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Três Crônicas sobre a Esperança, Um Substantivo que não Age


Ilustração conceitual e contemplativa sobre a esperança como um objeto físico: uma mão humana segura uma pequena esfera translúcida com brilho suave, simbolizando a esperança como “coisa” e não como ação. Ao fundo, um ambiente doméstico desfocado com estante e objetos esquecidos sugere projetos inacabados e a espera silenciosa. A paleta em tons neutros e quentes cria uma atmosfera íntima e reflexiva, evocando a ideia de esperança guardada, carregada e mantida no presente.


A Espera da Esperança


Há coisas que só acontecem em português. Ou melhor, que não acontecem em português. Tomemos o caso da esperança. Bonita palavra, redonda, reconfortante. Serve de nome para cidade, para filha, para barco. "Minha esperança", diz o poeta. Tudo muito nobre. O problema é que ela, a esperança, é um substantivo. Ponto final. Não sai do lugar.


Pense bem. Em inglês, você hopes. É uma ação, um verbo ativo, quase um pequeno salto no peito do futuro. Em espanhol, você espera (que também significa esperar, o que é confuso, mas enfim). Em francês, você espère. Todos verbos, todos indicando algo que você faz, por mais imóvel que esteja.


Aqui, não. Aqui, a esperança é uma coisa. Você tem esperança. Você alimenta a esperança. Você perde a esperança. Ela é um objeto, uma posse, um bem que pode ser guardado no bolso, embaixo do travesseiro ou esquecido no fundo da gaveta. Mas ela não age. Ela é agida. Ela é o conteúdo, nunca o gesto.


Isso explica muita coisa da nossa psique nacional, ou pelo menos daria um bom ensaio para algum sociólogo de domingo. O brasileiro não "esperança". O brasileiro tem uma esperança. E, tendo-a, pode com ela o que quiser: colocá-la na prateleira para mais tarde, empurrá-la com a barriga, deixá-la em modo de espera — perdoem o trocadilho inevitável. A esperança é aquele parente distante que veio passar uma temporada e acabou ficando no sofá da sala, vendo novelas. Acolhemo-la, mas não esperamos que ela levante para lavar a louça.


Imagine a cena: um casal discutindo. "Eu espero que você mude!", diz ela, no limite. Ele, impassível, responde: "Minha esperança é que a gente se entenda." Veja a diferença sutil e fatal. Ela está fazendo um esforço ativo de esperar por uma mudança — ainda que usando o verbo "esperar", que é primo fraco de "esperançar". Ele apenas declara a existência de uma coisa, a esperança, como quem aponta para um vaso no canto. O vaso não fará a mediação do conflito.


O verbo "esperançar" até existe, é verdade, mas soa como neologismo de poeta, um remelexo desengonçado no idioma. Ninguém, no dia a dia, diz "vou esperançar que o ônibus chegue". Dizemos "vou torcer para que o ônibus chegue". Torcer é um verbo excelente, cheio de movimento, que implica contorção física e emocional. Já a esperança... a esperança é o prêmio que talvez ganhemos se acertarmos o resultado da contorção.


Somos, portanto, um povo de substantivos. De coisas que temos, que carregamos, que perdemos. A saudade — outra que não é verbo —, a alegria, a tristeza, a fé, a desilusão. Tudo entidades, moradoras da nossa casa interior. A esperança é a mais otimista delas, é claro, mas também a mais preguiçosa. Fica ali, sentada no alpendre da alma, olhando o horizonte. Não vai buscar, não vai lutar, não vai construir. Ela apenas é.


Talvez seja por isso que gostemos tanto dela. É menos trabalhoso ter um sentimento do que praticar um ato. É mais confortável possuir a esperança de que tudo vai melhorar do que efetivamente esperançar a melhora, com todo o suor e contratempos que isso implica.


Há uma solidão profunda nisso. Enquanto o verbo cria pontes — esperançar por algo, esperançar com alguém —, o substantivo é uma ilha. "Minha esperança" é uma propriedade privada, intransferível, quase um defeito de fabricação da alma. Confessá-la soa sempre como uma fraqueza. "Eu ainda guardo a esperança de que..." é uma frase que se sussurra, como quem admite colecionar selos ou ter a mania de contar azulejos.


A literatura está cheia de verbos heroicos: amar, lutar, vencer, transformar. A vida comum, essa que se espreita nas frestas, é governada por substantivos: a conta, a dor, a rotina, a espera. E a esperança. Sempre ela, a mais teimosa de todas. Não nos leva a agir; permite que suportemos a inação. É o avesso da fé. A fé é um verbo ativo, mesmo quando silencioso — você crê, você confia, você se entrega. A esperança é o objeto que se acaricia no bolso, no escuro, quando os verbos se esgotam.


Talvez ela sobreviva justamente por sua inutilidade prática. Um verbo pode falhar — você pode tentar amar e não conseguir, tentar construir e ver a obra ruir. Um substantivo apenas é. A minha esperança, essa coisa banal e desbotada, não precisa ser eficaz. Basta que exista. Como uma pedra lisa que a mão encontra no bolso do casaco no inverno. Não aquece, não resolve, não transforma. Apenas ocupa um espaço. Um pequeno volume contra o vazio.


No fim das contas, a gramática nos trai. Enquanto a esperança for um substantivo, será sempre algo que nos acontece, e não algo que fazemos. Será a flor no deserto, e não a mão que rega. Será o bilhete de loteria esquecido no bolso do paletó, e não o trabalho de segunda a sexta.


Mas, quem sabe? Enquanto eu escrevia isso, a minha esperança — aquela coisa quietinha — deu uma leve espreguiçada no sofá da alma. Talvez, só talvez, ela esteja pensando em levantar e aprender a conjugar seus próprios verbos. A língua, como a vida, é viva. E um dia, quem sabe, nós não apenas teremos esperança, mas, finalmente, bravamente, esperançaremos.


A Coisa na Estante


A minha esperança, a gente combina, mora na estante. Não está sozinha. Divide a prateleira com um manual de instruções de um telescópio que nunca funcionou direito, um porta-retratos vazio que prometi preencher, e um bonequinho do Homer Simpson sem a perna direita. Ela está ali, entre outros projetos de vida inacabados ou com defeito de fabricação. É uma coleção de intenções mumificadas.


Eu percebi isso ontem, durante uma discussão doméstica clássica. Minha mulher, sobre uma infiltração no teto do banheiro que cresce devagar e sem pressa, como um musgo cosmopolita, disse com a voz que não é pergunta, fez a seguinte constatação:


— Não dá mais. Temos que resolver isso.


Ela usou um verbo. Um verbo forte, de mangas arregaçadas. Resolver implica etapas: pesquisar orçamentos, ligar para o síndico, enfrentar poeira, tomar decisões. Resolver tem fases intermediárias de frustração, tédio burocrático e, eventualmente, um teto inteiro. É um verbo que sai da boca e vai direto para o mundo externo, alterar matéria.


Eu, instintivamente, respondi da minha poltrona, sem tirar os olhos do celular onde um vídeo de cachorro surfista rodava em loop:


— Minha esperança é que o síndico resolva.


Ela virou-se lentamente. Não era raiva no olhar. Era uma espécie de cansaço antropológico. A mesma expressão de quando explico que a "pilha de livros para ler" é uma escultura conceitual e não procrastinação, ou quando argumento que deixar as roupas no chão "ventila melhor o tecido".


— Sua esperança? — ela repetiu, como se provasse a palavra na boca e achasse o gosto estranho, de remédio vencido. — E onde está essa sua esperança, exatamente? Ela pinta? Faz massa corrida? Contrata o pedreiro?


Foi quando minha vista vagou para a estante. E lá estava ela. Não uma ação, mas uma coisa. Um potinho de vidro etiquetado "Esperança", como aqueles que guardam algodão ou parafuso sobressalente. A minha frase não tinha sido um plano, nem um propósito. Tinha sido um inventário. "Minha esperança está ali, na prateleira do meio. Pode verificar. Ao lado do Homer Simpson."


O problema é que essa é uma operação nacional. Não sou só eu. Somos milhões de curadores de esperanças engarrafadas. Não sou muito de teorias; minha preferência é constatar os absurdos que a vida embrulha pra viagem. E o absurdo é que fazemos isso o tempo todo, com a naturalidade de quem respira. Transformamos forças motrizes em itens decorativos.


"Minha esperança é que o time se classifique." E lá fica a esperança, pendurada na trave como uma bandeira desbotada, enquanto você assiste ao jogo deitado, comendo salgadinho. Você não vai ao estádio, não compra ingresso, não grita até ficar rouco. A esperança vai. Sozinha. Boa sorte pra ela.


"Minha esperança é que o chefe se esqueça do relatório." Enquanto isso, você não revisa o texto, não adianta a entrega, não manda um e-mail preemptivo explicando o atraso. Você espera — com a esperança — que o universo opere um milagre de esquecimento seletivo na memória corporativa. Spoiler: não opera.


"Minha esperança é que o candidato eleito conserte o país." E você não vai à reunião do conselho comunitário, não fiscaliza obra pública, não cobra promessa de campanha. A esperança, essa entidade autônoma e vagamente mística, é quem vai fazer o trabalho de cidadania. Você apenas a possui, como quem tem ações de uma empresa que nunca dá lucro mas você insiste em não vender.


É curioso como a gramática nos permite essa mágica. Em inglês, se você diz "I hope", você está fazendo alguma coisa, mesmo que seja só uma operação mental. O hoping é ativo, quase atlético. Aqui, não. Aqui a esperança é terceirizada. Ela é um produto, não um processo. E como todo produto na prateleira, ela pode ficar ali por tempo indeterminado, acumulando poeira, esperando que alguém — o síndico, o governo, o destino, o algoritmo da Netflix — faça o serviço no nosso lugar.


Minha mulher, que é uma pessoa de verbos, foi buscar a escada. O verbo subir. Depois, o verbo ligar. Ligou para o síndico. Houve verbos ouvir, discutir, marcar, negociar, insistir. Cada um desses verbos era um pequeno tijolo na construção de um teto sem infiltração. Era cansativo só de assistir.


Eu, da poltrona, apoiei moralmente. Torci pela conclusão eficaz dos verbos dela. Minha contribuição ativa foi o verbo concordar, dito com firmeza e até com um aceno de cabeça que julguei suficientemente solidário, quando ela me olhou após desligar o telefone. Também ofereci um "Boa sorte" no meio da ligação, que é o equivalente verbal de um emoji de dedão levantado. Participação registrada.


A esperança, na estante, parece ter ficado um pouco empoeirada com o vai-e-vem. Meio ofendida, talvez, por ter sido escalada para um trabalho que não era dela. Esperanças não foram feitas para consertar infiltrações. Foram feitas para... bem, para ficarem bonitas na estante, dando aquele ar de que você é uma pessoa com perspectivas futuras, ainda que inoperantes.


Talvez eu a tire dali um dia, para limpar. Quem sabe até a coloque em prática, trocando-a por um verbo qualquer. "Esperançar" soa ambicioso demais, quase um empreendedorismo emocional. Talvez "começar" já esteja de bom tamanho. Ou "tentar". Ou até, sabe, "fazer", que é o verbo mais honesto e ingrato de todos, porque exige que você se levante da poltrona.


Mas, por hoje, a coisa fica onde está. Afinal, amanhã é outro dia, e sempre é bom ter uma esperança à mão — nem que seja só para apontar para ela e dizer, com um suspiro que dispensa explicação:


— Olha só. Ali.


É reconfortante, no fim das contas, saber que pelo menos uma coisa na vida está exatamente onde você deixou. Leve, brilhante e absolutamente inútil. Como deve ser. A esperança é a nossa mais duradoura ficção.


Da Esperança que Habitamos


“Não se esperançam cavalos no curral,

tem-se esperança, como se tem um cão.”


E então um dia me dei conta da esperança. Não como se dá conta de um pensamento, mas como se depara com um objeto esquecido no bolso. Uma coisa. Uma coisa macia e pesada. Tinha-a comigo havia tanto tempo que sua presença se confundira com o próprio corpo. Era minha? Ou eu era dela?


A Fé é uma estátua de barro cozido no forno da alma. A Saudade é um baú de cedro com ferragens de bronze. Esperar é um verbo que se estica no tempo, é fio. Mas a esperança — ah, a esperança é o novelo inteiro, compacto e mudo, ocupando um lugar no espaço da alma. Não se esperança. Tem-se esperança. Como se tem um osso. Como se tem uma pedra preciosa que não brilha. É um ter. E nesse ter há uma posse tão íntima que beira a violência. A coisa esperança adere à carne interior, cria raízes silenciosas. Arrancá-la seria um parto seco.


Olhei para minha esperança com a atenção crua com que se olha para um inseto imóvel. Ela não era luminosa. Não tinha a aspereza vívida da alegria, nem o corte úmido da tristeza. Era matéria opaca. Uma espécie de caroço de futuro. Duro por fora, com uma polpa de possibilidade ainda verde por dentro. Mas era sobretudo uma presença física. Um volume. Algo que, se pudesse ser colocado na palma da mão, teria peso, temperatura, textura de veludo gasto.


Por que nos deram uma coisa e não um gesto? Por que nos fizeram colecionadores de futuros em vez de dançarinos do agora? Talvez porque um verbo cansa. Um verbo exige sujeito, exige direção, exige o suor da conjugação. Esperançar seria uma fadiga. Mas ter esperança… ter esperança é um estado. É sentar-se à mesa com a própria sombra e com ela partilhar o pão da quietude. É um não-fazer que é, em si, uma forma profunda de ser.


Às vezes, a coisa esperança move-se. Não como um pássaro que levanta voo, mas como um gato que se espreguiça no sol da manhã, ajustando seu corpo ao lugar exato do calor. Ela se acomoda. Muda de forma para caber no novo vazio, no novo medo. É plástica. É orgânica. Se a esprememos, não sai sangue, sai um sumo grosso e doce — mel de abelhas que recolheram pólen de flores que ainda não nasceram.


E eu, que a tenho, o que sou senão o vaso desta coisa? Não sou eu quem esperança. É ela que, em mim, espera. Sou o lugar onde ela habita. O terreno onde este caroço está plantado. Germinará? Não sei. A verdade da esperança não está no fruto, está no estar plantada. Na quieta e teimosa decisão de ser semente. Eterna semente.


Esperança é o curral. É para onde se traz o cansaço do dia. É o cercado de estacas onde o futuro, bravo novilho, fica pastando, até a hora do abate ou da festa. Você não “esperança” a chuva. Você tem a Esperança da chuva, como se tem um bordão de pele curtida ao sol, à espera do bácoro.


Meu avô, um homem da lei seca do destino, me ensinou: “Menino, desconfie do verbo que voa. Aprenda a amar o substantivo que fica. O amor-verbo é paixão de uma noite. O Amor-substantivo é a mulher com quem você cria parede e cria filho. A esperança-verbo é um suspiro. A esperança-substantivo é a parede da própria casa, que você vai erguendo, tijolo de adobe por dia, mesmo sabendo que o mundo é um vento forte”.


Há uma glória nisso. Uma glória humilde e subterrânea. Enquanto o mundo lá fora é feito de verbos estridentes — correr, ganhar, gritar, conquistar —, eu habito com meu substantivo silencioso. Minha ação é a inação. Minha conquista é a posse deste nada que é tudo. Este objeto não catalogável. Este bem sem valor. Este fardo que é asa.


A esperança, percebo agora, não é sobre o amanhã. É sobre o agora. É a materialização do instante, a coisa que seguramos para não desfalecer de tanto presente. Ela não aponta para a frente. Ela aprofunda o aqui. Tê-la é estar radicalmente ancorado no agora, com todas as suas ferramentas de possibilidade à mão — ferramentas que nunca usaremos, mas cujo simples peso nos mantém eretos. Ela não nos leva a lugar nenhum. Ela é o lugar. E é aqui que eu fico, plantado no chão de minha esperança, como um mandacaru que não se desarraiga, porque aprendeu que a raiz é mais importante que a flor.


E assim, carrego minha coisa. Não a nomeio mais. Apenas sinto seu contorno contra as entranhas. Um objeto sem função. A minha esperança pode nunca se realizar, mas, enquanto coisa, ela jamais será um fracasso. Será sempre a minha esperança, intacta, inalterada, uma joia de vidro que reluz com o mesmo brilho ilusório, quer a fortuna me sorria, quer ela me vire as costas. E neste silêncio entre nós, neste pacto de não-ação, entendo finalmente: a mais alta forma de esperança é render-se à sua natureza de coisa. E deixar-se habitar.

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