O Alvo Errado – Um Conto de Ano Novo
- Sérgio Luiz de Matteo
- 31 de dez. de 2025
- 7 min de leitura

A meia-noite ainda estava longe, e Mateus já havia colocado a taça de champanhe sobre a mesa três vezes. Três vezes ele a havia pegado, sentido o peso do vidro, e a colocado novamente, como se o gesto pudesse ser perfeito na quarta tentativa. Pela janela do apartamento no trigésimo andar, a cidade pulsava em antecipação — fogos de artifício já estouravam aqui e ali, como se a noite não conseguisse esperar pelo momento exato. Mas Mateus não estava olhando para os fogos. Estava olhando para seu próprio reflexo no vidro, aquele homem que parecia cada vez mais transparente, como se a cidade pudesse vê-lo através dele.
Aos setenta e dois anos, Mateus havia construído uma vida que qualquer um chamaria de bem-sucedida. Mas havia algo em seus olhos — não serenidade, como alguns poderiam pensar, mas uma espécie de resignação que havia aprendido a disfarçar de sabedoria. Ele conhecia o preço de cada escolha que havia feito, e esse preço estava inscrito em cada linha de seu rosto.
Quando Lucas chegou, Mateus soube imediatamente que algo havia mudado. Seu neto entrou no apartamento como alguém que havia estado correndo, embora a respiração estivesse controlada. Aos vinte e três anos, Lucas ainda tinha aquela capacidade de disfarçar o pânico com compostura — um traço que Mateus reconhecia porque havia sido assim também, uma vez.
"Você recebeu a resposta deles?" perguntou Mateus, sem rodeios.
Lucas piscou, surpreso. "Como você...?"
"Porque você está aqui. No Ano Novo. Quando poderia estar em qualquer outro lugar." Mateus sorriu, mas havia algo triste naquele sorriso. "Quando você não consegue decidir, você vem procurar respostas nos lugares onde as pessoas mais velhas fingem tê-las."
Lucas sentou-se, e Mateus notou como seu neto evitava o contato visual. Engenharia, pensou Mateus. Sempre engenharia. Sempre a ilusão de que havia uma solução correta, um cálculo que pudesse ser feito para eliminar a incerteza. Mateus havia passado a vida inteira tentando ensinar às pessoas que a vida não era um problema de engenharia. Mas como você ensina isso a alguém que foi treinado desde a infância para acreditar que tudo pode ser resolvido?
Mateus ficou em silêncio por tanto tempo que Lucas começou a se perguntar se havia feito a pergunta errada. Lá fora, um fogaço particularmente brilhante iluminou o apartamento, e por um breve momento, Mateus pareceu muito mais velho do que era.
"Quando eu tinha sua idade," começou Mateus, sua voz mais baixa agora, "eu sabia exatamente o que queria. Ou pensava que sabia. Havia um alvo muito claro — uma empresa americana, prestígio, segurança. Tudo que um jovem ambicioso poderia desejar."
"E você o alcançou," disse Lucas, tentando adivinhar o final da história.
"Não," respondeu Mateus, e havia algo na forma como ele disse isso que fez Lucas se encolher. "Recusei."
"Por quê?" A pergunta saiu mais como um sussurro.
Mateus caminhou até a janela e colocou a mão no vidro. Estava frio, apesar da temperatura externa elevada. "Porque percebi que, se eu acertasse aquele alvo, a história terminaria. Eu chegaria lá, e depois... depois haveria apenas a manutenção. A repetição. A morte em vida."
Lucas sentiu algo se mexer dentro dele — uma resistência, uma rejeição. "Mas você ficou rico. Você construiu uma empresa. Você acertou o alvo eventualmente."
"Sim," concordou Mateus, e havia uma nota de tristeza em sua voz. "Mas não porque persegui a riqueza. Persegui a próxima oportunidade, o próximo desafio, o desconhecido que poderia me levar a algum lugar inesperado. A riqueza foi apenas uma consequência de estar sempre em movimento."
Ele se virou para Lucas, e seus olhos estavam úmidos. "Você entende o que estou tentando dizer?"
"Acho que sim," disse Lucas, mas sua voz trazia dúvida. "Você quer que eu recuse a multinacional."
"Não," disse Mateus, com uma certa urgência. "Quero que você entenda por que você quer recusá-la. Se é por medo, aceite. Mas se é porque há algo dentro de você que sabe que há um caminho mais interessante — um caminho que você ainda não consegue ver completamente — então recuse sem titubear."
"E se eu fracassar?" perguntou Lucas, e a pergunta continha toda a sua ansiedade, toda a sua falta de confiança.
Mateus caminhou de volta para o sofá e sentou-se ao lado de Lucas. Colocou uma mão no ombro do neto, e Lucas sentiu o tremor naquela mão — não de fraqueza, mas de algo mais profundo.
"Você fracassará," disse Mateus com certeza absoluta. "Muitas vezes. Mas fracassar em perseguir seu próprio caminho é infinitamente mais valioso do que suceder no caminho de outro. Porque quando você fracassa em seu próprio caminho, você aprende algo sobre si mesmo. Quando você sucede no caminho de outro, você apenas aprende que consegue seguir instruções.
Lucas estava prestes a responder quando Mateus levantou-se abruptamente. Caminhou até a estante de madeira escura e começou a procurar algo, suas mãos movendo-se com uma deliberação que parecia excessiva. Finalmente, retirou um álbum de fotografias desbotadas.
"Há um ano e meio," disse Mateus, sentando-se novamente, o álbum repousando em seu colo como um objeto sagrado, "os médicos me chamaram para uma conversa. Eles usaram palavras como 'agressivo' e 'progressivo' e 'dois anos, talvez três.' Palavras que parecem muito pequenas para descrever o fim de uma vida."
Lucas sentiu o ar sair de seus pulmões. Abriu a boca para falar, mas nenhuma palavra saiu.
"Não me olhe assim," disse Mateus, com uma leveza que parecia completamente fora de lugar. "Não é uma tragédia. É apenas... a vida. A vida que eu escolhi, na verdade."
"Vovó não me contou," murmurou Lucas, e havia acusação em sua voz. Acusação e medo e uma raiva que ele não conseguia nomear.
"Claro que não," respondeu Mateus. "Porque eu pedi para que ela não contasse. Porque eu não queria que você sentisse pena. Porque eu queria que você entendesse algo muito mais importante antes de saber disso."
Ele abriu o álbum lentamente, e Lucas viu as mãos de seu avô tremendo. Desta vez, não havia dúvida sobre a origem do tremor. Era medo. Era a realidade da morte tocando em cada célula de seu corpo.
"Você vê," continuou Mateus, folheando as páginas com dedos que pareciam frágeis demais para o peso que carregavam, "quando você recebe um diagnóstico como esse, você tem duas escolhas. Você pode passar o tempo que lhe resta tentando voltar ao alvo que acertou. Tentando manter tudo exatamente como estava. Ou você pode fazer o que eu fiz.
"O que você fez?" perguntou Lucas, sua voz pequena.
"Continuei" disse Mateus. "Continuei procurando novos caminhos, novos desafios, novas formas de estar vivo. Porque, Lucas, estar vivo não é sobre chegar a um destino. É sobre ter sempre uma razão para caminhar."
Ele parou em uma fotografia específica — Mateus jovem, em frente a um pequeno escritório, com uma placa que dizia "Consultoria Mateus & Associados." Mas havia algo mais na foto que Lucas nunca havia notado antes. Havia medo nos olhos daquele jovem. Havia incerteza absoluta. Havia a expressão de alguém que estava prestes a pular de um penhasco e não tinha certeza se havia água lá embaixo.
"Aquele rapaz," apontou Mateus, "recusou a segurança. Recusou o alvo certo. E você sabe o que aconteceu? Ele fracassou. Muitas vezes. Perdeu dinheiro, perdeu clientes, perdeu noites de sono. Mas nunca perdeu a razão para acordar."
Lucas olhou para o rosto de seu avô, e pela primeira vez, compreendeu que a serenidade que havia visto não era a ausência de medo. Era a presença de algo maior que o medo. Era a aceitação de que a vida era fundamentalmente incerta, e que essa incerteza era exatamente o que a tornava valiosa.
"Você está me dizendo para recusar a multinacional," disse Lucas, e não era uma pergunta.
"Não," respondeu Mateus. "Estou te dizendo que você já sabe a resposta. Você veio aqui porque sabe que quer recusar. Você veio aqui porque precisa de permissão para errar. E eu estou te dando essa permissão. Não como seu avô. Como alguém que está prestes a sair desta vida e quer deixar para trás a certeza de que você viverá a sua, não a vida que as pessoas esperavam que você vivesse."
O relógio começou a bater. Uma, duas, três vezes. A cidade inteira parecia prender a respiração.
Mateus levantou-se lentamente, e Lucas o ajudou, segurando seu braço. Seu avô estava mais leve do que Lucas havia imaginado — como se a doença já estivesse começando seu trabalho de desmontar aquele corpo, célula por célula.
Mateus levantou a taça, e Lucas fez o mesmo com a sua. Lá fora, os fogos de artifício explodiram em cascatas de cores, e por um breve momento, o apartamento foi inundado de luz.
"Ao novo ano," disse Mateus, sua voz fraca mas firme. "E aos alvos que ainda não acertamos."
"Aos alvos que ainda não acertamos," repetiu Lucas.
Quando o champanhe tocou seus lábios, Lucas sentiu algo mudar dentro dele. Não era uma epifania súbita. Era mais como uma porta se abrindo lentamente, revelando um corredor longo e escuro que ele teria que atravessar sozinho. Ele compreendeu, naquele momento, que seu avô não estava apenas lhe dando um conselho. Estava lhe passando uma tocha que em breve não poderia mais carregar.
Mateus sentou-se novamente, e Lucas permaneceu de pé, olhando para a cidade. Lá fora, milhões de pessoas estavam fazendo promessas a si mesmas. Promessas de serem melhores, mais fortes, mais bem-sucedidas. Promessas de acertar alvos.
Mas Lucas estava fazendo uma promessa diferente. Estava prometendo a si mesmo que erraria de propósito. Que buscaria caminhos que não conseguia ver completamente. Que viveria de forma que, quando chegasse sua hora — e chegaria, para todos chegava — ele não teria apenas acertado alvos. Teria explorado caminhos.
"Você vai recusar a multinacional?" perguntou Mateus, sua voz quase inaudível agora.
Lucas virou-se e viu seu avô encostado no sofá, os olhos fechados, como se estivesse ouvindo os fogos de artifício de uma forma que Lucas não conseguia. Havia algo de paz naquele rosto, mas também algo de cansaço — o cansaço de alguém que havia caminhado muito longe e finalmente estava permitindo-se descansar.
"Sim," disse Lucas. "Vou recusar."
Mateus sorriu, piscando-lhe os olhos. "Bom. Porque eu já recusei por você uma vez. Agora é a sua vez."
Lucas sentou-se ao lado de seu avô e permaneceu ali enquanto a meia-noite passava e a cidade celebrava. Não havia mais palavras a serem ditas. Havia apenas o silêncio compartilhado de dois homens — um no crepúsculo de sua jornada, outro no amanhecer da sua — compreendendo, finalmente, que é importante saber para onde se está indo, mas a verdadeira sabedoria consiste em compreender que sempre há um novo lugar para ir. Mesmo quando o tempo está acabando.
Especialmente quando o tempo está acabando.



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