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Um Segundo de Competência: o Eleitor, o Rosto e o Mito da Decisão Racional
O banner ofende esse eleitor idealizado. Ofende-o porque parece um atalho vulgar para algo que se supunha exigir travessia lenta e deliberada. A pergunta que este texto quer fazer, então, não é "por que a propaganda eleitoral é tão pobre", mas uma anterior e mais desconfortável: de onde vem a certeza de que a decisão política deveria ser, em algum sentido relevante, uma operação racional?
há 1 dia15 min de leitura


O Lado de Cá do Vidro
Numa tarde de sábado, num pátio de prédio que não existe mais, um menino de oito anos caiu de bicicleta e olhou para o pai e perguntou: você viu?
O pai disse que sim.
Nenhum dos dois soube, naquele momento, o que o menino estava realmente perguntando.
20 de set.13 min de leitura


As Cartas que Ela não Enviou
Pensou na mulher com quem havia terminado dois meses atrás, antes mesmo de saber que a mãe estava piorando. Pensou nos jantares que havia pago, nas viagens que havia proposto, na disponibilidade que havia oferecido em doses que ele mesmo sabia serem desproporcionais, enquanto ela ficava levemente distante, levemente inacessível, levemente atrás de um vidro que ele não conseguia — que nunca conseguia — atravessar.
13 de set.15 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
A pergunta está intacta. Dez passagens não a responderam, e não poderiam, porque ela não é do tipo que se responde. Ela é do tipo que se torna cada vez mais necessária à medida que se a habita: quanto mais se percorre o não-saber, mais clara se torna a pergunta que ele exige, mais precisa a formulação que Clarice encontrou com sete palavras que nenhum sistema filosófico elaborado produziu com a mesma economia e a mesma profundidade.
6 de set.16 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
O que as nove passagens anteriores tornaram possível articular são quatro modos de fazer com o não-saber, quatro posturas que não são respostas à pergunta de Clarice mas práticas que a habitam: modos de estar no não-saber que não o eliminam nem o ignoram, que o tomam como material e o trabalham sem pretender dissolvê-lo. Os quatro modos são: habitar, jogar, rezar e escrever. Eles não são exaustivos: há outros modos que este ensaio não alcançou (...).
30 de ago.19 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
(...) o ambiente tecnológico contemporâneo produz uma intolerância ao vazio que é, em seus efeitos, equivalente a uma proibição do não-saber. Qualquer momento de indeterminação, qualquer pausa, qualquer silêncio, qualquer hesitação, é imediatamente preenchido pelo dispositivo que está na mão: uma notificação, um vídeo, uma mensagem, um artigo. O vazio que poderia tornar-se não-saber produtivo é convertido, antes de poder assumir essa forma, em mais um item da lista de consumo
23 de ago.18 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
Fazer com o não-saber de si, fazer com a multiplicidade, com a dispersão, com a ausência de duplo estável, com o eu que emerge da relação sem jamais fechar sobre si, inclui, portanto, fazer com o tempo: com o tempo que se tem e que não se sabe quanto é, com o eu que se está sendo e que não se sabe completamente o que é, com a vida que se vive e que, como Clarice soube dizer com mais precisão do que qualquer filósofo
9 de ago.19 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
O não-saber é político antes de ser filosófico, ou antes: é político ao mesmo tempo em que é filosófico, e qualquer teoria que o trate como apenas um desses dois é uma teoria incompleta.
2 de ago.18 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
Fazer com o não-saber feminino, com esse não-saber específico que é ao mesmo tempo condição universal e posição histórica particular, inclui, portanto, fazer com o silêncio herdado: reconhecê-lo não como vazio, mas como reserva; encontrar nele não a ausência de saber mas a presença de um saber que aguarda forma; e dar-lhe, quando possível e ao preço necessário, a forma que lhe foi negada.
26 de jul.17 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
A escrita nasce do não-saber. Não apesar do não-saber, não depois de o não-saber ter sido resolvido, não como veículo de um saber que já existia antes dela: a escrita nasce do não-saber, como os rios nascem das montanhas: por excesso de pressão que precisa de saída, por acumulação que ultrapassa a contenção, por uma força que vem de um lugar que ninguém escolheu e que se move numa direção que só se conhece depois de ter percorrido.
5 de jul.18 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
O corpo não é o lugar onde o não-saber ocorre. É o lugar onde o não-saber é: onde ele tem endereço, temperatura, peso. O arc intentionnel de Merleau-Ponty o projeta antes da mente pensar. O quiasma o tece entre o sujeito e o mundo antes de a linguagem separar os dois. A ressonância vivida de Minkowski o mantém vibrando antes de se tornar representação. Os poemas de Herberto Helder e de Adélia Prado o capturam no instante em que ainda não decidiu o que é.
28 de jun.16 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
A atenção, hoje, é quase sempre entendida como foco: concentração de energia psíquica sobre um objeto com vistas a extrair dele o máximo de informação no mínimo de tempo. É o que se treina nas escolas, o que se cobra nas empresas, o que se gere com aplicativos de produtividade. Essa atenção é essencialmente predatória: ela vai ao objeto para retirar algo dele; ela termina quando a extração está completa; ela é bem-sucedida quando transforma o não-saber em saber administrável.
21 de jun.17 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
O mais comum é tratar o não-saber abissal como se fosse ignorância, como se a questão "quem sou eu?" pudesse ser resolvida com mais informação sobre si mesmo, com mais terapia, com mais leitura, com mais autoconhecimento acumulado como se acumula dados em um banco. Essa é a ilusão que sustenta boa parte da indústria contemporânea do desenvolvimento pessoal: a ideia de que o autodesconhecimento é um problema que se resolve, e que o instrumento de solução é a introspecção siste
14 de jun.15 min de leitura


O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?
Há perguntas que inauguram métodos. Há perguntas que encerram disputas. Há perguntas que se disfarçam de perguntas e são, na verdade, afirmações vestidas de interrogação — a retórica, como Michelstaedter soube, sempre preferiu a pergunta que já contém sua resposta ao risco de uma pergunta verdadeira. E há, por fim, um outro tipo de pergunta: aquela que não espera resposta porque é ela mesma o lugar onde o sujeito se instala, onde a linguagem chega ao seu limite e continua fal
7 de jun.12 min de leitura


Canto do Cansaço: Por uma Escatologia do Esgotamento
Este ensaio começa onde todos os outros terminaram. Ele não pretende demonstrar, provar ou convencer. Ele quer, antes, cantar: cantar o cansaço, esse estado que a modernidade aprendeu a medicar, a negar, a acelerar. Mas o cansaço de que falamos não é a fadiga que se resolve com uma noite de sono. É um cansaço mais fundo, daquelas camadas da alma onde as certezas já não sustentam, onde as perguntas já não encontram respostas, onde o próprio impulso de continuar parece ter se e
31 de mai.24 min de leitura


A Arte de Deixar a Pergunta Viva: Por uma pedagogia da suspensão da resposta
Este ensaio nasce de uma convicção que os três ensaios anteriores desta série foram construindo progressivamente: que o aprendizado genuíno exige tempo, exige cansaço, exige a permanência na incerteza que a cultura contemporânea e a pedagogia que ela produziu tende sistematicamente a abreviar.
17 de mai.51 min de leitura


A Leveza Conquistada: Por uma epistemologia da despreocupação
Este ensaio é o terceiro de uma série que não foi planejada como série, mas que se revelou como tal. O primeiro examinou o aprendizado como repetição da pergunta até o cansaço. O segundo examinou a epistemologia da suspeita de si e os caminhos para que ela não resulte em niilismo. Este terceiro é, de certa forma, o seu desdobramento natural: se a pergunta precisa cansar para que a resposta nasça, e se a suspeita de si precisa ser atravessada para não se converter em paralisia
3 de mai.60 min de leitura


O Mistério, Eu e Outros Eus
Há certas perguntas que nos perseguem a vida inteira. "Por que estou triste?" "Por que o a produtividade da empresa caiu 3%?" "Por que o cachorro late para o vento?" A humanidade, desde que se entende por gente, tenta responder. Criou a filosofia, a psicanálise, o brainstorming, os post-its amarelos, os planos de ação, as sessões de terapia às quartas-feiras às dezenove horas.
Não resolveu.
O que nos resta, então? Rir. Ironizar. Escrever.
26 de abr.12 min de leitura


A Suspeita de Si: Uma epistemologia do olhar voltado para dentro, entre filosofia, literatura e psicanálise
A tese central é que a suspeita de si é necessária, mas que ela precisa ser atravessada, isto é, que há um outro lado do qual ela pode emergir não como niilismo, mas como uma forma mais honesta, mais responsável e paradoxalmente mais livre de existir.
19 de abr.20 min de leitura


O Arquiteto do Esquecimento
Quando Martim colocou a última pedra no topo da torre, aos cinquenta e sete anos de idade, ele não sentiu triunfo. Sentiu apenas o peso súbito da ausência, a ausência do projeto que por três décadas havia ocupado cada fenda de sua consciência. A torre erguia-se agora contra o céu cinzento do planalto, suas linhas ascendendo em espiral perfeita, cada ângulo calculado para desafiar não apenas a gravidade, mas o próprio tempo. Martim havia construído uma catedral sem Deus...
12 de abr.13 min de leitura
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