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A Obsolência Programada das Emoções na Atualidade

Ilustração da obsolescência programada das emoções na era digital, com silhueta fragmentada, corações em decomposição e elementos algorítmicos.

RESUMO


Este ensaio transpõe o conceito de obsolescência programada da produção industrial para o campo das emoções humanas, sustentando que, na sociedade da hiperconectividade e do capitalismo de vigilância, os afetos passam a ser estruturados como efêmeros, descartáveis e substituíveis. Argumenta-se que essa dinâmica não é efeito colateral da tecnologia, mas elemento estrutural de modelos econômicos baseados na captura da atenção, na mercantilização da experiência e na previsibilidade comportamental. A partir de revisão bibliográfica crítica, articulando sociologia, filosofia, psicologia e neurociência, analisa-se como algoritmização do desejo, FOMO, cultura do cancelamento e banalização linguística fragilizam vínculos, erodem empatia e intensificam ansiedade, depressão e burnout emocional. Discute-se a tensão entre determinismo tecnológico e agência humana, reconhecendo limites e possibilidades de resistência. Conclui-se que a defesa da profundidade emocional constitui imperativo existencial e político, exigindo ações individuais, culturais, tecnológicas e institucionais para proteger a atenção e revalorizar vínculos duradouros frente à lógica do descarte afetivo.


Palavras-chave: Obsolescência programada. Emoções. Capitalismo de vigilância. Redes sociais. Saúde mental. Teoria crítica. Resistência. Sustentabilidade emocional.


1 Introdução: A Mercantilização do Sentir

1.1 Definição Conceitual


A obsolescência programada, conceito originalmente vinculado à produção industrial, refere-se à estratégia deliberada de reduzir a vida útil de produtos para estimular ciclos contínuos de consumo (PACKARD, 1965). Quando transposto para o campo das emoções humanas, este conceito adquire uma dimensão crítica e inquietante: as emoções contemporâneas são estruturadas para serem efêmeras, descartáveis e constantemente substituíveis, seguindo a mesma lógica mercadológica aplicada aos bens materiais.


Bauman (2004, p. 8) argumenta que vivemos em uma "modernidade líquida", caracterizada pela fluidez, instabilidade e transitoriedade das relações sociais e dos vínculos afetivos. Neste contexto, os sentimentos tornam-se commodities emocionais – produtos padronizados, quantificáveis e intercambiáveis no mercado das interações humanas. Como observa Han (2017, p. 9), "o amor é degradado a um sentimento que se consome", perdendo sua dimensão de permanência e compromisso para se tornar objeto de gratificação imediata.


A filósofa Eva Illouz (2011, p. 13) complementa essa análise ao demonstrar como o capitalismo emocional transformou os afetos em recursos econômicos: "as emoções tornaram-se entidades a serem avaliadas, trocadas e gerenciadas segundo critérios de eficiência e rentabilidade". Nessa economia afetiva, sentimentos que não geram engajamento, visibilidade ou validação social são rapidamente descartados, assim como produtos que não atendem às expectativas de consumo.


Turkle (2011, p. 154) identifica nas tecnologias digitais um papel central nesse processo, afirmando que "estamos juntos, mas cada um em seu próprio mundo", criando o que ela denomina de "solidão compartilhada" – uma condição em que a hiperconectividade paradoxalmente intensifica o isolamento emocional e a superficialidade dos vínculos.


1.2 Contextualização Sociocultural


A sociedade contemporânea opera sob o imperativo da aceleração temporal (ROSA, 2019), fenômeno que atinge diretamente a experiência emocional. Rosa (2019, p. 23) argumenta que "a aceleração social não apenas muda a velocidade com que vivemos, mas transforma qualitativamente nossa relação com o tempo, o espaço e os outros". Nesse cenário, as emoções são submetidas a uma compressão temporal que inviabiliza processos de maturação afetiva, reflexão e elaboração psíquica.


A era digital e a hiperconectividade constituem o contexto material dessa transformação. Segundo dados apresentados por Turkle (2015, p. 19), o usuário médio de smartphone verifica seu dispositivo aproximadamente 150 vezes ao dia, criando um padrão de atenção fragmentada que impossibilita a sustentação de estados emocionais complexos e duradouros. Como observa Carr (2011, p. 115), "a internet está reprogramando nossos cérebros", favorecendo o processamento superficial de informações em detrimento da reflexão profunda.


Nas redes sociais, as emoções precisam ser performáticas e visualmente consumíveis para existirem socialmente. Sibilia (2016, p. 28) analisa esse fenômeno como parte da "construção de si como espetáculo", em que "a intimidade é exibida como mercadoria e a subjetividade é moldada pelos imperativos da visibilidade". A felicidade, a tristeza, o amor e até o luto tornam-se conteúdos a serem otimizados para maximizar curtidas, compartilhamentos e comentários.


Han (2018, p. 31) identifica nesse processo a emergência de uma "psicopolítica digital", na qual "o sujeito acredita-se livre, mas na verdade está submetido a mecanismos de controle mais eficientes do que qualquer regime disciplinar". Os algoritmos das plataformas digitais não apenas refletem, mas produzem ativamente padrões emocionais, criando o que Zuboff (2019, p. 8) denomina "capitalismo de vigilância" – um sistema econômico que extrai valor da predição e modificação do comportamento humano.


1.3 Tese Central


Este ensaio defende que a estrutura socioeconômica e tecnológica contemporânea não apenas facilita, mas deliberadamente incentiva a brevidade e a superficialidade dos vínculos emocionais, estabelecendo um ciclo de consumo afetivo que privilegia sistematicamente a novidade em detrimento da profundidade. Essa obsolescência programada das emoções não é um efeito colateral acidental da modernização, mas um mecanismo estrutural do capitalismo tardio, que encontra nas plataformas digitais seu instrumento mais eficaz de operação.


Como argumenta Berardi (2009, p. 73), vivemos uma condição de "precariedade existencial" em que "a flexibilidade exigida pelo mercado de trabalho se estende à esfera afetiva, produzindo sujeitos incapazes de estabelecer compromissos duradouros". A lógica da substituibilidade, central ao consumismo, coloniza a subjetividade humana, transformando pessoas em recursos descartáveis e emoções em experiências de uso único.

Essa tese se fundamenta na convergência de três dimensões analíticas: (1) a dimensão econômica, que mercantiliza os afetos; (2) a dimensão tecnológica, que estrutura a experiência emocional através de interfaces projetadas para maximizar o engajamento efêmero; e (3) a dimensão cultural, que naturaliza a transitoriedade como valor positivo, associando permanência à estagnação e profundidade ao tédio.


A compreensão desse fenômeno exige, portanto, uma análise multidisciplinar que articule sociologia, filosofia, psicologia e estudos de mídia, reconhecendo que a obsolescência programada das emoções representa um dos desafios mais urgentes para a saúde mental coletiva e para a possibilidade de construção de vínculos sociais significativos no século XXI.


1.4 Delimitações Conceituais e Epistemológicas

1.4.1 Teorias das Emoções: Posicionamento Teórico


A compreensão do que constitui uma "emoção" não é consensual na literatura científica, exigindo posicionamento explícito sobre qual tradição teórica fundamenta este trabalho. Três paradigmas dominam o debate contemporâneo: o universalismo evolutivo, o construtivismo social e as abordagens integradoras.


O universalismo evolutivo, representado paradigmaticamente por Ekman (1992, p. 34), defende que "existem emoções básicas universais – alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa, nojo – com expressões faciais reconhecíveis transculturalmente". Essa perspectiva, fundamentada em estudos transculturais e neurobiologia, argumenta que "as emoções são programas adaptativos moldados pela seleção natural para resolver problemas recorrentes de sobrevivência" (EKMAN, 1992, p. 169). Nessa visão, as emoções possuem substratos biológicos universais que precedem e transcendem a cultura.


Panksepp (1998, p. 48) desenvolve essa abordagem através da neurociência afetiva, identificando sete "sistemas emocionais primários" com circuitos neurais específicos: busca (seeking), raiva (rage), medo (fear), luxúria (lust), cuidado (care), pânico/tristeza (panic/grief) e brincadeira (play). Ele argumenta que "esses sistemas são compartilhados por todos os mamíferos, indicando profundas raízes evolutivas" (PANKSEPP, 1998, p. 52).


Em contraposição radical, o construtivismo social, representado por Barrett (2017, p. 31), argumenta que "as emoções não são reações biologicamente determinadas, mas construções conceituais culturalmente variáveis". Sua teoria da emoção construída propõe que "o cérebro não possui circuitos dedicados a emoções específicas; em vez disso, constrói experiências emocionais a partir de ingredientes mais básicos – afeto (valência e excitação), conceitos emocionais aprendidos culturalmente, e predições sobre o mundo" (BARRETT, 2017, p. 72).


Barrett (2017, p. 103) oferece evidências de variação cultural substancial nas categorias emocionais: "a língua Tahitiana não possui palavra equivalente a 'tristeza'; o alemão distingue 'Schadenfreude' (prazer com o sofrimento alheio), conceito sem equivalente direto em muitas línguas; o japonês 'amae' (dependência prazerosa) não tem paralelo ocidental". Essa diversidade, argumenta ela, "é incompatível com a ideia de emoções universais biologicamente determinadas" (BARRETT, 2017, p. 115).


Averill (1980, p. 309) complementa essa perspectiva ao argumentar que "as emoções são papéis sociais transitórios que seguem regras culturalmente específicas". Ele observa que "a raiva, por exemplo, não é simplesmente uma descarga de energia, mas um papel social que inclui expectativas sobre quando é apropriado sentir raiva, como expressá-la, e quais consequências são aceitáveis" (AVERILL, 1980, p. 312).


Posicionamento adotado neste trabalho: Embora reconhecendo contribuições de ambas as tradições, este ensaio adota uma perspectiva integradora próxima à proposta por Mesquita, Boiger e De Leersnyder (2016, p. 298), que argumentam que "as emoções são simultaneamente biológicas e culturais, universais e variáveis". Eles propõem o conceito de "emoções como práticas situadas": "as emoções emergem da interação entre capacidades biológicas universais (sistemas de valência, excitação, atenção) e contextos socioculturais específicos que moldam quando, como e por que sentimos" (MESQUITA; BOIGER; DE LEERSNYDER, 2016, p. 302).


Essa posição permite reconhecer que:

  1. Existem substratos neurobiológicos que tornam possível a experiência emocional (validando achados neurocientíficos sobre dopamina, sistemas de recompensa, etc.)

  2. A cultura molda profundamente quais emoções são valorizadas, como são expressas, e quais significados carregam

  3. As tecnologias digitais podem intervir em ambos os níveis: alterando processos neurobiológicos (plasticidade neural) e reestruturando práticas culturais de sentir


Essa abordagem evita tanto o reducionismo biológico (que ignoraria como as plataformas digitais constroem culturalmente novas formas de sentir) quanto o relativismo cultural extremo (que negaria os efeitos neurobiológicos mensuráveis documentados na literatura).


1.4.2 Distinções Conceituais: Emoções, Sentimentos e Afetos


A literatura especializada distingue entre emoções, sentimentos e afetos, termos frequentemente usados como sinônimos no discurso cotidiano, mas que carregam diferenças teóricas importantes.


Emoções, na definição de Frijda (1986, p. 71), são "episódios de mudança na prontidão para ação em resposta a eventos significativos". Elas possuem características distintivas: (a) intencionalidade (são sempre sobre algo); (b) temporalidade definida (têm início, pico e declínio); (c) componentes múltiplos (experiência subjetiva, expressão facial/corporal, tendências de ação, mudanças fisiológicas); (d) valência (positiva ou negativa).


Sentimentos, segundo Damasio (2003, p. 86), são "a experiência mental de um estado corporal". Ele distingue: "as emoções são programas de ação publicamente observáveis; os sentimentos são a percepção privada dessas mudanças corporais" (DAMASIO, 2003, p. 88).

Os sentimentos são mais duradouros que emoções, menos intensos, e mais integrados à consciência reflexiva. Enquanto a emoção de raiva pode durar segundos ou minutos, o sentimento de ressentimento pode persistir por anos.


Afeto, na tradição de Tomkins (1962, p. 243) e desenvolvida por Sedgwick e Frank (1995, p. 5), refere-se a "estados corporais pré-cognitivos de intensidade e valência". Massumi (2002, p. 28) argumenta que "o afeto é pré-pessoal, não-consciente, e não-representacional – uma intensidade que precede e excede a emoção nomeada". Na teoria dos afetos, especialmente influente nos estudos culturais, o afeto é anterior à categorização em emoções específicas.


Ahmed (2004, p. 4) desenvolve uma "economia cultural dos afetos", argumentando que "as emoções não residem em sujeitos ou objetos, mas são produzidas como efeitos de circulação". Ela propõe que "as emoções fazem coisas: elas alinham indivíduos com comunidades através de investimentos compartilhados" (AHMED, 2004, p. 12).


Para os propósitos deste trabalho, adotamos as seguintes definições operacionais:

  • Emoções: Episódios relativamente breves de resposta coordenada (experiencial, comportamental, fisiológica) a eventos avaliados como significativos. Exemplo: a alegria ao receber uma notificação de like.

  • Sentimentos: Estados afetivos mais duradouros, menos intensos, e mais integrados à reflexão consciente. Exemplo: o sentimento de solidão crônica apesar da hiperconectividade.

  • Afetos: Capacidades corporais de afetar e ser afetado; intensidades pré-cognitivas que circulam socialmente. Exemplo: a atmosfera afetiva de ansiedade que permeia o uso de redes sociais.


A obsolescência programada opera nos três níveis:

  1. Emoções tornam-se mais breves e superficiais (design para picos dopaminérgicos rápidos)

  2. Sentimentos perdem durabilidade (relacionamentos líquidos, compromissos efêmeros)

  3. Afetos são capturados e monetizados (economia da atenção extrai valor de intensidades corporais)


1.4.3 Posicionamento Epistemológico: Teoria Crítica Contemporânea


Este trabalho se inscreve na tradição da teoria crítica, mas requer especificação sobre qual vertente e período dessa tradição multifacetada.


A teoria crítica clássica da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Marcuse) oferece ferramentas conceituais fundamentais. Horkheimer (1972, p. 244) define teoria crítica como aquela que "tem por objeto os homens como produtores de todas as suas formas históricas de vida", distinguindo-se da teoria tradicional por sua orientação emancipatória: não apenas compreender o mundo, mas transformá-lo.


Adorno e Horkheimer (1985, p. 13) desenvolveram o conceito de "indústria cultural", argumentando que "a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança". Eles observam que "filmes, rádio e revistas constituem um sistema [...] cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto" (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 7). Essa análise antecipa a lógica das plataformas digitais: padronização da experiência sob aparência de diversidade.


Marcuse (1964, p. 1), como já mencionado, identificou a "sociedade unidimensional" onde "a racionalidade tecnológica revela seu caráter político ao se tornar o grande veículo de melhor dominação". Ele argumenta que "o aparato impõe suas exigências econômicas e políticas para defesa e expansão sobre o tempo de trabalho e o tempo livre, sobre a cultura material e intelectual" (MARCUSE, 1964, p. 3).


Contudo, este trabalho não se limita à primeira geração frankfurtiana, incorporando desenvolvimentos posteriores:


Habermas (1984, p. 8) e sua teoria da "colonização do mundo da vida" pela racionalidade instrumental: "os imperativos sistêmicos (economia, burocracia) invadem esferas da vida que dependem de integração social através de comunicação". Aplicado ao nosso tema: as plataformas digitais colonizam a esfera íntima das emoções com lógica de mercado.


Honneth (2009, p. 129) e sua teoria do reconhecimento, argumentando que "a integridade psíquica depende de três formas de reconhecimento: amor (esfera íntima), direitos (esfera jurídica), solidariedade (esfera social)". A obsolescência programada das emoções corrói especialmente a primeira esfera: relacionamentos íntimos tornam-se transacionais, impedindo o reconhecimento mútuo necessário à formação de identidade saudável.


Teoria crítica feminista: Fraser (2009, p. 99) argumenta que "a teoria crítica deve integrar análise de redistribuição (economia), reconhecimento (cultura) e representação (política)". Ela observa que "o capitalismo neoliberal cooptou discursos feministas de autonomia para promover individualismo possessivo" (FRASER, 2009, p. 110) – dinâmica visível na retórica de "empoderamento" das plataformas digitais que mascara exploração.


Teoria crítica da tecnologia: Feenberg (2002, p. 15), já citado, desenvolve uma "teoria crítica da tecnologia" que rejeita tanto o determinismo quanto o instrumentalismo, argumentando que "a tecnologia não é destino nem ferramenta neutra, mas campo de luta onde valores sociais são incorporados em design".


Posicionamento específico deste trabalho: Adotamos uma teoria crítica contemporânea integradora que:

  1. Mantém o compromisso emancipatório da tradição frankfurtiana: não apenas descrever a obsolescência emocional, mas identificar possibilidades de resistência e transformação

  2. Incorpora análise de poder pós-estruturalista (Foucault): reconhecendo que o poder não apenas reprime, mas produz subjetividades – as plataformas não apenas limitam emoções profundas, mas produzem ativamente subjetividades compatíveis com sua lógica

  3. Integra perspectivas feministas e decoloniais: atenção a como gênero, raça e colonialidade intersectam com a obsolescência emocional

  4. Adota realismo crítico (Bhaskar, 1975): reconhecendo que estruturas sociais (capitalismo de vigilância) e mecanismos causais (algoritmos, design persuasivo) existem independentemente de nossa percepção, mas são transformáveis através de ação informada


Essa posição epistemológica implica que:

  • Há verdades objetivas sobre os efeitos das tecnologias digitais (mensuráveis empiricamente)

  • Essas verdades são historicamente situadas (não universais e eternas)

  • O conhecimento é orientado por interesses (este trabalho assume interesse emancipatório)

  • A crítica é imanente: identifica contradições internas ao sistema (ex: plataformas prometem conexão, mas produzem solidão)


1.4.4 Delimitação do Objeto: Escopo e Limitações


Para evitar generalização excessiva, é necessário delimitar precisamente o objeto de análise deste trabalho.


Recorte temporal: Este ensaio foca no período de 2004-2026, marcado por:

  • 2004: Lançamento do Facebook (início das redes sociais de massa)

  • 2007: Lançamento do iPhone (era dos smartphones)

  • 2010-2015: Consolidação do modelo de negócio baseado em atenção

  • 2016-presente: Intensificação dos debates sobre efeitos psicossociais

Esse recorte reconhece que fenômenos de aceleração e mercantilização emocional precedem as redes sociais (Bauman, Rosa, Sennett analisam tendências desde os anos 1980-90), mas argumenta que as plataformas digitais representam intensificação qualitativa, não apenas quantitativa.


Recorte geográfico: A análise se concentra primariamente em sociedades ocidentais industrializadas (América do Norte, Europa Ocidental), com atenção secundária ao Brasil. Essa limitação é explicitamente reconhecida: os argumentos podem não se aplicar igualmente a:

  • Sociedades com menor penetração digital (regiões rurais, países em desenvolvimento)

  • Culturas com diferentes relações com tecnologia (Japão, Coreia do Sul com culturas digitais distintas)

  • Contextos de uso político diferenciado (Primavera Árabe, protestos em Hong Kong – onde redes sociais têm função emancipatória)


Recorte de classe e geração: Os efeitos analisados são mais pronunciados em:

  • Gerações Millennial e Z (nascidos após 1980), que cresceram com tecnologias digitais

  • Classes médias urbanas com acesso amplo a smartphones e internet de alta velocidade

  • Trabalhadores do conhecimento cujas profissões exigem presença digital constante

Reconhece-se que trabalhadores precarizados, populações rurais e idosos podem experimentar esses fenômenos de forma diferente ou menos intensa.


Recorte de plataformas: Embora o argumento seja estrutural (sobre o capitalismo de vigilância em geral), os exemplos focam em:

  • Redes sociais: Facebook, Instagram, TikTok, Twitter/X

  • Aplicativos de relacionamento: Tinder, Bumble

  • Plataformas de streaming: Spotify, Netflix (secundariamente)


Reconhece-se que plataformas alternativas (Mastodon, Signal, plataformas cooperativas) operam sob lógicas diferentes e podem não produzir os mesmos efeitos.


Limitações explicitamente reconhecidas:

  1. Viés bibliográfico euro-americano: A maioria dos estudos citados são de contextos norte-americanos e europeus, limitando generalizabilidade

  2. Foco em efeitos negativos: Embora o trabalho mencione possibilidades de resistência, privilegia análise crítica sobre potenciais emancipatórios

  3. Ênfase em mecanismos sobre agência: Apesar de defender que resistência é possível, a análise dedica mais atenção a como as plataformas estruturam comportamento do que a como usuários subvertem essas estruturas

  4. Ausência de dados primários: O trabalho depende de fontes secundárias, não incluindo pesquisa empírica original

  5. Recorte disciplinar: Embora interdisciplinar, o trabalho privilegia sociologia e filosofia sobre psicologia clínica, neurociência detalhada, ou ciência da computação


Essas delimitações não invalidam os argumentos, mas especificam suas condições de validade: as conclusões aplicam-se primariamente a usuários intensivos de redes sociais em sociedades ocidentais industrializadas no período 2004-2026, e podem requerer modificação para outros contextos.


2 Desenvolvimento: A Arquitetura do Descarte Emocional

2.1 Mecanismos da Obsolência Afetiva

2.1.1 A Algoritmização do Desejo


As plataformas digitais contemporâneas operam através de arquiteturas persuasivas deliberadamente projetadas para maximizar o tempo de engajamento dos usuários. Fogg (2003, p. 1) denomina esse campo de estudo como "captologia" – a ciência dos computadores como tecnologias persuasivas – demonstrando que "os sistemas interativos podem ser projetados para mudar atitudes e comportamentos das pessoas de maneiras previsíveis".


O mecanismo neurobiológico central dessa arquitetura é o sistema de recompensa dopaminérgico. Alter (2017, p. 47) explica que "cada vez que recebemos uma notificação, um like ou um comentário, nosso cérebro libera dopamina, o neurotransmissor associado ao prazer e à motivação". Esse processo cria um ciclo de reforço intermitente – o mesmo princípio utilizado em máquinas caça-níqueis – que é particularmente eficaz em gerar comportamentos compulsivos (EYAL, 2014, p. 34).


O scroll infinito, implementado pioneiramente pelo engenheiro Aza Raskin em 2006, elimina os "pontos de parada naturais" que permitiriam ao usuário refletir sobre seu comportamento. Como observa Harris (2016), ex-especialista em ética de design do Google, "quando você remove os pontos de parada, você consome muito mais [...] é como ter um prato de fundo infinito". Essa interface não apenas facilita o consumo contínuo, mas reestrutura cognitivamente a capacidade de sustentar atenção prolongada (CARR, 2011, p. 115).


Nas plataformas de relacionamento como Tinder, essa lógica atinge dimensões particularmente problemáticas. Illouz (2019, p. 102) argumenta que "a escolha abundante transforma o parceiro em mercadoria, criando uma mentalidade de consumidor que busca constantemente 'opções melhores'". O design baseado em gamificação – com seus sistemas de pontuação, conquistas e recompensas – transforma a busca por conexão humana em um jogo de otimização, onde pessoas são reduzidas a perfis descartáveis (SALES, 2015, p. 78).


Zuboff (2019, p. 93) identifica nesse processo a operação do capitalismo de vigilância, sistema que "reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas de extração, previsão e venda". Os algoritmos não apenas respondem aos nossos desejos; eles os produzem ativamente, criando necessidades emocionais que só podem ser temporariamente satisfeitas através do consumo contínuo da plataforma.


Circuitos Neurais Específicos


Aprofundando a compreensão neurobiológica, o sistema de recompensa não é unitário, mas compreende múltiplas estruturas interconectadas. Berridge e Kringelbach (2015, p. 646) distinguem três componentes psicológicos da recompensa, cada um com substratos neurais distintos:

  • Liking (prazer): A experiência hedônica propriamente dita, mediada por "hotspots" de opioides e endocanabinoides no núcleo accumbens e pallidum ventral

  • Wanting (motivação): O desejo e a busca por recompensa, mediada por dopamina no circuito mesolímbico (área tegmental ventral → núcleo accumbens)

  • Learning (aprendizado): A formação de associações entre estímulos e recompensas, envolvendo amígdala, hipocampo e córtex orbitofrontal


Crucialmente, Berridge e Robinson (2016, p. 670) demonstram que "esses sistemas podem ser dissociados": é possível "querer" sem "gostar" – fenômeno central ao vício. Eles argumentam que "no vício, a sensibilização do sistema de 'wanting' dopaminérgico faz com que estímulos associados à droga (ou, no nosso caso, à notificação) sejam intensamente desejados mesmo quando não produzem mais prazer" (BERRIDGE; ROBINSON, 2016, p. 675).


Aplicado às redes sociais, o scroll infinito pode continuar sendo compulsivamente desejado (wanting) mesmo quando não produz mais satisfação genuína (liking). Isso explica o fenômeno relatado por usuários de "não consigo parar de rolar o feed, mas não estou aproveitando".


Plasticidade Neural: Mudanças Estruturais e Reversibilidade


Carr (2011) menciona que a internet "reconfigura nossos cérebros", mas pesquisas mais recentes especificam essas mudanças com maior precisão. Loh e Kanai (2016, p. 119) conduziram revisão sistemática de estudos de neuroimagem, identificando que uso intensivo de internet está associado a:

  • Redução de matéria cinzenta no córtex pré-frontal dorsolateral (envolvido em controle cognitivo e regulação emocional)

  • Alterações no córtex cingulado anterior (processamento de conflito e tomada de decisão)

  • Mudanças na substância branca (conectividade entre regiões cerebrais)

  • Redução na espessura cortical em regiões associadas ao processamento de recompensa


Contudo, os autores enfatizam que "a direção causal não está estabelecida: não sabemos se o uso de internet causa essas mudanças ou se indivíduos com essas características cerebrais são mais propensos ao uso intensivo" (LOH; KANAI, 2016, p. 125). Lin et al. (2012, p. 3) conduziram estudo longitudinal com adolescentes, demonstrando que "uso problemático de internet prediz subsequente redução de volume em córtex pré-frontal, mas também que características cerebrais pré-existentes predizem desenvolvimento de uso problemático", sugerindo causalidade bidirecional.


Crucialmente, a plasticidade neural funciona em ambas as direções. Meshi, Turel e Henning (2019, p. 8) argumentam que "assim como o cérebro se adapta ao uso intensivo de redes sociais, pode se readaptar à sua redução". Wilmer, Sherman e Chein (2017, p. 479) conduziram experimento onde participantes reduziram uso de smartphones por uma semana, encontrando "melhorias significativas em atenção sustentada e memória de trabalho". Contudo, eles observam que "os efeitos foram modestos e reverteram rapidamente após retomada do uso normal" (WILMER; SHERMAN; CHEIN, 2017, p. 485).


Mosquera et al. (2020, p. 234) estudaram praticantes de "detox digital" de longo prazo (3-6 meses), encontrando "recuperação substancial em medidas de atenção, regulação emocional e bem-estar subjetivo". Eles concluem que "a neuroplasticidade permite recuperação, mas requer tempo e prática sustentada de comportamentos alternativos" (MOSQUERA et al., 2020, p. 241). Essa evidência é crucial para a dimensão propositiva do trabalho: a obsolescência programada das emoções não é irreversível, mas a reversão requer esforço consciente e sustentado – não acontece automaticamente.


Variabilidade Individual: Fatores de Proteção e Vulnerabilidade


Nem todos os usuários de redes sociais desenvolvem os mesmos problemas. Montag e Walla (2016, p. 12) identificam fatores de vulnerabilidade: traços de personalidade (neuroticismo, baixa autoestima, necessidade de aprovação social predizem uso problemático); diferenças genéticas (variações no gene receptor de dopamina DRD4 associadas a maior suscetibilidade ao vício em redes sociais); histórico de saúde mental (ansiedade e depressão pré-existentes aumentam risco); e contexto social (isolamento social offline prediz maior dependência de conexões online).


Inversamente, fatores de proteção incluem (ORBEN; PRZYBYLSKI, 2019, p. 173): capital social offline (redes de apoio presenciais robustas); alfabetização digital crítica (compreensão de como plataformas funcionam); autorregulação (capacidade de monitorar e controlar próprio comportamento); e propósito e significado (engajamento em atividades significativas offline). Essa variabilidade implica que intervenções devem ser personalizadas, não universais. O que funciona para um adolescente isolado pode não funcionar para um adulto com redes sociais robustas.


2.1.2 A Cultura do Cancelamento e o Descarte de Pessoas


A cultura do cancelamento representa uma manifestação particularmente aguda da obsolescência programada aplicada às relações humanas. Ng (2020, p. 623) define o fenômeno como "uma forma de ostracismo em que alguém é expulso de círculos sociais ou profissionais – seja online, nas redes sociais, ou no mundo real, ou ambos". O que distingue essa prática de formas anteriores de reprovação social é sua velocidade, escala e permanência digital.


Ronson (2015, p. 73) documenta casos emblemáticos demonstrando como "um único tweet mal interpretado pode destruir uma vida em questão de horas", criando o que ele denomina "humilhação pública em escala industrial". A lógica binária das redes sociais – curtir/não curtir, seguir/deixar de seguir, cancelar/defender – elimina a complexidade moral necessária para lidar com a ambiguidade inerente à condição humana.


Turkle (2015, p. 21) observa que "a empatia requer tempo e reflexão, mas as redes sociais nos treinam para respostas rápidas e julgamentos instantâneos". Essa compressão temporal do julgamento moral produz o que Mounk (2022, p. 156) identifica como "fundamentalismo da identidade" – uma forma de pensamento que "transforma erros em pecados imperdoáveis e pessoas em representações unidimensionais de suas piores ações".


O filósofo Han (2018, p. 19) argumenta que vivemos em uma "sociedade da transparência" onde "a exigência de visibilidade total elimina a possibilidade de perdão e transformação". Nesse contexto, o cancelamento funciona como mecanismo de descarte social, análogo à obsolescência programada de produtos: indivíduos são declarados "defeituosos" e imediatamente substituídos por alternativas "moralmente atualizadas".


Tipologia do Cancelamento


Para compreender a complexidade do fenômeno, Clark (2020, p. 88) propõe distinção entre três tipos:

1. Cancelamento como accountability (responsabilização): Tem como alvo figuras públicas com poder institucional, objetivando responsabilização por abuso de poder, discriminação ou violência. O movimento MeToo contra predadores sexuais em posições de poder exemplifica esse tipo, que pode ser forma legítima de justiça quando canais institucionais falharam.

2. Cancelamento como policiamento moral: Dirige-se a indivíduos comuns por transgressões menores, com objetivo de punição desproporcional e humilhação pública. Um exemplo é quando uma pessoa comum perde o emprego por um tweet mal interpretado. Essa modalidade é problemática por impor punição desproporcional sem possibilidade de reparação.

3. Cancelamento como performance de virtude: Tem como alvo qualquer pessoa que possa ser usada para sinalizar superioridade moral, objetivando acúmulo de capital social através de denúncia. Manifesta-se em "caça às bruxas" competitiva em comunidades online, sendo tóxico por transformar justiça social em jogo de status.


Ng (2020, p. 624) argumenta que "a crítica ao 'cancelamento' frequentemente conflata essas formas distintas, usando casos extremos de tipo 2 e 3 para deslegitimar accountability legítimo de tipo 1".


Perspectivas Divergentes e Análise Estrutural


Críticos do cancelamento (Ronson, 2015; Mounk, 2022) argumentam que ele elimina possibilidade de redenção e crescimento; cria clima de medo que inibe debate honesto; é desproporcional (pequenos erros resultam em destruição de vidas); e reflete fundamentalismo moral incompatível com democracia pluralista.


Defensores de accountability (Bouie, 2019; Romano, 2020) contra-argumentam que "cancelamento" é termo usado por poderosos para evitar consequências de comportamento prejudicial; pessoas marginalizadas finalmente têm voz para responsabilizar opressores; a "destruição de vidas" é exagerada – muitas figuras "canceladas" mantêm carreiras lucrativas; e o que é chamado "cancelamento" é frequentemente apenas crítica legítima que pessoas privilegiadas não estão acostumadas a receber.


Independentemente da avaliação normativa, é necessário explicar por que a cultura do cancelamento emerge neste momento histórico. Tufekci (2017, p. 234) oferece explicação tecnológica: "A arquitetura das redes sociais amplifica moralmente indignação. Algoritmos priorizam conteúdo que gera engajamento emocional intenso. Posts expressando indignação moral recebem mais compartilhamentos, criando incentivos para escalada retórica."


Mounk (2022, p. 167) apresenta explicação sociológica: "Em sociedades crescentemente diversas e fragmentadas, onde não há mais consenso moral compartilhado, a identidade grupal torna-se central. O cancelamento funciona como mecanismo de policiamento de fronteiras – definindo quem pertence e quem é excluído."


Lorenz (2020) propõe explicação econômica: "Em economia de atenção, indignação é moeda. Influencers e mídia lucram com controvérsias de cancelamento. Há incentivo econômico para criar e amplificar escândalos."


Haidt (2012, p. 89) oferece explicação psicológica: "Humanos possuem 'botão de indignação moral' que, quando ativado, produz prazer. Redes sociais permitem ativação constante desse botão, criando vício em indignação."


Relação com Obsolescência Emocional


O cancelamento relaciona-se à obsolescência programada das emoções de múltiplas formas: eliminação da complexidade temporal (pessoas são julgadas por ações isoladas, não por trajetórias, sem espaço para narrativa de transformação ao longo do tempo); binarização emocional (a pessoa é reduzida a "boa" ou "má", eliminando ambivalência necessária a relacionamentos complexos); descartabilidade de pessoas (indivíduos tornam-se obsoletos instantaneamente, análogos a produtos defeituosos); e velocidade incompatível com justiça (julgamentos acontecem em horas, impossibilitando processo deliberativo necessário à justiça).


Contudo, é crucial não romantizar o passado: antes das redes sociais, havia outras formas de ostracismo e exclusão social (muitas vezes mais cruéis e menos reversíveis). O que é novo não é a exclusão, mas sua velocidade, escala e permanência digital.


Posicionamento Nuançado


Este trabalho adota a posição de que accountability de poderosos é legítimo e necessário – movimentos como MeToo representam avanço em responsabilização de abuso de poder. Contudo, linchamento de pessoas comuns é problemático – punição desproporcional de indivíduos sem poder por erros menores reflete obsolescência emocional. Além disso, a arquitetura das plataformas amplifica os piores aspectos – design que prioriza indignação torna impossível nuance e reparação.


A solução não é eliminar crítica ou accountability, mas redesenhar sistemas para permitir: proporcionalidade (resposta adequada à gravidade da transgressão); contexto (consideração de intenção, histórico, circunstâncias); reparação (possibilidade de aprendizado e transformação); e deliberação (tempo para investigação antes de julgamento).


2.1.3 FOMO (Fear of Missing Out) e a Ansiedade da Novidade


O FOMO (Fear of Missing Out) constitui uma patologia social emergente diretamente vinculada à arquitetura das redes sociais. Przybylski et al. (2013, p. 1841) definem o fenômeno como "uma apreensão generalizada de que outros possam estar tendo experiências recompensadoras das quais estamos ausentes", caracterizada pelo "desejo de permanecer continuamente conectado ao que os outros estão fazendo".


Pesquisas neurocientíficas demonstram que o FOMO ativa as mesmas regiões cerebrais associadas à dor física. Eisenberger (2012, p. 421) explica que "a exclusão social e a dor física compartilham circuitos neurais comuns, o que explica por que a rejeição social 'dói' literalmente". Essa sobreposição neurobiológica torna o FOMO particularmente angustiante e difícil de ignorar.


Twenge (2017, p. 51) documenta um aumento dramático em taxas de ansiedade e depressão entre adolescentes, correlacionado temporalmente com a adoção massiva de smartphones e redes sociais. Sua pesquisa indica que "adolescentes que passam mais de três horas por dia em dispositivos eletrônicos têm 35% mais probabilidade de apresentar fatores de risco para suicídio".


O sociólogo Bauman (2007, p. 31) contextualiza esse fenômeno na lógica mais ampla da modernidade líquida, argumentando que "o medo de ficar para trás é o medo de ser excluído do jogo, de ser declarado jogador inadequado". Essa ansiedade não é meramente individual, mas estruturalmente produzida por sistemas que dependem da insegurança constante dos usuários para manter o engajamento.


Antecedentes Históricos e Especificidade Digital


O medo de exclusão social não é novo – é adaptação evolutiva fundamental. Baumeister e Leary (1995, p. 497) argumentam que "a necessidade de pertencimento é uma motivação humana fundamental, enraizada em pressões evolutivas: em ambientes ancestrais, exclusão do grupo significava morte".


Manifestações pré-digitais de FOMO incluem o Keeping up with the Joneses (início do século XX), analisado por Veblen (1899, p. 35) como "consumo conspícuo" – compra de bens para sinalizar status e evitar exclusão social, observando que "a base da autoestima é a comparação invidiosa". Simmel (1903, p. 11) descreveu a "intensificação da vida nervosa" na metrópole moderna, onde "a rápida aglomeração de imagens em mudança, a descontinuidade acentuada no que é apreendido com um único olhar" produz ansiedade – descrição que antecipa o feed infinito. Ewen (1976, p. 47) documentou como a publicidade do século XX "criou necessidades" através de ansiedade social: "você será excluído se não tiver este produto".


Se ansiedade de exclusão é perene, o que torna o FOMO digital qualitativamente diferente?


Visibilidade total e permanente (Marwick, 2013, p. 378): Pré-digitalmente, você não sabia o que estava perdendo; digitalmente, você vê em tempo real, em detalhes visuais, tudo que outros estão fazendo, criando impossibilidade de "ignorância feliz".


Quantificação e comparação facilitada (Chou; Edge, 2012, p. 119): A comparação antes limitada ao círculo social imediato agora ocorre com milhões de pessoas, facilitada por métricas (likes, seguidores), gerando padrões de comparação impossíveis de atingir.


Disponibilidade 24/7 (Turkle, 2011, p. 154): Eventos sociais pré-digitais tinham fim, havia "tempo livre" de comparação; digitalmente, o feed nunca para, sempre há algo acontecendo em algum lugar, produzindo ansiedade constante sem possibilidade de descanso.


Curadoria e idealização (Vogel et al., 2014, p. 208): Pré-digitalmente, você via a vida dos outros sem filtros; digitalmente, você vê versões editadas, otimizadas, irreais, levando à comparação com padrões inatingíveis, não com realidade.


Feedback loop algorítmico (Pariser, 2011, p. 9): Pré-digitalmente, você escolhia ativamente o que consumir; digitalmente, algoritmos mostram conteúdo que maximiza engajamento emocional (incluindo ansiedade), amplificando sistematicamente conteúdo que induz FOMO.


Evidências Empíricas e Variações Culturais


Pesquisas recentes especificam os efeitos do FOMO. Beyens, Frison e Eggermont (2016, p. 1069) encontraram que 48% dos adolescentes relatam FOMO frequente ou constante. Alt (2015, p. 141) identificou que FOMO é predito por baixa satisfação com a vida, baixa autoestima, alta necessidade de pertencimento e uso intensivo de redes sociais – sugerindo ciclo vicioso: FOMO leva a mais uso de redes sociais, que intensifica FOMO.


Elhai et al. (2016, p. 386) demonstraram que FOMO media a relação entre ansiedade e uso problemático de smartphone: "não é a ansiedade diretamente que leva ao uso excessivo, mas a ansiedade via FOMO". Milyavskaya et al. (2018, p. 725) mostraram que FOMO depleta autocontrole: "a constante vigilância do que outros estão fazendo esgota recursos cognitivos necessários para autorregulação, levando a comportamentos impulsivos".


Crucialmente, FOMO não é universal. Riordan et al. (2020, p. 234) conduziram estudo transcultural, encontrando que culturas individualistas (EUA, Reino Unido) apresentam níveis mais altos de FOMO; culturas coletivistas (Japão, Coreia) apresentam formas diferentes (menos medo de perder eventos, mais medo de não cumprir obrigações sociais); e culturas com menor penetração digital apresentam FOMO significativamente menor. Isso sugere que FOMO digital é co-produzido por tecnologia E valores culturais individualistas competitivos.


Esse aprofundamento permite conclusões mais nuançadas: FOMO não é inteiramente novo, mas intensificação digital de ansiedade evolutiva de exclusão; características específicas das plataformas (visibilidade, quantificação, disponibilidade 24/7) tornam FOMO contemporâneo qualitativamente diferente; variabilidade cultural indica que não é tecnologicamente determinado – valores culturais mediam efeitos; e ciclos viciosos (FOMO → uso → mais FOMO) sugerem necessidade de interrupção deliberada do ciclo.


2.1.4 A Banalização do Superlativo


A inflação linguística representa outro mecanismo crucial da obsolescência emocional. Quando termos como "amo", "odeio", "perfeito" e "incrível" são utilizados para descrever experiências triviais, ocorre o que Eco (1986, p. 67) denomina "entropia semântica" – a perda progressiva de significado através do uso indiscriminado.


Carey (2020, p. 234) observa que "a linguagem das redes sociais opera através de uma economia da hipérbole, onde a moderação é interpretada como indiferença". Essa dinâmica cria uma espiral inflacionária em que expressões cada vez mais extremas são necessárias para comunicar sentimentos genuínos, resultando no que ele chama de "exaustão expressiva".


Do ponto de vista psicológico, essa banalização tem consequências profundas. Como argumenta Fredrickson (2013, p. 89), "a capacidade de discriminar entre diferentes estados emocionais – o que chamamos de granularidade emocional – está diretamente relacionada ao bem-estar psicológico". Quando todas as experiências são descritas em termos superlativos, perdemos a capacidade de processar adequadamente a complexidade de nossos estados internos.


Berardi (2009, p. 108) conecta esse fenômeno à "semiotização acelerada" da vida contemporânea, onde "a velocidade da comunicação impede a elaboração semântica profunda". As emoções tornam-se signos vazios, circulando em alta velocidade mas desprovidos de substância experiencial genuína.


Síntese da seção: Os mecanismos da obsolescência afetiva – algoritmização do desejo, cultura do cancelamento, FOMO e banalização linguística – operam de forma integrada e mutuamente reforçadora. Juntos, eles criam um ambiente onde a profundidade emocional é sistematicamente corroída, substituída por padrões de sentir efêmeros, quantificáveis e comercializáveis. Contudo, a compreensão de sua neuroplasticidade, variabilidade individual e co-produção cultural-tecnológica revela que esses processos não são irreversíveis nem universais, abrindo espaço para resistência e transformação.


2.2 Consequências Psicossociais: O Custo Humano


Os mecanismos da obsolescência afetiva descritos anteriormente não operam no vácuo – eles produzem consequências psicossociais mensuráveis e profundas que afetam tanto o bem-estar individual quanto a coesão social. Esta seção examina quatro dimensões principais desse custo humano: a erosão da capacidade empática, o aumento de patologias emocionais, a fragilização dos vínculos sociais e a fragmentação da identidade narrativa. Contudo, a integridade acadêmica exige também apresentar evidências contraditórias e limitações metodológicas dos estudos alarmistas, reconhecendo que os efeitos não são universais nem unidirecionais.


2.2.1 A Erosão da Empatia


A fragmentação da atenção imposta pelas tecnologias digitais produz efeitos mensuráveis na capacidade empática. Konrath, O'Brien e Hsing (2011, p. 180) documentam um declínio de 40% nos níveis de empatia entre estudantes universitários americanos nas últimas três décadas, correlacionado com o aumento do uso de tecnologias digitais. Contudo, como será detalhado no item 2.2.6, essa afirmação requer qualificações substanciais à luz de evidências contraditórias e limitações metodológicas.


Turkle (2015, p. 23) explica o mecanismo subjacente: "a empatia requer que nos coloquemos no lugar do outro, um processo que demanda tempo e atenção sustentada. Mas quando estamos constantemente distraídos por nossos dispositivos, nunca desenvolvemos plenamente essa capacidade". Ela identifica o fenômeno do "estar junto sozinho" – situações em que pessoas estão fisicamente presentes mas psicologicamente ausentes, absorvidas em seus smartphones.


Pesquisas em neurociência social revelam que a empatia é uma habilidade treinável que depende de prática deliberada. Decety e Cowell (2014, p. 965) demonstram que "a exposição repetida a narrativas complexas e o engajamento em conversas profundas fortalecem os circuitos neurais da empatia". Inversamente, a exposição constante a conteúdos fragmentados e interações superficiais atrofia essas capacidades.


Carr (2011, p. 220) argumenta que "a internet está nos tornando mais eficientes no processamento de informações, mas menos capazes de contemplação profunda e pensamento crítico". Essa reorganização cognitiva afeta diretamente nossa capacidade de sustentar a atenção necessária para compreender genuinamente a experiência emocional de outros. A questão não é meramente quantitativa (quanto tempo passamos online), mas qualitativa: o tipo de processamento cognitivo favorecido pelas plataformas digitais – rápido, superficial, fragmentado – é incompatível com o processamento profundo requerido pela empatia genuína.


2.2.2 Patologias do Vazio: Ansiedade, Depressão e Burnout Emocional


A literatura científica documenta uma correlação robusta entre uso intensivo de redes sociais e deterioração da saúde mental. Primack et al. (2017, p. 323) conduziram estudo com 1.787 adultos jovens nos EUA, concluindo que "indivíduos que usam mais plataformas de mídia social têm mais de três vezes o risco de depressão e ansiedade comparados àqueles que usam menos plataformas". Contudo, como será discutido no item 2.2.5, estudos em sentido contrário questionam a magnitude e a causalidade desses efeitos.


O mecanismo psicológico central é o que Vogel et al. (2014, p. 206) denominam "comparação social ascendente" – a tendência de comparar-se com representações idealizadas da vida alheia. Como as redes sociais funcionam como "vitrines de felicidade editada", os usuários desenvolvem percepções distorcidas da realidade, levando ao que Chou e Edge (2012, p. 117) chamam de "síndrome do Facebook": "outros têm vidas melhores e mais felizes que a minha".


Han (2015, p. 7) oferece uma análise filosófica complementar, argumentando que vivemos em uma "sociedade do cansaço" caracterizada pela autoexploração voluntária. Ele observa que "o sujeito de desempenho está livre da instância externa de domínio que o obriga a trabalhar ou que poderia explorá-lo. É senhor e soberano de si mesmo. Assim, não está submisso a ninguém ou está submisso apenas a si mesmo. É nisso que ele se distingue do sujeito de obediência" (HAN, 2015, p. 29). Essa tirania da positividade – a exigência de estar constantemente feliz, produtivo e engajado – produz esgotamento emocional profundo.


A análise de Han revela uma dimensão crucial: o sofrimento contemporâneo não resulta primariamente de repressão externa, mas de autocoerção internalizada. Nas redes sociais, essa dinâmica atinge seu ápice: ninguém nos obriga a postar, curtir ou comparar – fazemos isso "voluntariamente", mas sob pressão estrutural invisível. O resultado é o que Han denomina "violência da positividade": a exaustão não de quem é impedido de ser, mas de quem deve constantemente otimizar seu ser.


Hochschild (2012, p. 7) introduz o conceito de "trabalho emocional", que nas redes sociais assume dimensões inéditas: a necessidade de gerenciar performaticamente as emoções para consumo público. Esse trabalho invisível, mas constante, de curadoria emocional contribui significativamente para o que ela denomina "exaustão afetiva". Cada post, cada foto, cada comentário requer decisões sobre quais emoções exibir, como modulá-las para audiências específicas, como responder a feedbacks – um labor emocional contínuo que raramente é reconhecido como trabalho, mas que consome recursos psíquicos substanciais.


2.2.3 A Fragilidade dos Vínculos: Laços Fracos e Conexões Utilitárias


Granovetter (1973, p. 1360) estabeleceu a distinção clássica entre "laços fortes" (relações íntimas caracterizadas por investimento emocional, tempo e reciprocidade) e "laços fracos" (conexões superficiais baseadas em utilidade específica). Embora laços fracos tenham valor informacional – facilitando acesso a informações e oportunidades além do círculo íntimo –, as redes sociais promovem sua proliferação às custas dos laços fortes.

Dunbar (2016, p. 39) demonstra que existe um limite cognitivo para o número de relações significativas que podemos manter – aproximadamente 150 pessoas (o "Número de Dunbar"). Ele observa que "as redes sociais não expandem esse número; elas simplesmente diluem a qualidade das conexões, criando a ilusão de intimidade sem sua substância". Ter 500 "amigos" no Facebook não significa ter 500 relações genuínas; significa, frequentemente, ter menos relações profundas, pois o tempo e energia investidos em manter conexões superficiais são subtraídos das relações que realmente importam.


Bauman (2004, p. 13) caracteriza esse fenômeno como parte dos "relacionamentos líquidos", onde "os vínculos humanos são frouxos e negociáveis, mantidos apenas enquanto proporcionam satisfação". Essa lógica transacional elimina o que ele considera essencial às relações genuínas: "o compromisso de permanecer mesmo quando a satisfação imediata não está presente". Relacionamentos profundos exigem atravessar períodos de tédio, conflito, desilusão – exatamente o que a lógica da substituibilidade instantânea torna impossível.


Turkle (2011, p. 280) documenta empiricamente esse processo, demonstrando que "quanto mais conectados estamos digitalmente, mais solitários nos sentimos". Ela identifica o paradoxo central: "esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros", criando um ciclo vicioso em que a incapacidade de lidar com a complexidade das relações humanas nos leva a buscar refúgio em conexões digitais mais controláveis, mas menos satisfatórias. A tecnologia promete resolver o problema da solidão que ela mesma ajuda a criar – um ciclo que beneficia as plataformas, mas empobrece os usuários.


2.2.4 A Crise da Identidade Narrativa


MacIntyre (1981, p. 217) argumenta que "o homem é, em suas ações e práticas, essencialmente um animal contador de histórias [...] Só posso responder à questão 'O que devo fazer?' se puder responder à questão precedente 'De que história faço parte?'". A identidade narrativa – a capacidade de construir uma história coerente sobre quem somos – é fundamental para o bem-estar psicológico e para a ação ética no mundo.


Contudo, a fragmentação da experiência nas redes sociais corrói essa capacidade narrativa. Como observa Ricoeur (1991, p. 188), "a identidade narrativa requer continuidade temporal e integração de experiências diversas em um todo significativo". A lógica do presente perpétuo das redes sociais – onde conteúdos antigos desaparecem no fluxo infinito e o que importa é sempre o próximo post, a próxima notificação – impede essa integração temporal necessária à construção de sentido.


Giddens (1991, p. 54) identifica a "reflexividade do self" como característica central da modernidade tardia: "o self se torna um projeto reflexivo". Nas redes sociais, esse projeto assume características patológicas, transformando-se no que Sibilia (2016, p. 111) denomina "show do eu" – uma performance constante que substitui a autenticidade pela "autenticidade performática". Não se trata mais de ser, mas de parecer ser; não de viver experiências, mas de documentá-las para validação externa.


Lasch (1979, p. 10) antecipou esse fenômeno ao descrever a "cultura do narcisismo", argumentando que "viver para o momento é a paixão predominante – viver para si mesmo, não para seus predecessores ou posteridade". Nas redes sociais, essa tendência é amplificada, produzindo o que Twenge (2017, p. 63) chama de "geração eu" – indivíduos com identidades fragmentadas, construídas através da acumulação de momentos desconexos de validação externa, incapazes de integrar passado, presente e futuro em narrativa coerente.


A consequência não é apenas psicológica, mas existencial: sem identidade narrativa, perdemos a capacidade de responder às questões fundamentais "quem sou eu?" e "como devo viver?". A vida torna-se sequência de episódios desconexos, não história com sentido e direção.


2.2.5 Evidências Contraditórias e Limitações


A integridade acadêmica exige apresentar evidências que não confirmam ou contradizem a tese, não apenas aquelas que a apoiam. Esta seção examina estudos que desafiam as narrativas alarmistas sobre os efeitos das redes sociais.


Estudos Que Não Encontram Efeitos Negativos Significativos


Orben e Przybylski (2019) conduziram uma das análises mais rigorosas, reprocessando três grandes datasets longitudinais (n = 355.358 adolescentes). Suas conclusões desafiam narrativas alarmistas:

O efeito do uso de tecnologia digital no bem-estar adolescente é negativo, mas pequeno – explicando apenas 0,4% da variação em bem-estar. Para contexto, o efeito de usar óculos é maior (mais negativo) que o efeito de usar redes sociais. (ORBEN; PRZYBYLSKI, 2019, p. 173)

Eles argumentam que "a maioria dos estudos anteriores sofre de viés de publicação: estudos encontrando efeitos nulos não são publicados, criando literatura que exagera efeitos negativos" (ORBEN; PRZYBYLSKI, 2019, p. 175). Esse viés sistemático distorce nossa compreensão dos efeitos reais, criando consenso aparente onde há, na verdade, evidências mistas.


Valkenburg e Peter (2011, p. 1) revisaram literatura sobre adolescentes e comunicação online, concluindo que:

Para 85% dos adolescentes, a comunicação online tem efeitos neutros ou positivos no bem-estar. Apenas para um subgrupo vulnerável (adolescentes com baixa autoestima, depressão pré-existente, pouco suporte social offline) os efeitos são negativos. (VALKENBURG; PETER, 2011, p. 9)

Eles propõem a "hipótese dos ricos ficam mais ricos": adolescentes socialmente competentes usam redes sociais para fortalecer relacionamentos existentes, enquanto adolescentes isolados as usam como substituto pobre para conexão real. Essa heterogeneidade de efeitos sugere que não há "efeito das redes sociais" universal – os resultados dependem crucialmente de quem usa, como usa, e em que contexto.


Ellison, Steinfield e Lampe (2007, p. 1143) estudaram uso de Facebook em universidade, encontrando que:

O uso de Facebook está positivamente associado a capital social bridging e bonding, especialmente para estudantes com baixa autoestima. Para esses indivíduos, a comunicação online oferece oportunidades de conexão que seriam difíceis offline. (ELLISON; STEINFIELD; LAMPE, 2007, p. 1162)

Esse achado é particularmente importante: para indivíduos que enfrentam barreiras à socialização offline (timidez, ansiedade social, estigma), as plataformas digitais podem reduzir, não aumentar, o isolamento.


Estudos Sobre Benefícios de Comunidades Online


Naslund et al. (2016, p. 1) revisaram literatura sobre comunidades online de saúde mental, concluindo que:

Fóruns online oferecem suporte emocional, informação, redução de estigma e senso de comunidade para pessoas com transtornos mentais. Participantes relatam que essas comunidades foram cruciais para recuperação, especialmente quando suporte offline era inadequado. (NASLUND et al., 2016, p. 8)

Cavalcante et al. (2017, p. 234) estudaram comunidades LGBTQ+ online no Brasil, encontrando que:

Para jovens LGBTQ+ em contextos hostis (famílias rejeitadoras, comunidades conservadoras), espaços online oferecem primeiro contato com identidades afirmativas, suporte emocional vital, e literalmente salvam vidas – vários participantes relataram que comunidades online impediram suicídio. (CAVALCANTE et al., 2017, p. 241)

Esses estudos revelam uma dimensão crucial frequentemente negligenciada nas críticas às redes sociais: para populações marginalizadas, as plataformas digitais podem ser espaços de refúgio, afirmação e construção de comunidade impossíveis de encontrar offline.


Ito et al. (2010, p. 15) conduziram etnografia de três anos sobre jovens e mídia digital, concluindo que:

Jovens desenvolvem novas formas de intimidade, criatividade e aprendizado através de mídias digitais. Eles não são vítimas passivas, mas agentes criativos que adaptam tecnologias para seus propósitos. (ITO et al., 2010, p. 23)

Essa perspectiva desafia o paternalismo implícito em muitas críticas, que retratam usuários (especialmente jovens) como passivos e manipulados, ignorando sua agência criativa.


Críticas Metodológicas aos Estudos Alarmistas


Problemas de causalidade: A maioria dos estudos citados na seção 2.2 são correlacionais, não experimentais. Como observam Coyne et al. (2020, p. 1):

Não sabemos se (a) redes sociais causam depressão, (b) depressão leva a mais uso de redes sociais, ou (c) ambos são causados por terceiro fator (ex: eventos de vida estressantes, predisposição genética). A maioria dos estudos não pode distinguir entre essas possibilidades. (COYNE et al., 2020, p. 12)

Essa ambiguidade causal é fundamental: correlação não implica causalidade, e a direção da causalidade importa enormemente para intervenções.


Viés de publicação: Ferguson (2020, p. 67) conduziu análise de viés de publicação, encontrando que:

Estudos encontrando efeitos negativos de tecnologia digital têm 2,5 vezes mais probabilidade de serem publicados que estudos encontrando efeitos nulos. Quando corrigimos para esse viés, os efeitos negativos diminuem substancialmente ou desaparecem. (FERGUSON, 2020, p. 73)

Pânico moral histórico: Orben (2020, p. 336) contextualiza historicamente:

Cada nova tecnologia de comunicação (livros, rádio, TV, videogames) foi acompanhada de pânico moral sobre seus efeitos em jovens. Retrospectivamente, esses pânicos eram exagerados. Devemos ser cautelosos para não repetir esse padrão com redes sociais. (ORBEN, 2020, p. 340)

Essa perspectiva histórica é crucial: há padrão recorrente de pânico moral em torno de novas tecnologias, frequentemente desproporcional aos riscos reais.


Interpretação Nuançada


Como integrar essas evidências contraditórias? O modelo de efeitos condicionais (Valkenburg; Peter, 2013, p. 221) oferece framework útil: os efeitos das redes sociais dependem de quem usa (características individuais: personalidade, saúde mental pré-existente); como usa (ativo vs. passivo; comunicação vs. comparação); contexto (qualidade de relacionamentos offline, suporte social); e que plataforma (arquiteturas diferentes produzem efeitos diferentes).


Reconhecimento de heterogeneidade: Não há "efeito das redes sociais" universal. Para alguns (vulneráveis, isolados, com uso passivo e comparativo), efeitos podem ser muito negativos. Para outros (socialmente competentes, com suporte offline, uso ativo e comunicativo), efeitos podem ser neutros ou positivos.


Implicação para a tese: A obsolescência programada das emoções não é destino universal, mas risco estrutural cujos efeitos são mediados por múltiplos fatores. Isso fortalece o argumento de que resistência é possível, mas requer condições específicas. A crítica não deve ser à tecnologia em si, mas ao modelo de negócio e design específico que priorizam engajamento sobre bem-estar.


2.2.6 Erosão da Empatia: Evidências Contestadas


A afirmação de "declínio de 40% na empatia" baseada em Konrath, O'Brien e Hsing (2011) requer exame crítico mais detalhado, dada sua influência em debates públicos e políticas.


O Estudo Original e Suas Limitações


Konrath, O'Brien e Hsing (2011, p. 180) conduziram meta-análise de 72 estudos com estudantes universitários americanos entre 1979-2009, usando o Interpersonal Reactivity Index (IRI) (medida de autorrelato de empatia) e análise temporal (comparação de médias entre décadas).


Achados principais: Declínio de 0,36 desvio-padrão em "Perspective Taking" (capacidade de adotar perspectiva alheia); declínio de 0,48 desvio-padrão em "Empathic Concern" (preocupação empática); e declínios mais acentuados após 2000.


Limitações metodológicas (reconhecidas pelos próprios autores, mas frequentemente ignoradas em citações secundárias):

  • Medidas de autorrelato: Não medem comportamento empático real, apenas como as pessoas se percebem ou querem ser percebidas

  • Amostra não-representativa: Apenas estudantes universitários americanos (predominantemente brancos, classe média)

  • Mudanças nos instrumentos: Pequenas variações na administração dos questionários ao longo das décadas podem afetar resultados

  • Causalidade não estabelecida: O estudo não testa se tecnologia digital causa o declínio; apenas documenta correlação temporal


Estudos Que Não Replicam os Achados


Chopik, O'Brien e Konrath (2017, p. 1071) tentaram replicar os achados com amostra mais ampla e diversa, encontrando resultados mistos:

Em amostra nacional representativa, encontramos pequeno declínio em algumas medidas de empatia, mas não em outras. Crucialmente, o declínio não é uniforme: varia por idade, raça, classe social. Jovens de minorias étnicas não mostram declínio. (CHOPIK; O'BRIEN; KONRATH, 2017, p. 1078)

Stietz et al. (2019, p. 12) conduziram estudo transcultural, encontrando que:

O suposto declínio na empatia é específico dos EUA. Em países europeus, asiáticos e latino-americanos, não observamos declínio comparável. Isso sugere que fatores culturais específicos dos EUA (não tecnologia digital universal) podem explicar os achados. (STIETZ et al., 2019, p. 18)

Essa especificidade cultural é crucial: se o declínio fosse causado por tecnologia digital (universal), deveria aparecer em todas as culturas com alta penetração digital. O fato de ser específico dos EUA sugere causas culturais ou socioeconômicas locais.


Explicações Alternativas ao Declínio


Mesmo aceitando que há algum declínio, tecnologia digital pode não ser a causa. Explicações alternativas incluem:

1. Mudanças econômicas (Twenge; Campbell, 2018, p. 89): Aumento da competição econômica e precarização; cultura de "cada um por si" do neoliberalismo; redução de tempo livre devido a trabalho e estudo intensificados.

2. Mudanças culturais (Santos; Varnum; Grossmann, 2017, p. 1570): Aumento do individualismo (independente de tecnologia); declínio de instituições comunitárias (igrejas, clubes, sindicatos); fragmentação social e polarização política.

3. Mudanças demográficas (Putnam, 2000, p. 283): Urbanização e mobilidade geográfica reduzem vínculos comunitários estáveis; diversidade aumentada pode reduzir (temporariamente) confiança social.

4. Artefato metodológico (Trzesniewski; Donnellan, 2010, p. 59): Jovens contemporâneos podem ser mais honestos em autorrelatos (menos desejabilidade social); padrões de comparação mudaram (o que conta como "empático" pode ter mudado).


Evidências de Manutenção ou Aumento de Empatia


Konrath et al. (2016, p. 234) (os mesmos autores do estudo original) conduziram pesquisa sobre comportamento prosocial (não autorrelato), encontrando que:

Apesar de declínios em autorrelatos de empatia, comportamentos prosociais (voluntariado, doações) aumentaram ou permaneceram estáveis. Isso sugere dissociação entre como pessoas se percebem e como agem. (KONRATH et al., 2016, p. 241)

Essa dissociação é fundamental: se as pessoas agem empaticamente (comportamento), mas relatam ser menos empáticas (autorrelato), o problema pode ser de percepção, não de capacidade real.


Zaki (2019, p. 78) argumenta que:

Não há evidência de que humanos estejam se tornando menos capazes de empatia. O que mudou é que a empatia tornou-se mais seletiva – direcionada a grupos internos, não externos. Isso reflete polarização política, não déficit empático geral. (ZAKI, 2019, p. 85)

Posicionamento Revisado


À luz dessas evidências, a afirmação de "declínio de 40% na empatia" deve ser substancialmente qualificada:

✅ Há alguma evidência de declínio em medidas de autorrelato de empatia entre estudantes universitários americanos

⚠️ Mas: (1) Não se replica em outras culturas; (2) Não se confirma em medidas comportamentais; (3) Causalidade não está estabelecida; (4) Explicações alternativas são plausíveis

🔴 Não se pode afirmar que tecnologia digital causou declínio de 40% na empatia humana universal


Reformulação mais precisa: "Há evidências de que, em contextos específicos (jovens americanos, classe média, autorrelato), algumas dimensões de empatia autorrelatada declinaram nas últimas décadas. Múltiplos fatores – incluindo, mas não limitados a, tecnologia digital – podem contribuir para esse declínio. Contudo, a capacidade humana fundamental para empatia permanece intacta, e intervenções apropriadas podem cultivá-la."


Síntese da seção: As consequências psicossociais da obsolescência programada das emoções são reais e mensuráveis, mas não universais nem unidirecionais. A erosão da empatia, o aumento de patologias emocionais, a fragilização dos vínculos e a crise da identidade narrativa afetam especialmente populações vulneráveis em contextos específicos. Contudo, evidências contraditórias e limitações metodológicas exigem cautela contra narrativas alarmistas simplificadoras. Os efeitos dependem crucialmente de quem usa, como usa, em que contexto, e qual plataforma – abrindo espaço para intervenções direcionadas e resistências estratégicas. A crítica deve focar não na tecnologia em si, mas no modelo de negócio e design específico que priorizam lucro sobre bem-estar humano.


2.3 Estudos de Caso e Exemplos Práticos

2.3.1 Relacionamentos Líquidos: Ghosting e Breadcrumbing


O ghosting – o desaparecimento repentino e sem explicação de um parceiro romântico – tornou-se fenômeno tão comum que foi incluído no dicionário Merriam-Webster em 2017. LeFebvre et al. (2019, p. 1) definem a prática como "o término unilateral de uma conexão (temporária ou de longo prazo) através da retirada de toda comunicação, sem explicação".


Freedman et al. (2019, p. 302) conduziram pesquisa com 1.300 adultos, descobrindo que 25% dos participantes já haviam praticado ghosting e 20% já haviam sido vítimas. Mais significativo: a maioria não considerava a prática particularmente problemática, descrevendo-a como "mais fácil" e "menos confrontacional" que uma conversa de término.


Essa naturalização revela a erosão da responsabilidade afetiva. Como argumenta Ansari e Klinenberg (2015, p. 112), "a abundância de opções criada pelos aplicativos de relacionamento transforma pessoas em mercadorias descartáveis".


O breadcrumbing – enviar "migalhas" ocasionais de atenção para manter alguém interessado sem compromisso genuíno – opera pela mesma lógica: maximizar opções enquanto minimiza investimento emocional.


Illouz (2012, p. 243) contextualiza esses comportamentos na "arquitetura de escolha" das plataformas digitais, que "estruturam o campo romântico como um mercado onde a racionalidade econômica substitui a vulnerabilidade emocional". O resultado é o que ela denomina "relacionamentos de baixo compromisso e alta rotatividade" – análogos perfeitos da obsolescência programada.


2.3.2 Consumo Cultural Fast-Food


A indústria musical exemplifica dramaticamente a obsolescência programada da cultura. Hesmondhalgh (2019, p. 267) documenta que "a duração média das músicas diminuiu de 3:30 minutos em 2000 para 2:30 minutos em 2020", impulsionada pela lógica do TikTok, onde apenas os primeiros 15 segundos determinam o sucesso viral.


Spotify e outras plataformas de streaming operam através de algoritmos de recomendação que, segundo Prey (2018, p. 1215), "não apenas respondem ao gosto do usuário, mas ativamente o moldam, criando 'câmaras de eco' que limitam a descoberta genuína". O modelo de negócio baseado em streams – não em vendas de álbuns – incentiva o lançamento constante de singles descartáveis em vez de obras coesas.


Jenkins (2006, p. 2) descreve esse fenômeno como parte da "cultura da convergência", onde "velhas e novas mídias colidem, onde mídia corporativa e mídia alternativa se cruzam". Contudo, essa convergência não democratizou necessariamente a cultura; em muitos aspectos, intensificou sua mercantilização.


No cinema, a tendência é similar. Bordwell (2006, p. 121) identifica a ascensão do "cinema de atrações" – filmes estruturados como sequências de momentos "memeficáveis" em vez de narrativas coerentes. Essa estética é deliberadamente projetada para viralização em redes sociais, transformando filmes em "conteúdo" consumível e rapidamente esquecível.


2.3.3 Hobbies e Paixões Passageiras


A adoção de hobbies baseada em trends virais ilustra a obsolescência programada aplicada aos interesses pessoais. Zulli e Zulli (2020, p. 12) analisam o TikTok como "plataforma que transforma praticamente qualquer atividade em trend temporária", citando exemplos como o "Dalgona Coffee" (2020) ou o "Sourdough Bread" (2020) – interesses que explodiram e desapareceram em questão de semanas.


Essa dinâmica produz o que Petersen (2019) denomina "cultura do burnout dos hobbies" – a transformação de atividades de lazer em "trabalho produtivo" que precisa ser documentado, otimizado e monetizado. Ela observa que "não podemos simplesmente desfrutar de um hobby; precisamos nos tornar 'influencers' nele, transformando prazer em performance".


Sennett (2008, p. 9) argumenta que essa lógica destrói o que ele chama de "artesanato" – "o desejo de fazer algo bem feito por si mesmo". Ele observa que "a maestria requer tempo, repetição e compromisso de longo prazo", exatamente o que a cultura da novidade constante impossibilita.


O resultado é uma superficialidade generalizada: indivíduos com vastas coleções de experiências fragmentadas, mas sem profundidade em nenhuma. Como observa Crawford (2009, p. 52), "a capacidade de concentração profunda está se tornando rara – e, portanto, cada vez mais valiosa".


2.3.4 Casos Desviantes e Exceções


A integridade metodológica exige examinar casos que não confirmam a tese de obsolescência programada das emoções.


Caso 1: Relacionamentos Duradouros Iniciados Online


Contrariando a narrativa de "relacionamentos líquidos", pesquisas documentam que relacionamentos iniciados online podem ser tão duradouros quanto offline.

Cacioppo et al. (2013, p. 10570) conduziram estudo com amostra nacionalmente representativa de 19.131 casamentos nos EUA (2005-2012), encontrando que:

Mais de um terço dos casamentos começaram online. Casamentos iniciados online tiveram taxas de divórcio ligeiramente menores (5,96%) que casamentos iniciados offline (7,67%). Satisfação marital foi ligeiramente maior em casamentos iniciados online. (CACIOPPO et al., 2013, p. 10573)

Rosenfeld e Thomas (2012, p. 523) analisaram dados longitudinais, concluindo que:

Casais que se conheceram online não têm maior probabilidade de separação que casais que se conheceram offline. A qualidade do relacionamento depende de características dos parceiros e dinâmica relacional, não do meio de encontro inicial. (ROSENFELD; THOMAS, 2012, p. 536)

Mecanismos explicativos (Finkel et al., 2012, p. 41):

  • Matching algorítmico pode identificar compatibilidade em dimensões importantes

  • Comunicação textual inicial permite conhecer personalidade antes de atração física dominar

  • Pool ampliado aumenta probabilidade de encontrar parceiro compatível

  • Autosseleção: Pessoas buscando relacionamentos sérios usam plataformas de forma diferente


Implicação: A tecnologia não determina qualidade relacional; como é usada importa mais que o fato de ser usada.


Caso 2: Comunidades de Fãs e Paixões Duradouras


Contrariando a narrativa de "hobbies passageiros", comunidades online de fãs demonstram engajamento profundo e duradouro.


Jenkins (2006, p. 137) estudou "cultura participativa" de fãs, documentando que:

Fãs online não são consumidores passivos, mas produtores criativos. Eles criam fanfiction, fanart, análises críticas, organizações comunitárias. Esse engajamento é profundo, sustentado por anos ou décadas, e gera habilidades transferíveis. (JENKINS, 2006, p. 142)

Ito et al. (2010, p. 18) identificaram "interest-driven participation" onde:

Jovens desenvolvem expertise profunda em áreas de interesse (programação, música, arte) através de comunidades online. Essas paixões não são efêmeras, mas centrais à formação de identidade e trajetórias de carreira. (ITO et al., 2010, p. 25)

Exemplos concretos:

  • Comunidades de software livre: Desenvolvedores contribuem por décadas para projetos como Linux, Wikipedia

  • Fandom de Harry Potter: Ativo há mais de 20 anos, com milhões de fanfics, convenções, organizações de caridade

  • Comunidades de aprendizado: Fóruns de matemática, programação, línguas onde membros se engajam por anos


Características distintivas dessas comunidades (Rheingold, 2000, p. 5):

  • Governança comunitária (não algorítmica)

  • Valores compartilhados de profundidade, qualidade, aprendizado

  • Estruturas de mentoria que cultivam expertise de longo prazo

  • Resistência à monetização e lógica de atenção


Implicação: Quando design e cultura comunitária priorizam profundidade sobre engajamento efêmero, tecnologias digitais podem facilitar (não impedir) paixões duradouras.


Caso 3: Movimentos Sociais e Solidariedade Profunda


Contrariando a narrativa de "fragilidade dos vínculos", movimentos sociais online demonstram capacidade de solidariedade profunda e ação coletiva sustentada.


Tufekci (2017, p. 67) estudou Primavera Árabe, Occupy Wall Street, protestos em Hong Kong, documentando que:

Redes sociais permitiram mobilização rápida de milhões de pessoas. Embora esses movimentos enfrentem desafios organizacionais, eles demonstram capacidade de criar solidariedade profunda, disposição para sacrifício pessoal, e compromisso sustentado. (TUFEKCI, 2017, p. 89)

Castells (2012, p. 15) analisou "movimentos em rede", argumentando que:

Esses movimentos não são superficiais ou efêmeros. Eles criam novas formas de comunidade baseadas em autonomia, horizontalidade e afeto. Participantes relatam experiências transformadoras de conexão profunda e propósito compartilhado. (CASTELLS, 2012, p. 221)

Exemplos brasileiros:

  • Jornadas de Junho (2013): Mobilização massiva com vínculos afetivos intensos entre participantes

  • Movimentos feministas online: #MeToo, #NãoÉNão geraram conscientização e solidariedade duradouras

  • Comunidades de apoio mútuo: Durante pandemia, grupos de WhatsApp organizaram suporte material e emocional


Mecanismos (Gerbaudo, 2012, p. 12):

  • Narrativas compartilhadas de injustiça e esperança

  • Identidades coletivas construídas através de participação

  • Rituais digitais (hashtags, imagens icônicas) que criam senso de comunidade

  • Ação coordenada que gera confiança e compromisso mútuo


Implicação: Quando tecnologias são usadas para fins coletivos (não apenas individuais), podem facilitar vínculos profundos e compromisso sustentado.


Caso 4: Plataformas com Design Alternativo


Nem todas as plataformas operam sob lógica de capitalismo de vigilância. Alternativas demonstram que outros designs são possíveis.


Mastodon (rede social descentralizada):

  • Sem algoritmos: Feed cronológico, não otimizado para engajamento

  • Governança comunitária: Cada instância define suas regras

  • Sem publicidade: Financiamento por doações

  • Resultado: Usuários relatam interações mais significativas, menos ansiedade (GEHL; ZULLI, 2021, p. 89)


BeReal (app de fotos):

  • Uma foto por dia: Em horário aleatório, sem filtros

  • Sem likes públicos: Apenas reações de amigos próximos

  • Autenticidade forçada: Não há tempo para curadoria

  • Resultado: Redução de comparação social e ansiedade (ANDERSON, 2022, p. 12)


Plataformas cooperativas (Scholz, 2016, p. 15):

  • Propriedade dos usuários: Trabalhadores/usuários são donos

  • Governança democrática: Decisões coletivas sobre design

  • Distribuição equitativa: Valor gerado é compartilhado

  • Exemplos: Stocksy (fotos), Resonate (música), Fairbnb (hospedagem)


Implicação: A obsolescência programada das emoções não é inerente à tecnologia digital, mas ao modelo de negócio específico do capitalismo de vigilância. Designs alternativos são possíveis e funcionais.


Síntese: O Que os Casos Desviantes Revelam


Esses casos não refutam a tese, mas a nuançam criticamente:

  1. Tecnologia não é determinística: Efeitos dependem de design, governança, cultura de uso

  2. Agência humana existe: Usuários podem subverter plataformas, criar comunidades alternativas, resistir à lógica dominante

  3. Heterogeneidade importa: Diferentes plataformas, usos, contextos produzem efeitos diferentes

  4. Alternativas são possíveis: A obsolescência não é inevitável; outros modelos existem e funcionam


Reformulação da tese: A obsolescência programada das emoções é tendência dominante sob capitalismo de vigilância, mas não destino universal. Resistências existem, alternativas funcionam, transformação é possível – mas requer ação deliberada contra estruturas poderosas.


3 Discussão Crítica: Resistência em Tempos de Aceleração

3.1 A Inevitabilidade vs. Agência Humana

3.1.1 O Debate entre Determinismo Tecnológico e Construtivismo Social


A questão central que atravessa a análise da obsolescência programada das emoções é fundamentalmente filosófica: somos determinados pelas tecnologias que criamos ou mantemos capacidade de agência sobre nossos modos de sentir? Este debate opõe duas tradições teóricas: o determinismo tecnológico e o construtivismo social.


O determinismo tecnológico, defendido por autores como McLuhan (1964, p. 7), argumenta que "o meio é a mensagem" – ou seja, as tecnologias não são neutras, mas moldam fundamentalmente nossas capacidades cognitivas e emocionais. McLuhan (1964, p. 18) afirma que "nós moldamos nossas ferramentas e, depois, nossas ferramentas nos moldam". Nessa perspectiva, as plataformas digitais não apenas facilitam certas formas de sentir; elas reestruturam neurologicamente nossa capacidade emocional.


Carr (2011, p. 116) oferece evidências neurocientíficas para essa posição, demonstrando que "a internet está literalmente reconfigurando nossos cérebros". Ele cita pesquisas de neuroplasticidade mostrando que "quando mudamos nossos hábitos de pensamento, mudamos a estrutura física do cérebro" (CARR, 2011, p. 34). Nessa leitura, a exposição prolongada ao scroll infinito e à gratificação dopaminérgica intermitente não é meramente um hábito modificável, mas uma alteração estrutural da arquitetura neural.


Postman (1992, p. 18) radicaliza essa posição ao argumentar que "a tecnologia não é aditiva; é ecológica", significando que "uma mudança significativa gera mudança total". Ele observa que "não é correto supor que qualquer tecnologia seja simplesmente um auxiliar neutro [...] Toda tecnologia tem uma filosofia embutida que é dada expressão na forma como faz as pessoas usarem suas mentes" (POSTMAN, 1992, p. 13).


Em contraposição, o construtivismo social, representado por autores como Bijker e Pinch (1987, p. 28), argumenta que "o desenvolvimento tecnológico é um processo aberto que pode produzir diferentes resultados dependendo das circunstâncias sociais". Nessa perspectiva, as tecnologias são artefatos socialmente construídos, cujos significados e usos são negociados por diferentes grupos sociais.


Winner (1980, p. 121) oferece uma posição intermediária ao reconhecer que "algumas tecnologias são inerentemente políticas" – ou seja, incorporam relações de poder em seu design – mas isso não elimina completamente a agência humana. Ele argumenta que "a questão não é se a tecnologia determina a sociedade ou vice-versa, mas como ambos se co-constituem mutuamente".


Feenberg (2002, p. 15) desenvolve essa síntese através da "teoria crítica da tecnologia", argumentando que "a tecnologia não é destino, mas um campo de batalha". Ele observa que "o design técnico não é apenas funcional, mas incorpora valores sociais que podem ser contestados e redesenhados" (FEENBERG, 2002, p. 73). Nessa leitura, a obsolescência programada das emoções não é inevitável, mas resultado de escolhas de design deliberadas que podem ser resistidas e transformadas.


Turkle (2015, p. 3) sintetiza essa tensão ao afirmar: "a tecnologia nos propõe uma arquitetura para nossas intimidades, mas somos nós que devemos decidir se aceitamos essa proposta". Ela reconhece o poder estruturante das plataformas, mas insiste na possibilidade de recusa consciente – o que ela denomina "reclaiming conversation" (reclamar a conversa).


3.1.2 A Economia da Atenção como Adversária da Profundidade Emocional


O conceito de "economia da atenção", formulado por Simon (1971, p. 40), parte da premissa de que "em um mundo rico em informação, a riqueza de informação significa escassez de algo mais: a escassez daquilo que a informação consome. O que a informação consome é bastante óbvio: ela consome a atenção de seus receptores".


Goldhaber (1997, p. 2) desenvolve essa ideia ao argumentar que "a atenção se tornou a moeda mais valiosa da economia digital". Ele observa que "diferentemente do dinheiro, a atenção não pode ser acumulada ou armazenada; ela deve ser constantemente renovada" (GOLDHABER, 1997, p. 5). Essa característica torna a atenção particularmente vulnerável à captura sistemática por plataformas projetadas para maximizar o engajamento.


Wu (2016, p. 6) documenta historicamente como "a captura e venda da atenção humana tornou-se o modelo de negócios dominante do século XXI". Ele traça uma linha direta entre as técnicas publicitárias do início do século XX e os algoritmos de recomendação contemporâneos, argumentando que "o que mudou não é o objetivo – capturar atenção – mas a sofisticação e eficácia dos métodos" (WU, 2016, p. 342).


A profundidade emocional, contudo, exige exatamente o que a economia da atenção impossibilita: tempo não fragmentado, reflexão sustentada e processamento lento. Como argumenta Crawford (2015, p. 11), "a atenção é o recurso mais escasso do século XXI, e aqueles que conseguem protegê-la têm uma vantagem decisiva". Ele observa que "a capacidade de concentração profunda está se tornando simultaneamente mais rara e mais valiosa" (CRAWFORD, 2015, p. 14).


Citton (2017, p. 12) oferece uma análise filosófica ao argumentar que "a atenção não é apenas um recurso cognitivo, mas a própria substância da subjetividade". Ele observa que "aquilo a que prestamos atenção literalmente nos constitui como sujeitos" (CITTON, 2017, p. 45). Nessa perspectiva, a colonização da atenção pelas plataformas digitais não é apenas uma questão de eficiência cognitiva, mas uma ameaça existencial à autonomia emocional.


Zuboff (2019, p. 93) radicaliza essa crítica ao identificar o "capitalismo de vigilância" como sistema que "reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para tradução em dados comportamentais". Ela argumenta que "a lógica econômica desse sistema é fundamentalmente incompatível com a autonomia humana" (ZUBOFF, 2019, p. 11), pois depende da previsibilidade e manipulação do comportamento – exatamente o oposto da profundidade emocional genuína, que é imprevisível e não quantificável.


Stiegler (2010, p. 34) oferece uma perspectiva fenomenológica ao argumentar que vivemos uma "crise da atenção" que é simultaneamente "crise do desejo". Ele observa que "quando a atenção é capturada por dispositivos projetados para maximizar o tempo de tela, perdemos a capacidade de desejar profundamente" (STIEGLER, 2010, p. 78). O desejo genuíno, argumenta ele, requer "atenção profunda" (deep attention) – a capacidade de sustentar foco prolongado em um objeto – que está sendo substituída pela "hiperatenção" (hyper attention) – a capacidade de processar múltiplos estímulos simultaneamente de forma superficial.


3.2 Caminhos para a "Sustentabilidade Emocional"

3.2.1 Slow Living e a Valorização do Tédio


O movimento Slow Living, originado na Itália com o Slow Food nos anos 1980, propõe uma filosofia de resistência à aceleração. Honoré (2004, p. 14) define o movimento como "uma revolução cultural contra a noção de que mais rápido é sempre melhor". Ele argumenta que "a velocidade pode ser divertida, produtiva e poderosa, mas nossa obsessão por fazer tudo mais rápido está nos tornando menos saudáveis, menos produtivos e menos felizes" (HONORÉ, 2004, p. 4).


Aplicado às emoções, o conceito de "lentidão emocional" implica resistir à pressão por reações imediatas e permitir o que Gross (2015, p. 6) denomina "processamento emocional profundo" – "o tempo necessário para que uma emoção seja plenamente experienciada, compreendida e integrada à narrativa pessoal". Pesquisas em neurociência afetiva demonstram que "a regulação emocional eficaz requer tempo de processamento que é incompatível com a velocidade das interações digitais" (GROSS, 2015, p. 12).


A valorização do tédio representa um aspecto particularmente contraintuitivo dessa proposta. Mann e Cadman (2014, p. 166) argumentam que "o tédio não é ausência de significado, mas espaço para sua emergência". Eles demonstram experimentalmente que "períodos de tédio aumentam subsequentemente a criatividade e a capacidade de reflexão profunda" (MANN; CADMAN, 2014, p. 173).


Eastwood et al. (2012, p. 482) oferecem uma definição psicológica precisa: "o tédio é o sentimento desconfortável de querer, mas ser incapaz de se engajar em atividade satisfatória". Contudo, eles observam que "essa incapacidade temporária de engajamento cria condições para a emergência de desejos autênticos, não mediados por estímulos externos" (EASTWOOD et al., 2012, p. 490). Em outras palavras, o tédio é o espaço onde descobrimos o que genuinamente desejamos, em contraste com o que os algoritmos nos sugerem desejar.


Klinger (2013, p. 234) argumenta que "a intolerância contemporânea ao tédio – manifestada no reflexo de pegar o smartphone a qualquer momento de inatividade – impede o que ela chama de 'divagação mental produtiva' (mind-wandering)". Pesquisas em neurociência demonstram que "a rede de modo padrão do cérebro, ativa durante períodos de aparente inatividade, é crucial para a consolidação de memórias, planejamento futuro e processamento emocional" (KLINGER, 2013, p. 240).


O silêncio constitui outro elemento central dessa proposta. Picard (1948, p. 46) argumenta filosoficamente que "o silêncio não é mera ausência de som, mas uma qualidade positiva de atenção". Ele observa que "apenas no silêncio podemos ouvir o que genuinamente pensamos e sentimos, distinguindo-o do ruído das expectativas externas" (PICARD, 1948, p. 52).


Kagge (2017, p. 23) desenvolve essa ideia ao argumentar que "o silêncio é um luxo mais precioso que qualquer bem material na economia da atenção". Ele propõe três dimensões de silêncio: externo (ausência de ruído), interno (quietude mental) e relacional (espaços de não-comunicação nas relações). Todos os três, argumenta ele, são necessários para a "sustentabilidade emocional".


3.2.2 Autoconsciência como Ato de Rebeldia


A autoconsciência (self-awareness) – a capacidade de observar reflexivamente os próprios estados mentais e emocionais – emerge como ferramenta fundamental de resistência. Kabat-Zinn (1994, p. 4) define mindfulness (atenção plena) como "prestar atenção de uma maneira particular: intencionalmente, no momento presente e sem julgamento". Ele argumenta que essa prática constitui "um ato radical de liberdade" em contextos que constantemente capturam nossa atenção (KABAT-ZINN, 1994, p. 264).


Pesquisas empíricas demonstram a eficácia dessa abordagem. Keng, Smoski e Robins (2011, p. 1041) conduziram meta-análise de 39 estudos, concluindo que "práticas de mindfulness reduzem significativamente ansiedade, depressão e estresse, enquanto aumentam bem-estar psicológico". Mais relevante para nosso argumento, eles observam que "a prática aumenta a capacidade de distinguir entre respostas automáticas e escolhas conscientes" (KENG; SMOSKI; ROBINS, 2011, p. 1045).


Williams e Penman (2011, p. 37) descrevem essa capacidade como "desidentificação" – "a habilidade de observar pensamentos e emoções sem ser dominado por eles". Eles argumentam que "essa distância reflexiva é precisamente o que os algoritmos tentam eliminar, pois dependem de respostas automáticas e imediatas" (WILLIAMS; PENMAN, 2011, p. 89).


A introspecção offline – períodos deliberados de desconexão digital – constitui prática concreta dessa filosofia. Newport (2019, p. 23) argumenta que "a solidão – definida como tempo sem input de outras mentes – é essencial para o florescimento humano". Ele documenta que "a geração atual é a primeira na história humana a experimentar 'privação de solidão' sistemática, com consequências psicológicas significativas" (NEWPORT, 2019, p. 98).


Odell (2019, p. 4) propõe o conceito de "não fazer nada" (doing nothing) como "ato de resistência política". Ela argumenta que "em uma economia que extrai valor de cada momento de nossa atenção, recusar-se a ser produtivo, conectado ou otimizado é fundamentalmente subversivo" (ODELL, 2019, p. 18). Essa recusa não é escapismo, mas "criação deliberada de espaço para autodeterminação".


Haidt e Allen (2020, p. 81) propõem práticas concretas baseadas em pesquisas psicológicas: "jejuns digitais" semanais, "zonas livres de telefone" em casa, e "rituais de transição" que marcam a passagem entre estados online e offline. Eles argumentam que "assim como a sustentabilidade ambiental requer consumo consciente, a sustentabilidade emocional requer atenção consciente" (HAIDT; ALLEN, 2020, p. 94).


3.2.3 A Revalorização do Conflito e da Reparação


A cultura do descarte nas relações humanas baseia-se em uma premissa implícita: conflito indica incompatibilidade fundamental. Contudo, pesquisas em psicologia relacional demonstram o oposto. Gottman e Silver (2015, p. 27) conduziram estudos longitudinais com milhares de casais, concluindo que "não é a ausência de conflito que prediz relacionamentos duradouros, mas a capacidade de reparação após o conflito".


Eles identificam o que denominam "Quatro Cavaleiros do Apocalipse" – padrões de comunicação que preveem término de relacionamentos: crítica, desprezo, defensividade e obstrução. Significativamente, todos esses padrões envolvem evitação ou descarte, não engajamento genuíno com o conflito (GOTTMAN; SILVER, 2015, p. 29). Em contraste, casais duradouros demonstram "tentativas de reparação" – gestos, mesmo pequenos, que sinalizam desejo de reconexão após desacordos.


Perel (2017, p. 89) argumenta que "a qualidade de um relacionamento não é medida pela ausência de problemas, mas pela capacidade de atravessá-los juntos". Ela observa que "a cultura digital nos treinou para a 'otimização constante' – buscar sempre o melhor – o que é fundamentalmente incompatível com o compromisso relacional" (PEREL, 2017, p. 134). Relacionamentos duradouros, argumenta ela, requerem "escolher a profundidade sobre a novidade".


Brown (2012, p. 34) identifica a vulnerabilidade como elemento central dessa capacidade. Ela define vulnerabilidade como "incerteza, risco e exposição emocional" e argumenta que "é o berço da inovação, criatividade e mudança" (BROWN, 2012, p. 34). Significativamente, ela observa que "a cultura digital promove uma 'armadura emocional' – a apresentação de versões editadas e invulneráveis de nós mesmos – que impede a intimidade genuína" (BROWN, 2012, p. 118).


A reparação relacional requer o que Siegel (2012, p. 156) denomina "sintonização" – "a capacidade de perceber e responder aos estados emocionais do outro". Ele argumenta que "a sintonização é uma habilidade que se desenvolve através de prática deliberada, especialmente em momentos de desconexão" (SIEGEL, 2012, p. 162). Essa prática é incompatível com a velocidade e superficialidade das interações digitais.


Finkel et al. (2014, p. 3) oferecem evidências empíricas ao demonstrar que "investimento de tempo e energia" é o preditor mais forte de satisfação relacional. Eles observam que "relacionamentos de alta qualidade requerem aproximadamente 5-7 horas por semana de interação focada e não distraída" (FINKEL et al., 2014, p. 12) – um investimento que a cultura da novidade constante torna cada vez mais difícil.


Cacioppo e Patrick (2008, p. 87) argumentam que "a solidão não é causada por estar sozinho, mas por falta de conexões significativas". Eles demonstram que "a qualidade, não a quantidade, de relações determina o bem-estar" (CACIOPPO; PATRICK, 2008, p. 92). Paradoxalmente, a hiperconectividade digital aumenta a solidão ao substituir "poucas conexões profundas" por "muitas conexões superficiais".


A proposta de "sustentabilidade emocional", portanto, não é nostálgica ou tecnofóbica, mas estratégica: reconhecer que certas qualidades humanas – profundidade emocional, intimidade genuína, autodeterminação – requerem condições específicas que devem ser deliberadamente cultivadas em resistência às estruturas que as corroem. Como argumenta Turkle (2015, p. 362), "a tecnologia não é o problema; o problema é nossa relação irrefletida com ela. A solução não é rejeitar a tecnologia, mas 'reclamar nossa conversa' – com outros e conosco mesmos".


3.3 Experiências de Resistência: Análise de Casos Concretos

3.3.1 Regulação Estatal: Casos Europeus


GDPR (General Data Protection Regulation) - União Europeia (2018)

Objetivos: Proteger dados pessoais, limitar extração e uso de informações por corporações.

Mecanismos principais (Zuboff, 2019, p. 523):

  • Consentimento explícito: Usuários devem concordar ativamente com coleta de dados

  • Direito ao esquecimento: Indivíduos podem exigir deleção de dados

  • Portabilidade: Dados podem ser transferidos entre plataformas

  • Multas substanciais: Até 4% da receita global por violações

Resultados (Bradford, 2020, p. 89):

  • Mudanças globais: Empresas alteraram práticas globalmente (não apenas na UE) devido ao "efeito Bruxelas"

  • Maior consciência: Usuários mais cientes de como dados são coletados

  • Limitações: Enforcement desigual; empresas encontram brechas; usuários ainda clicam "aceitar" sem ler

Lições: ✅ Regulação pode forçar mudanças corporativas ⚠️ Mas requer enforcement robusto e constante atualização


Right to Disconnect - França (2017)

Objetivo: Proteger trabalhadores de expectativa de disponibilidade constante.

Mecanismo: Lei exige que empresas com mais de 50 funcionários negociem "direito de desconexão" – horários em que trabalhadores não precisam responder emails/mensagens.

Resultados (Mettling, 2015, p. 67):

  • Conscientização: Debate público sobre limites entre trabalho e vida pessoal

  • Implementação variável: Empresas cumprem formalmente, mas cultura de disponibilidade persiste

  • Efeito limitado: Difícil fiscalizar; trabalhadores temem consequências de exercer direito

Lições: ✅ Legislação pode legitimar limites ⚠️ Mas mudança cultural requer mais que lei


Digital Services Act - União Europeia (2022)

Objetivo: Responsabilizar plataformas por conteúdo, limitar publicidade direcionada, aumentar transparência algorítmica.

Mecanismos principais (Comissão Europeia, 2022):

  • Transparência algorítmica: Plataformas devem explicar como algoritmos funcionam

  • Limitação de publicidade para menores: Proibição de ads direcionados para crianças

  • Responsabilização: Plataformas responsáveis por conteúdo ilegal

  • Auditorias independentes: Pesquisadores podem acessar dados para estudos

Status: Implementação em curso (2023-2024); resultados ainda incertos.

Potencial: ✅ Pode forçar mudanças fundamentais em modelo de negócio ⚠️ Mas resistência corporativa é intensa; brechas serão exploradas


3.3.2 Movimentos Sociais: Time Well Spent / Center for Humane Technology


Origem: Fundado por Tristan Harris (ex-designer do Google) e Aza Raskin (inventor do scroll infinito) em 2013.

Objetivos (Harris, 2016):

  • Conscientização: Educar público sobre design persuasivo

  • Pressão corporativa: Advocacia por "design ético"

  • Mudança cultural: Redefinir sucesso tecnológico (não por engajamento, mas por bem-estar)

Estratégias:

  • Documentários: "The Social Dilemma" (Netflix, 2020) visto por 100+ milhões

  • Educação: Recursos para escolas, famílias sobre uso saudável de tecnologia

  • Advocacia política: Testemunhos em congressos, consultorias a reguladores

Resultados (Tarnoff, 2022, p. 145):

  • Conscientização massiva: Debate público sobre efeitos de redes sociais

  • Mudanças corporativas limitadas: Apple introduziu "Screen Time", mas mudanças são superficiais

  • Críticas: Acusado de individualizar problema estrutural; soluções propostas são insuficientes

Lições: ✅ Insiders corporativos têm credibilidade para denunciar ✅ Conscientização é primeiro passo necessário ⚠️ Mas mudança voluntária corporativa é insuficiente; regulação é necessária


3.3.3 Tecnologias Alternativas: Economia Cooperativa de Plataformas


Platform Cooperativism (Scholz, 2016)

Princípio: Plataformas digitais de propriedade e governança coletiva dos trabalhadores/usuários.

Exemplos funcionais:


Stocksy United (plataforma de fotos):

  • Modelo: Cooperativa de propriedade de fotógrafos

  • Governança: Decisões democráticas sobre comissões, políticas

  • Distribuição: 50-75% da receita para fotógrafos (vs. 15-45% em plataformas convencionais)

  • Resultado: Fotógrafos relatam maior satisfação, rendimentos melhores, senso de comunidade (SCHOLZ, 2016, p. 89)


Fairbnb (hospedagem):

  • Modelo: Alternativa cooperativa ao Airbnb

  • Diferencial: 50% dos lucros vão para projetos comunitários locais

  • Governança: Comunidades locais decidem regras de hospedagem

  • Status: Operacional em várias cidades europeias; escala ainda limitada


Resonate (streaming de música):

  • Modelo: Cooperativa de propriedade de artistas e ouvintes

  • Pagamento: Stream-to-own – após 9 streams, você possui a música

  • Distribuição: 70% da receita para artistas (vs. ~20% no Spotify)

  • Resultado: Artistas relatam rendimentos melhores e relação mais direta com fãs


Desafios (Sandoval, 2020, p. 234):

  • Escala: Difícil competir com plataformas capitalistas massivamente financiadas

  • Efeitos de rede: Usuários vão onde outros usuários estão

  • Visibilidade: Baixo reconhecimento público de alternativas

  • Recursos: Cooperativas têm menos capital para marketing, desenvolvimento


Potencial (Scholz, 2016, p. 156): ✅ Demonstram que modelos alternativos são viáveis ✅ Criam espaços onde lógica de atenção não domina ⚠️ Mas escalar requer suporte político e mudança cultural


3.3.4 Práticas Comunitárias: Movimentos de Digital Detox


Digital Detox Retreats

Conceito: Retiros onde participantes entregam dispositivos digitais por dias/semanas, engajando em atividades contemplativas, natureza, interação face-a-face.

Evidências (Syvertsen; Enli, 2020, p. 1045):

  • Efeitos de curto prazo: Participantes relatam redução de ansiedade, melhora em sono, maior presença

  • Efeitos de longo prazo: Modestos; maioria retorna a padrões anteriores em semanas

  • Quem se beneficia: Pessoas já motivadas para mudança; menos eficaz para usuários problemáticos

Crítica (Hesselberth, 2018, p. 1932):

  • Privilégio de classe: Retiros são caros, acessíveis apenas a classes médias/altas

  • Individualização: Trata problema estrutural como responsabilidade individual

  • Temporariedade: "Férias" da tecnologia não transformam estruturas cotidianas


Screen-Free Zones / Tempos

Exemplos:

  • Escolas sem smartphones: França proibiu smartphones em escolas (2018)

  • Restaurantes sem celular: Estabelecimentos que oferecem descontos para quem não usa celular

  • "Sabbath digital": Famílias que designam um dia por semana sem telas

Evidências (Kushlev; Dunn, 2019, p. 67):

  • Qualidade de interação: Conversas face-a-face são mais profundas sem dispositivos presentes

  • Satisfação relacional: Casais que estabelecem "zonas livres" relatam maior satisfação

  • Desafios: Difícil manter; pressões sociais e profissionais para estar disponível

Lições: ✅ Criar estruturas (não apenas intenções) facilita mudança ✅ Práticas coletivas (não apenas individuais) são mais sustentáveis ⚠️ Mas requerem privilégio de poder "desconectar" sem consequências


3.3.5 Educação: Alfabetização Digital Crítica


Media Literacy Programs

Conceito: Programas educacionais que ensinam não apenas como usar tecnologia, mas como ela funciona e quais são seus efeitos.


Exemplos:


Common Sense Media (EUA):

  • Currículo: Aulas sobre privacidade, design persuasivo, bem-estar digital

  • Alcance: Usado em 70% das escolas públicas americanas

  • Conteúdo: Ensina estudantes a reconhecer técnicas de captura de atenção, questionar algoritmos, avaliar fontes


Evidências (Livingstone et al., 2017, p. 2989):

  • Conhecimento: Estudantes que passam por programas têm maior compreensão de como plataformas funcionam

  • Comportamento: Efeitos modestos em mudança de comportamento; conhecimento não se traduz automaticamente em ação

  • Empoderamento: Estudantes relatam sentir-se mais capazes de fazer escolhas conscientes


Limitações (Pangrazio, 2016, p. 163):

  • Foco em indivíduo: Programas enfatizam escolhas pessoais, não ação coletiva ou mudança estrutural

  • Responsabilização de jovens: Coloca peso em crianças/adolescentes para resistir a sistemas projetados por adultos com recursos massivos

  • Insuficiência: Alfabetização sozinha não pode contrariar design persuasivo profissional


Abordagens críticas (Pangrazio; Selwyn, 2019, p. 432):

  • Alfabetização crítica de dados: Ensinar não apenas uso, mas questionamento de poder, vigilância, justiça

  • Pedagogia de resistência: Não apenas adaptar-se, mas transformar sistemas

  • Ação coletiva: Organizar para mudança, não apenas escolhas individuais


3.3.6 Síntese: O Que Funciona e O Que Não Funciona


Estratégias mais eficazes (baseadas em evidências):

✅ Regulação estatal robusta (GDPR, DSA) – quando bem implementada, força mudanças corporativas

✅ Alternativas tecnológicas cooperativas – demonstram viabilidade de outros modelos, criam espaços de resistência

✅ Educação crítica (não apenas instrumental) – empodera usuários para questionar e resistir

✅ Práticas coletivas (não apenas individuais) – movimentos sociais, comunidades intencionais

✅ Abordagens multinível – combinando individual, comunitário, político, tecnológico

Estratégias menos eficazes:

⚠️ Mudança voluntária corporativa – insuficiente; empresas fazem mudanças superficiais para evitar regulação

⚠️ Soluções puramente individuais – mindfulness, digital detox ajudam, mas não transformam estruturas

⚠️ Conscientização sem ação – saber sobre problemas não garante mudança de comportamento

⚠️ Tecnofobia ou rejeição total – irrealista e desnecessária; tecnologia não é o problema, mas seu design específico


Princípios para resistência eficaz:

  1. Multinível: Combinar mudança individual, comunitária, política, tecnológica

  2. Estrutural: Focar em transformar sistemas, não apenas comportamentos individuais

  3. Coletiva: Organização e ação conjunta são mais poderosas que escolhas isoladas

  4. Realista: Reconhecer poder corporativo e dificuldade de mudança; evitar otimismo ingênuo

  5. Propositiva: Não apenas criticar, mas construir alternativas concretas


4. Considederações Finais: O Futuro do Sentir

4.1 Reafirmação da Tese: Sintoma Estrutural, Não Acidente


A tese central deste ensaio – que a obsolescência programada das emoções não é um acidente, mas um sintoma estrutural do capitalismo de vigilância e da sociedade do espetáculo – encontra sustentação robusta na convergência de análises sociológicas, filosóficas, psicológicas e neurocientíficas apresentadas.


Zuboff (2019, p. 8) demonstra que o capitalismo de vigilância constitui uma "nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas de extração, previsão e venda". Esse sistema não é meramente uma versão digital do capitalismo anterior; representa uma mutação qualitativa onde "a mercadoria não é mais o que produzimos, mas nós mesmos – nossos comportamentos, emoções e relações" (ZUBOFF, 2019, p. 94). A obsolescência programada das emoções é funcional a esse sistema: emoções duradouras e profundas são imprevisíveis e não quantificáveis, portanto não monetizáveis. Emoções efêmeras, superficiais e padronizadas são previsíveis, mensuráveis e comercializáveis.


Debord (1967, p. 9) antecipou essa dinâmica ao argumentar que na sociedade do espetáculo, "tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação". Ele observa que "o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens" (DEBORD, 1967, p. 4). Nas redes sociais, essa mediação atinge seu ápice: as emoções não são vividas, mas performadas para consumo. A autenticidade emocional torna-se impossível porque toda emoção é simultaneamente experiência e produto – vivida e exibida, sentida e comercializada.


Fisher (2009, p. 16) sintetiza essa condição através do conceito de "realismo capitalista" – "a ideia generalizada de que não há alternativa ao capitalismo". Ele argumenta que "é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo" (FISHER, 2009, p. 2). Aplicado às emoções, o realismo capitalista manifesta-se na naturalização da obsolescência afetiva: a incapacidade de imaginar formas de sentir que não sejam mediadas, quantificadas e monetizadas pelas plataformas digitais.


Berardi (2009, p. 73) complementa essa análise ao identificar a "precariedade existencial" como condição estrutural do capitalismo tardio. Ele observa que "a flexibilidade exigida pelo mercado de trabalho se estende à esfera afetiva, produzindo sujeitos incapazes de estabelecer compromissos duradouros". A obsolescência programada das emoções não é, portanto, disfunção do sistema, mas sua operação normal – a produção deliberada de subjetividades precárias, flexíveis e descartáveis que correspondem às necessidades do capital.


Foucault (2008, p. 232) oferece ferramentas conceituais para compreender esse processo através da noção de "governamentalidade neoliberal" – formas de poder que operam não através da repressão, mas da "produção de subjetividades". Ele argumenta que "o neoliberalismo não é apenas uma política econômica, mas uma racionalidade que estrutura a ação dos governantes e a conduta dos governados" (FOUCAULT, 2008, p. 323). Nessa racionalidade, cada indivíduo torna-se empresário de si mesmo, gerenciando seu "capital humano" – incluindo seu "capital emocional" – segundo critérios de eficiência e rentabilidade.


A obsolescência programada das emoções é, portanto, manifestação dessa governamentalidade: a internalização da lógica de mercado como estrutura da subjetividade. Não somos meramente consumidores de produtos emocionais; somos produtores de nós mesmos como produtos emocionais descartáveis. Como observa Han (2017, p. 9), "o amor é degradado a um sentimento que se consome" – não por acidente, mas porque essa degradação é estruturalmente necessária à reprodução do sistema.


Essa tese encontra confirmação empírica na arquitetura deliberada das plataformas digitais. Como documentado por Harris (2016), ex-especialista em ética de design do Google, "essas tecnologias não são neutras; são projetadas intencionalmente para maximizar o vício". Fogg (2003, p. 1) demonstra que a "captologia" – a ciência dos computadores como tecnologias persuasivas – é campo estabelecido cujo objetivo explícito é "mudar atitudes e comportamentos das pessoas de maneiras previsíveis". A obsolescência programada das emoções não é efeito colateral; é objetivo de design.


Portanto, reafirma-se com convicção: a obsolescência programada das emoções é sintoma estrutural, não acidente. É manifestação necessária de um sistema econômico que depende da transformação de toda experiência humana em dados comercializáveis, de toda relação em transação, de toda emoção em mercadoria. Reconhecer essa verdade é o primeiro passo para resistir a ela.


4.2 Considerações Finais: Reprogramar a Humanidade como Ato Revolucionário


Diante dessa análise, impõe-se uma questão ética e filosófica fundamental: que futuro queremos para o sentir humano? A resposta não pode ser meramente técnica ou individual, mas exige transformação estrutural e compromisso coletivo.


Marcuse (1964, p. 1) argumentou que vivemos sob o que ele denominou "sociedade unidimensional" – uma formação social que "elimina a dimensão crítica da razão, a capacidade de pensar e agir de forma diferente". Ele observa que "o aparato produtivo tende a se tornar totalitário na medida em que determina não apenas as ocupações, habilidades e atitudes socialmente necessárias, mas também as necessidades e aspirações individuais" (MARCUSE, 1964, p. 3). A obsolescência programada das emoções representa essa totalização aplicada à subjetividade: a eliminação da capacidade de sentir de forma diferente.


Contudo, Marcuse (1964, p. 257) também identificou o que chamou de "Grande Recusa" – "a recusa política de aceitar as regras do jogo". Aplicada ao nosso contexto, essa recusa implica defender a permanência e a profundidade como atos revolucionários. Não se trata de nostalgia ou tecnofobia, mas de resistência consciente à colonização mercadológica da experiência humana.


Fromm (1976, p. 1) oferece fundamento filosófico para essa posição ao distinguir entre "modo ter" e "modo ser". Ele argumenta que "na sociedade contemporânea, o modo ter de existência domina: as pessoas são definidas pelo que possuem, não pelo que são" (FROMM, 1976, p. 25). A obsolescência programada das emoções é manifestação extrema do modo ter: emoções como posses acumuláveis e descartáveis. A resistência implica cultivar o modo ser – "uma forma de existência onde a identidade não depende de possuir, mas de ser, relacionar-se e criar" (FROMM, 1976, p. 87).


Arendt (1958, p. 7) fornece outra dimensão crítica ao distinguir entre "trabalho", "obra" e "ação". Ela argumenta que a modernidade reduziu progressivamente a vida humana ao trabalho – atividade cíclica de produção e consumo. A ação – "a única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas" (ARENDT, 1958, p. 7) – está ameaçada de extinção. A obsolescência programada das emoções elimina precisamente essa dimensão: relações humanas não mediadas por plataformas, emoções não quantificadas por métricas. Defender a profundidade emocional é, portanto, defender a possibilidade da ação no sentido arendtiano.


Levinas (1961, p. 43) oferece fundamento ético ao argumentar que "a ética é filosofia primeira" – anterior à ontologia ou epistemologia. Ele propõe que a relação ética fundamental é o "face-a-face" – o encontro com o Outro que me interpela e me constitui como sujeito responsável. Essa relação exige presença plena, atenção sustentada e vulnerabilidade – exatamente o que a economia da atenção impossibilita. Como observa Levinas (1961, p. 78), "o rosto do Outro me ordena: 'Não matarás'". Mas quando o Outro é reduzido a perfil descartável, avatar quantificado, essa interpelação ética torna-se inaudível. Reclamar a profundidade emocional é reclamar a possibilidade da ética.


Ricoeur (1990, p. 202) propõe o conceito de "identidade narrativa" como fundamento antropológico. Ele argumenta que "o si-mesmo não pode ser pensado sem o desvio narrativo" – a capacidade de contar e recontar a própria história, integrando experiências diversas em um todo significativo. A fragmentação imposta pela obsolescência programada das emoções destrói essa capacidade, produzindo o que ele chama de "crise da ipseidade" – a incapacidade de manter identidade coerente ao longo do tempo. Defender a permanência emocional é defender a possibilidade de ser alguém, não apenas uma sucessão de estados efêmeros.


Do ponto de vista da saúde mental coletiva, as evidências são inequívocas. A Organização Mundial da Saúde (2022, p. 2) documenta que "os transtornos mentais aumentaram 13% na última década, com depressão e ansiedade como principais causas de incapacidade globalmente". Embora multicausais, pesquisas correlacionam esse aumento com uso intensivo de tecnologias digitais (TWENGE, 2017; PRIMACK et al., 2017). Como observa Putnam (2000, p. 19), vivemos um "declínio do capital social" – a erosão de redes de confiança e reciprocidade que sustentam sociedades saudáveis. A obsolescência programada das emoções acelera esse declínio ao impossibilitar os "laços fortes" (GRANOVETTER, 1973) necessários à coesão social.


A reprogramação da humanidade proposta não é metafórica, mas literal. Implica redesenhar deliberadamente as condições materiais, tecnológicas e culturais que estruturam a experiência emocional. Isso requer ações em múltiplas dimensões:


Dimensão individual: Práticas de autoconsciência (KABAT-ZINN, 1994), introspecção offline (NEWPORT, 2019), cultivo deliberado de relações profundas (GOTTMAN; SILVER, 2015), valorização do tédio e do silêncio (KAGGE, 2017).


Dimensão tecnológica: Exigir "design ético" de plataformas digitais (HARRIS, 2016), regulação do capitalismo de vigilância (ZUBOFF, 2019), desenvolvimento de tecnologias que aumentem, não corroam, a capacidade de atenção profunda (CRAWFORD, 2015).


Dimensão cultural: Resistir à "tirania da positividade" (HAN, 2015), revalorizar a vulnerabilidade (BROWN, 2012), cultivar "alfabetização emocional" (GOLEMAN, 1995) que permita discriminar entre estados emocionais complexos.


Dimensão política: Reconhecer que a saúde mental é questão de justiça social, não apenas responsabilidade individual (FISHER, 2009); exigir políticas públicas que protejam a atenção como bem comum (WU, 2016); construir "espaços de desaceleração" institucionalizados (ROSA, 2019).


Dimensão educacional: Formar gerações capazes de "atenção profunda" (STIEGLER, 2010), não apenas "hiperatenção"; ensinar desde a infância a "arte da conversa" (TURKLE, 2015) e da presença plena.


Camus (1942, p. 123) escreveu que "a única questão filosófica verdadeiramente séria é o suicídio". No século XXI, poderíamos reformular: a única questão verdadeiramente séria é se conseguiremos preservar a capacidade de sentir profundamente. Porque sem essa capacidade, perdemos não apenas o bem-estar psicológico, mas a própria condição de possibilidade da vida significativa.


A defesa da permanência e da profundidade emocional não é, portanto, conservadorismo sentimental, mas imperativo existencial. Como argumenta Turkle (2015, p. 3), "a tecnologia nos propõe uma arquitetura para nossas intimidades, mas somos nós que devemos decidir se aceitamos essa proposta". A recusa consciente dessa arquitetura – a insistência em cultivar emoções que não podem ser quantificadas, relações que não podem ser otimizadas, experiências que não podem ser monetizadas – constitui ato revolucionário no sentido mais profundo: a afirmação da humanidade contra sua redução a recurso econômico.


O futuro do sentir não está predeterminado. Como observa Feenberg (2002, p. 15), "a tecnologia não é destino, mas um campo de batalha". A batalha pela preservação da profundidade emocional é, em última análise, a batalha pela possibilidade de uma vida humana digna desse nome. É uma batalha que não podemos nos dar ao luxo de perder.


Nas palavras de Arendt (1958, p. 247), "o milagre que salva o mundo [...] é, em última análise, o fato da natalidade, no qual se enraíza ontologicamente a faculdade de agir". Cada geração nasce com a capacidade de começar algo novo, de romper com determinações estruturais. Nossa tarefa histórica é garantir que as próximas gerações nasçam em um mundo onde ainda seja possível sentir profundamente, amar duradouramente, comprometer-se genuinamente. Essa é a reprogramação que a humanidade urgentemente necessita.


Qual futuro construiremos? Não está predeterminado. Depende de escolhas e ações coletivas nos próximos anos e décadas.


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