelo mesmo ator do Corifeu. Na Cena 1, o Patriarca é apenas voz, de preferência distorcida por um alto-falante escondido sob a mesa.
• A tornozeleira é o objeto central da peça. Bipa nos momentos de maior hipocrisia e muda de natureza a cada cena: aparelho de monitoramento, telefone, joia, relíquia.
• O pneu fica iluminado do início ao fim e nunca é explicado.
• Tom: farsa de ritmo rápido, mais perto da commedia dell'arte que do esquete de telejornal. Nenhum personagem pisca para a plateia: todos acreditam em cada palavra que dizem, e é daí que vem o riso.

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