top of page

Manifesto Antropofágico da Insistência e Outros Textos sobre a Compulsão à Repetição

  • 1 de mar.
  • 9 min de leitura


Homem em loop num beco noturno; placa “Último”, fumaça e bourbon. Capivara na lama, frasco com labirinto e ouroboros sugerem repetição.

I - MANIFESTO ANTROPOFÁGICO DA INSISTÊNCIA


Só a Insistência me interessa. A que não é repetição. A que é ritual.

Contra todos os importadores de catálogos de felicidade. A existência já vivida é a grande falácia.


Só me é interessar o que não é meu. Lei do homem. Lei do insistente.

Devoramos Freud, o pai assombrado. E filtramos sua compulsão. Com a farinha do nosso próprio caráter. E fizemos dela um novo totem: a Insistência Ritual.

Contra o Progresso Linear. Contra a evolução como fuga. A verdadeira evolução é a volta ao ponto crucial, mastigado, digerido e cuspido em nova forma. O ontem revisitado é o amanhã possível.


Queremos o erro substantivo. O erro que nos constitui. A Revolução Caraíba. Mais potente que a Revolução Francesa. Porque não corta a cabeça do Rei Pai. A devora e, na digestão, encontra seu próprio perfil.

Não há o que fugir. Só o que deglutir. O trauma não é um fantasma a ser exorcizado. É o prato principal do banquete identitário. Comemos nossa desgraça e dela fazemos seiva.


Contra a memória coberta de catedrais. A memória é uma capivara no pantanal do tempo. Viva, lamacenta, imprevisível. A lembrança fixa é um embalsamamento.

A insistência não é neurose. É o ritmo da batida do coração brasileiro. É o samba que se repete para se reinventar. É o sol que nasce no mesmo lugar, mas ilumina novas podridões e novas flores a cada dia.


Fomos educados pela colônia do esquecimento. “Supere”, “vire a página”, “deixe para trás”. Erro crasso. A página virada é a mesma história escrita no verso. Lemos os dois lados. E mastigamos o papel.


A Psicanálise Acadêmica nos vestiu de doentes. Nós nos despimos e pintamos o corpo com os signos da nossa própria mitologia. Nossa loucura não é caso clínico. É caso de poesia.


O instinto Caraíba.

Contra a cura. A favor da convivência sagrada com o próprio demônio doméstico. Meu abismo me pertence. E eu o cultivo como um jardineiro cultiva uma orquídea rara e venenosa.

A existência não é uma linha reta do berço ao túmulo. É um movimento de mandíbula. Mastigar, engolir, digerir, regurgitar, remastigar. A mesma matéria, transformada a cada ciclo.


Não repito. Sou repetido. E nesse ser repetido encontro minha originalidade. O córrego que segue o mesmo leito ano após ano é o mesmo que esculpiu o canyon.

A alegria é a prova dos nove. Se ao re-viver a dor, você encontra um sabor novo, uma nuance de amargor que antes passara despercebida, e isso lhe dá um êxtase de reconhecimento, você é um Antropófago da Insistência.


Contra o mundo vinculado. Contra a fuga para frente. Pelo retorno ritual. Pela mordida circular no próprio rabo.


A Insistência é o Brasil por descobrir. O Brasil que não foge de si mesmo. O Brasil que olha no espelho e vê, sem horror, a cara redonda de sua própria história em loop.

Abaixo o esquecimento higiênico! Viva a memória que come a própria carne e renasce, um fênix de bagaço e ossos!


Tupy or not tupy, that is the question.


E a resposta é: Tupy! Tupy, remastigando sempre o mesmo osso cultural, o mesmo osso familiar, o mesmo osso amoroso. Até sugar dele todo o tutano, todo o sentido, toda a seiva insana e fundadora.


Piratininga, Ano 515 da Deglutição do Pai Europeu. Ano 1 da Era da Insistência Consciente.


Assinado: O Antrópófago de Si Mesmo


II- DECÁLOGO DA INSISTÊNCIA


I. Não terás outro vício além do teu próprio passado. Amarás teu erro com fidelidade canina, com a devoção de um santo a um diabo familiar.


II. Não dirás que é repetição, mas destino. O que os fracos chamam de compulsão, os fortes batizam de sina. A tua é uma tragédia grega com cheiro de guarda-roupa velho e uísque barato.


III. Escolherás sempre o mesmo amor impossível. E dar-lhe-ás um novo nome, como quem põe uma cortina nova na janela que dá para o mesmo abismo.


IV. Honrarás teu pai, tua mãe e o trauma que eles, sem querer, te legaram. A família é uma cela com flores. E tu serás o prisioneiro mais dedicado, aquele que, tendo a chave, insiste em trancar-se por dentro.


V. Confundirás constância com caráter. Não é que sejas burro, não. É que tens princípios. E o teu princípio mais sagrado é o de nunca, jamais, aprender com as próprias dores.


VI. Matarás o teu irmão todos os dias. No altar da tua memória, sacrificarás a possibilidade da alegria simples. O luto será teu traje mais elegante e justificativa para todos os teus tropeços.


VII. Adulterarás a realidade. Chamarás de 'experiência única' o que é o centésimo capítulo da mesma novela. E viverás da poeira dos jornais velhos da tua própria história.


VIII. Furtarás de ti mesmo a chance de ser feliz. A felicidade é uma ofensa ao teu martírio, uma interrupção grosseira no teu monólogo dramático. Suspeitarás dela como de um elogio barato.


IX. Levantarás falso testemunho contra a tua própria evolução. Dirás que mudaste, que estás novo. Mas, no primeiro baque, recuarás para a couraça antiga, reconfortante no seu mofo conhecido.


X. Cobiçarás a prisão alheia. Olharás para a liberdade dos outros com desdém e um pouco de inveja. E voltarás, aliviado, para o teu próprio cárcere. Pois, no fundo, só acreditas no amor que vês pelo buraco da fechadura — e o teu mundo cabe todo nessa fresta.


Assinado: Um Menino Aplicado e Seu Destino Redondo.


III - BULA DO MEDICAMENTO "INSISTERMÔ® (CLORIDRATO DE ATENTISMO ATIVO)


BULA DO PACIENTE

INFORMAÇÕES TÉCNICAS E LITERÁRIAS SOBRE O MEDICAMENTO

Esta é uma peça de ficção literária. Para questões de saúde mental, consulte um profissional qualificado.


1. IDENTIFICAÇÃO DO MEDICAMENTO


  • INISITERMÔ® (cloridrato de Atentismo Ativo)

  • APRESENTAÇÃO: Comprimidos revestidos de cor pérola, marcados com um símbolo de labirinto em uma das faces. Frascos com 30 unidades.

  • USO ORAL

  • VENDA SOB PRESCRIÇÃO PSICANALÍTICA OU POÉTICA


2. INFORMAÇÕES AO PACIENTE

PARA QUE ESTE MEDICAMENTO É INDICADO?

InsisTermô® é indicado para o tratamento da Compulsão à Repetição (CR), também conhecida coloquialmente como "Síndrome do Mesmo Beco" ou "Tendência a Re-escrever o Pior Capítulo da Própria Vida". Atua especificamente no alívio da necessidade patológica de reencenar traumas passados em relacionamentos, escolhas profissionais e hábitos emocionais, mascarando-a como "insistência", "destino" ou "estilo pessoal".


COMO O INISITERMÔ® FUNCIONA?

O princípio ativo, o Atentismo Ativo, é um agente paradoxal de ação central. Ele não suprime a repetição, mas modula a percepção do ato repetitivo. Em vez de simplesmente repetir, o paciente começa a observar-se repetindo com um distanciamento crítico e irônico. O mecanismo de ação envolve:


  1. Bloqueio dos Receptores de Autoengano (RAE), responsáveis pela narrativa interna de "desta vez é diferente".


  2. Estimulação leve dos Núcleos da Ironia Consciente (NIC), permitindo que o paciente identifique o padrão enquanto está nele.


  3. Criação de um Intervalo de Suspensão entre o estímulo (ex.: encontrar um novo parceiro com a mesma característica tóxica do anterior) e a resposta automática (se apaixonar). Neste intervalo, habita a possibilidade de escolha.


QUANDO NÃO DEVO USAR O INISITERMÔ®?


  • Hipersensibilidade ao princípio ativo (Atentismo Ativo) ou a qualquer componente da fórmula (especialmente à lactose do autoengano).


  • Pacientes com Deficiência Congênita de Humor, cuja condição não permite o distanciamento irônico necessário.


  • Indivíduos que confundem Perseverança Saudável (treinar para uma maratona) com Insistência Patológica (correr atrás de quem não te quer).


  • Gestantes: O uso é contraindicado, pois pode induzir no feto uma precoce e desnecessária consciência dos padrões familiares disfuncionais.


COMO DEVO USAR ESTE MEDICAMENTO?


  • Posologia: Ingerir 1 comprimido ao primeiro sinal de que está prestes a reescrever um erro antigo com uma nova caligrafia. Pode ser tomado junto com um copo d'água fria e uma olhada no diário de 5 anos atrás.


  • Modo de Usar: O comprimido deve ser colocado sob a língua no momento exato em que a frase "mas ele(a) é diferente" começar a se formar no pensamento. Deixe dissolver enquanto relembra os nomes dos três últimos parceiros que também "eram diferentes".


QUAIS OS MALES QUE ESTE MEDICAMENTO PODE ME CAUSAR?

Como todo agente que mexe com as fundações da personalidade, InsisTermô® pode causar efeitos adversos, geralmente leves e transitórios:


  • Muito Comuns (>10% dos pacientes): Acesso súbito de lucidez durante um date; sensação de ridículo ao recontar a mesma história de sofrimento; tédio diante de dramas anteriormente cativantes.


  • Comuns (1% a 10%): Perda temporária do tema principal de conversa em terapia; necessidade de reinventar hobbies; leve desconforto ao perceber que os amigos já sabiam do seu padrão há anos.


  • Incomuns (0,1% a 1%): Vontade inédita de responder mensagens no tempo devido; diminuição do acervo de mágoas preferidas; tentativa espontânea de um caminho novo para o trabalho.


INTERAÇÃO COM OUTROS COMPOSTOS


  • Álcool Etílico (Vinho, Whisky, etc.): Pode anular completamente o efeito do medicamento, levando a recaídas dramáticas e ligações noturnas desaconselháveis.


  • Playlists Nostálgicas: Potencializam o efeito de forma perigosa, podendo levar a estados de melancolia aguda e re-leitura de antigas conversas.


  • Conselho de Amigos Céticos: É um adjuvante terapêutico eficaz. Potencializa os bons resultados.


  • Terapia Junguiana ou Freudiana: Interação altamente sinérgica e recomendada.


COMO DEVEM SER FEITOS O ARMAZENAMENTO E O DESCARTE?


  • Armazenamento: Conservar em temperatura ambiente (entre 15° e 30°C), longe de luz solar direta, fotos antigas de relacionamentos e objetos de valor afetivo duvidoso.


  • Manter fora do alcance de crianças: Elas ainda acreditam em finais felizes inéditos e não estão preparadas para este fármaco.


IV- À GUISA DE CONCLUSÃO: O FARDO


O homem desceu do apartamento no nono andar. A noite cheirava a fritura, esgoto e um resto de esperança podre. Ele caminhou com as mãos nos bolsos do casaco, mesmo fazendo calor. O calor era dentro dele. Um calor úmido de máquina quebrada girando em falso.


Não era a primeira vez. Seria a centésima? A milésima? Ele perdera a conta, como se perde a conta dos cigarros fumados ou dos copos bebidos. O que importava era o caminho. Sempre o mesmo. Descia pela Rua do Ouvidor, virava na Praça Tiradentes, onde os meninos cheiravam cola debaixo dos bancos. Seguia em frente, passando pelos bares com luzes azuis e televisões altas, até chegar ao beco atrás da estação velha.


Lá, na penumbra suja de graxa e urina, estava o bar. O Último Recurso. A placa estava queimada, só aparecendo "Último". Era o suficiente.


Ele empurrou a porta de madeira pesada. O ar condicionado era a própria ausência de ar, quente, parado, cheio de fumaça e desespero barato. Sentou-se no mesmo banco, no canto, de costas para a parede. Olhos de veterano de guerra. Nenhum espelho. Espelhos eram perigosos ali.


A mulher se aproximou. Não a mesma mulher. Outra. Mas com o mesmo cheiro de talco barato, suor doce e derrota. O mesmo olhar que fingia uma promessa e escondia um vácuo. O mesmo sorriso com um dente quebrado, levemente desalinhado, como tudo naquela vida.


— Boa noite, amor. Tudo bem? — disse ela, com a voz rouca de cigarro e noites mal dormidas.


Ele não respondeu. Acenou com a cabeça para o balcão. O dono, um sujeito gordo cujo nome ele nunca soubera, pegou a garrafa de bourbon do segundo prateleira e encheu um copo baixo até a borda. Sem gelo. O ritual.


Freud. Ele pensou na palavra enquanto o primeiro gole descia, queimando o mesmo caminho de sempre. Freud nunca havia posto os pés num lugar como aquele. Freud falava de compulsão à repetição como quem descreve um ballet. Uma coreografia de sintomas. Aquilo não era um ballet. Era um naufrágio em câmera lenta. E ele voltava todo dia para o mesmo navio que afundava, para a mesma cabine, para afundar de novo. Não por desejo de morte. Por falta de imaginação para outro tipo de vida.


A mulher sentou-se ao seu lado. Seu toque era leve, profissional.

— Tá carregado hoje, né meu bem?


Ele olhou para ela. Viu, não seus olhos, mas os olhos de todas as outras. A mãe, distante e amarga. A primeira namorada, que o traiu com seu melhor amigo. A esposa, que partiu levando o que restava de móveis e dignidade. Todas se fundiam naquela face pintada, naquela expressão de falsa pena. Era mais fácil pagar por isso. A transação era clara: dinheiro por um simulacro de atenção. Nada de promessas, nada de futuros, nada daquela angústia de esperar um amor que sempre, sempre, se transformava na mesma facada.


Não era compulsão. Freud estava errado. Compulsão era um impulso. Algo que vem de fora e te domina.


Aquilo era geologia.


Era uma camada após a outra de dor, de humilhação, de pequenas traições, compactadas pelo tempo até virar rocha. Ele não repetia o erro. Ele habitava a formação rochosa do seu próprio caráter. Escavar para sair dali seria morrer soterrado. Melhor sentar-se na superfície dura e familiar e tomar seu bourbon.


A mulher cochichou algo sujo no seu ouvido. Ele não ouviu as palavras, só o sussurro. Era o mesmo sussurro de sempre. O som da conivência. O som de se entregar, sem luta, ao que você já sabe que é.


Ele pagou pela bebida. Pagou pela mulher. Seguiu-a pelo corredor escuro, com o mesmo coração batendo no mesmo ritmo de sempre — nem acelerado pelo desejo, nem lento pelo tédio. Apenas batendo. Um metrônomo marcando o tempo de uma única nota musical, grave e eterna.


No quarto minúsculo, enquanto ela se despia com movimentos práticos, ele olhou pela janela suja. Viu os trilhos da estação, parados na escuridão. Trens que iam e vinham.

Sempre os mesmos trilhos. Sempre os mesmos destinos.


Ela deitou-se na cama e olhou para ele, esperando.


Ele pensou, tirando o casaco: não estou aqui para esquecer. Estou aqui para lembrar. Para reafirmar, na carne barata e no espírito gasto, que este é o meu lugar. O mundo lá fora é para os que acreditam em finais diferentes. Eu acredito só no meio. E o meio é sempre este aqui: um quarto barato, um corpo estranho, e a solidão como a única amante verdadeira e fiel.


Deitar-se ao lado dela não era desejo.

Era uma cerimônia.


A cerimônia de aceitar que algumas feridas não cicatrizam. Elas são portas. E eu entro e saio por elas todo santo dia, não porque espero encontrar algo diferente do outro lado, mas porque já me acostumei com a maçaneta.


Freud daria um nome grego para isso.

Ele deu um gole no bourbon que trouxera consigo.

O nome dele era apenas: a vida.


E a vida, para alguns, não é uma busca.

É uma sentença cumprida dia após dia, com a precisão de um prisioneiro que poliu o chão da cela com o vai e vem dos próprios pés.


O homem apagou a luz.

No escuro, era tudo igual.

Era sempre igual.

Era o único conforto que lhe restava.



Comentários


bottom of page