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Manifesto Antropofágico contra a Metafísica Ocidental e Outros Textos (Metafísicos)

  • há 19 horas
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Uma imagem em formato panorâmico, organizada como quatro painéis sequenciais, que traduz visualmente quatro “metafísicas” brasileiras: (1) uma cena ritual e corporal centrada em mandíbulas/dentes e digestão, em oposição a ideias abstratas; (2) um engarrafamento urbano com carros, ônibus e semáforos, mostrando calor, espera e frustração; (3) o interior de um carro de aplicativo/táxi visto do banco de trás, com o motorista ao volante, retrovisor e passageiros conectados ao celular, sugerindo reflexão no trânsito; (4) uma cena rural noturna ao lado do fogo, com um idoso contando história e um pássaro cinza pousado numa árvore seca e retorcida, criando um clima silencioso e contemplativo sobre morte e tempo. Não há texto escrito na imagem.

I. Manifesto Antropofágico contra a Metafísica Ocidental


Datação Verdadeira: Ano 1 da Deglutição de Descartes. Ano 374 do Banquete do Bispo Sardinha.


Só a antropofagia nos une. Mentalmente. Carnalmente. Contra todas as catequeses. Contra o Pai, o Filho e o Espírito Santo, essa trindade fantasmagórica que nos assombra com o medo do corpo.


A única metafísica que nos interessa é a da mandíbula.


Contra o mundo das ideias puras, flutuantes, assépticas. O mundo não é uma representação. É um pedaço de carne a ser devorado. O pensamento não é uma luz imaterial. É suco gástrico, transformação, terra.


Perguntamos: Cogito, ergo sum? Mentira cartesiana. Nosso axioma é: Mordo, logo existo. O dente que tritura o conceito congelado é mais verdadeiro que cem anos de biblioteca. Antes que Platão inventasse a caverna, nós já dançávamos à luz do fogo, projetando sombras que eram corpos, não sombras de ideias.


Não acreditamos na dicotomia. O espírito recusa-se a conceber espírito sem corpo. A alma é uma invenção do colonizador para negar o ventre. O abstrato é o exílio. A carne é o território.


O grande pecado da metafísica é a fome de eternidade. Ela quer o imutável, o absoluto, o puro. Nós celebramos a podridão, a fermentação, a transformação. A verdade não está na estátua de mármore, mas no fruto caindo da árvore e se tornando terra.


Contra a universalidade imposta. Feliz era a filosofia tupi, que não separava o homem da onça. O perspectivismo era nossa lógica antes de ser teoria antropológica. Nossa metafísica é multiforme, polimorfa, canibal: cada entidade devora e cria seu próprio mundo.


A história que nos contam é uma linha reta rumo ao Espírito Absoluto. Mentira. Nossa linha é um círculo de dança, um ritual de digestão. "Antes dos gregos descobrirem o Ser, nós já éramos." Mas éramos o que? O múltiplo. O híbrido. O sagrado impuro.


Contra a nostalgia do originário, do uno, do mesmo. O que importa é o devir. A antropofagia é o motor do devir. Não devoramos para negar, mas para transvalorar. Comemos o Deus cristão e cagamos um orixá. Comemos a res cogitans e cuspimos poesia concreta. O tabu do canibal vira o totem do pensador.


Não queremos a síntese dialética, que engole as contradições em um estômago universal. Queremos a digestão alegre, que produz um terceiro corpo, nunca previsto pela tese ou antítese. Nossa síntese tem resto, tem sabor, tem cicatriz.


Os metafísicos temem a morte. Nós a comemos todo dia. A morte do conceito é o nascimento do sentido novo.


O pensamento abstrato é a última fronteira colonial. A mais perversa. Ela nos faz odiar nosso próprio corpo, nossa história carnal, nossa alegria terrena. Contra ela, erguemos a bandeira da filosofia selvagem.


Abaixo a lógica do branco, que é a lógica do sepultamento: guardar, conservar, mumificar. Viva a lógica do canibal, que é a lógica da fecundação: escolher, mastigar, incorporar.


A Utopia não está no futuro. Está no estômago do presente.


A Idade de Ouro não está no passado. Está no banquete de amanhã.


Contra o Logos. Pelo Mito.Contra o Sistema. Pelo Ritual.Contra o Ser. Pelo Devir-Antropófago.


A terra é redonda para que a antropofagia seja possível. O mundo é finito para que a fome de devoração seja infinita.


Conclusão final, para ser comida em seguida: Não há arquétipos no céu. Há bocas na terra. A verdadeira filosofia não se contempla. Morde-se.


II. A Metafísica do Trânsito Parado


Dizem que os grandes pensamentos vêm nos momentos de ócio. Platão devia ter tempo sobrando sob as oliveiras de Atenas. Kant tinha suas caminhadas pontuais em Königsberg. O brasileiro médio, por sua vez, tem sua epifania filosófica forçada no lugar mais comum e democrático do país: preso no trânsito, dentro de um carro que não sai do lugar, ao volante de uma perua escolar ou no ponto de ônibus abafado.


Foi ali, entre a faixa da esquerda que não anda e a da direita que parece andar menos ainda, que o Senhor Alderico fez sua descoberta metafísica. Não era uma pergunta sobre o Ser, mas sobre o Não-Ir. Ele, o carro, o motorista de aplicativo ao lado espantando moscas, o ônibus adiante: todos formavam um único organismo parado, um sólido de aço e frustração. "Isto aqui", pensou Alderico, "não é um congestionamento. É a materialização do conceito de 'espera'. Uma cápsula do tempo que não passa."


Ele olhou para o semáforo, aquele tirano verde-amarelo-vermelho. Ciclos eternos, determinando fluxos. "É a única coisa que funciona com lógica previsível nesta cidade", refletiu. "Um deus pequeno e eficiente. Todo-poderoso sobre o cruzamento, mas absolutamente irrelevante dois quarteirões adiante, onde reina outro deus igual, dessincronizado." Uma metafísica politeísta e caótica, governada por uma assembleia de semáforos que não se conversam.


Seu pensamento, alimentado pelo tédio, foi mais longe. O carro é uma extensão metálica do homem, certo? Uma carapaça móvel. Mas quando para, vira algo diferente: um cárcere de aço com rodas. Um sarcófago de possibilidades adiadas. Dentro dele, você é um ser em potência — poderia estar no trabalho, em casa, no bar. Mas na prática, você é apenas um corpo que ocupa um espaço mínimo num grande bloco de corpos inertes. A essência do paulistano, do carioca, do brasiliense em determinado horário não é "homo sapiens". É "homo interromptus". O ser cujo atributo principal é a interrupção do fluxo.


O ônibus ao lado era um universo à parte. Alderico via os rostos colados nas janelas. Alguns dormindo, outros com olhos perdidos no vácuo. "Aquela moça ali", pensou, "está lendo um livro. Ela transplantou sua consciência para outro mundo. Seu corpo está aqui, preso, mas ela está numa casa de chá na Inglaterra vitoriana. Isso é teletransporte mental. A única viagem interestelar possível no asfalto quente da Marginal." Era uma fuga metafísica.

Enquanto o corpo sofre a realidade do espaço-tempo congestionado, a mente dissolve as barreiras e viaja. O trânsito, paradoxalmente, é o grande gerador de abstração.


E o celular? Ah, o celular. Alderico o pegou. A tela era um portal. Ele não estava apenas na Avenida Faria Lima. Estava também num grupo de WhatsApp vendo memes, num aplicativo de notícias lendo sobre a guerra num país distante, e checando a previsão do tempo para um fim de semana que nunca chega. Multiplicidade de presentes. Ele habitava vários "agoras" simultaneamente. O filósofo diria que ele estava fragmentado. Alderico achava que estava apenas tentando não pirar.


De repente, um espaço. O carro da frente anda meio metro. Um sobressalto de esperança, um instinto primário acionado. Pisa na embreagem, engata a primeira, avança os tais cinquenta centímetros. E para. O ciclo recomeça. Aquilo não era progresso. Era um ritual. Um ato filosófico de pura fé. A fé de que aquele meio metro, somado a outros milhões de meio metro ao longo de uma hora, eventualmente o levará a algum lugar. É a metafísica da paciência. A crença, contra toda evidência empírica, no movimento.


O sujeito no SUV atrás começou a buzinar. Buzinar para quê? Para quem? Era um ato puro, um grito no vazio. A buzina como afirmação existencial: "Eu existo! E estou irritado!" Alderico quase acenou com compreensão. Era o desespero metafísico do homem moderno, traduzido em decibéis.


Quando, uma eternidade depois, o trânsito se dissolveu e ele entrou na garagem de casa, Alderico desligou o motor. O silêncio foi abrupto. Ele saiu da cápsula. O mundo das ideias puras, dos deuses-semáforo, das multiplicidades de presente, desfez-se. Restou o cheiro do carpete do carro e o cansaço.


Entrou em casa. Sua mulher perguntou: "Demorou, né? Muito trânsito?"Ele pensou em explicar. Falar sobre a materialização da espera, os universos paralelos do ônibus, a fé nos meio-metros. Mas só disse:"Uma coisa de doido. Parecia que não saía do lugar."


E foi tomar banho. A grande metafísica do cotidiano é essa: ela nos visita nos momentos de confinamento obrigatório, nos preenche com perguntas enormes, e depois se esvai com a mesma banalidade com que chegou. Deixando apenas a vaga sensação de que, no fundo, a vida é mesmo um grande engarrafamento. Com alguns raros e breves momentos de fluxo.


III. A Metafísica no Banco de Trás do Táxi


Há certas perguntas fundamentais que só surgem nos ambientes mais prosaicos. Não foi na biblioteca da Sorbonne, nem no jardim do Éden, mas no banco de trás do carro de um motorista de aplicativo modelo 2014, com cheiro de pinho e desespero, que me veio a questão suprema.


O motorista — chamemos-lhe de Heráclito da Silva — encarava o congestionamento com a resignação de um budista e a língua de um carroceiro.


— Olha isso, meu amigo. Para, anda, para, anda. Não é trânsito, é meditação forçada. O senhor aí atrás, pensando na vida. Eu aqui na frente, pensando na gasolina.


Ele tinha razão. O carro ao lado, um compacto prateado, continha uma moça que, pelo visor do celular iluminando seu rosto, buscava respostas no oráculo das redes sociais. À frente, um SUV negro e imponente guardava um homem que falava sozinho, gesticulava — claramente em reunião por vídeo, dividido entre o ser e o parecer. Nós éramos, naquele asfalto quente, uma galeria de almas à procura.


— Vou lhe fazer uma pergunta filosófica, seu Heráclito — falei, num surto. — O que é mais real: o lugar aonde a gente quer ir, ou esse aqui onde a gente está, sem ir nem vir?


Ele me olhou pelo retrovisor. Um olhar que havia visto de tudo: casamentos, brigas, choros, gente que desistiu do aeroporto e pediu para voltar para casa.


— Nossa Senhora. O senhor é escritor?— De vez em quando.— Tá explicado. Veja bem. O lugar aonde a gente quer ir é uma ideia. É bonito na cabeça. Esse aqui, parado, é o fato. É o que tem. Agora, se é mais real… O fato dói mais. Mas a ideia é o que faz a gente aguentar o fato. Filosófico o bastante?


Fiquei pasmo. Era pura fenomenologia do trânsito. O fato (engarrafamento) versus a intencionalidade (o destino). O motorista, sem querer, havia resumido Husserl entre uma fechada e um xingamento ao caminhão de lixo.


— O senhor é formado em quê? — perguntei, admirado.— Em paciência, meu amigo. Curso livre, fornecido pela Prefeitura.


Ele então começou sua tese. Disse que o trânsito era a grande democracia brasileira. O milionário no seu jipe blindado e o estagiário no ônibus estão igualmente submetidos ao mesmo semáforo desregulado, à mesma obra que não acaba, ao mesmo buraco que apareceu do nada. Era uma igualdade metafísica, por baixo.


— O carro pode ser melhor, o ar-condicionado mais gelado. Mas o tempo perdido, esse é o mesmo para todos. É o nosso purgatório particular, de segunda a sexta.


Pensei nos filósofos da antiguidade. Diógenes, o cínico, que vivia num tonel. Ele buscava um homem honesto com uma lanterna em pleno dia. Se estivesse vivo hoje, estaria aqui, no corredor de ônibus, buscando um motorista que não fecha os outros. E encontraria poucos.


De repente, o fluxo se restabeleceu. O carro andou. A sensação foi de alívio, quase de felicidade. O devir, como diriam os filósofos, havia voltado a devir. O ser-em-movimento substituíra o ser-parado.


— Pronto — disse seu Heráclito, vitorioso. — A ideia venceu o fato. A gente chegou.


Desci do carro, peguei minhas coisas e agradeci. Ele me deu veredicto:


— No fim, a maior lição é simples, meu amigo. A vida é que nem o Waze: às vezes manda você pelo caminho mais longo, só para você ver uma paisagem que não esperava. Boa noite.


E partiu, levando consigo, naquele carro com cheiro de pinho, toda uma epistemologia de rua. Fiquei na calçada, com a chave na mão e uma pergunta na cabeça: teria acabado de ter a única aula de metafísica que realmente importa? A do mundo concreto, cheio de buracos, atalhos e imprevistos?


Provavelmente sim. E o melhor: sem taxa de matrícula.


IV. Do Lugar Onde o Tempo Bebe Água


Isso se passou nos tempos do meu avô Zé Bebelo, homem de palavra pesada e olhar que mede a alma alheia pela sombra que faz no chão. Ele não era dado a historietas. Mas uma vez, na beira do fogo, depois do café coado na meia e do silêncio que desce quando a noite aperta, ele soltou a frase que até hoje me faz pensar feito um rio que corre para trás: "Menino, a morte é um pássaro que não sabe voar. Fica empoleirada na árvore da vida, só olhando."


Eu era curumim, nem barba no queixo, nem juízo na cabeça. E rebati, tolo que só: "Mas, seu Zé, como pode? Pássaro que não voa é galinha!"


Ele não riu. Soprou o pó do café, olhou para o breu lá fora como se visse algo, e começou a contar. Não era conto de assombração. Era coisa de verdade.


Disse que na juventude, andando pelo Gerais onde o céu encosta na terra, encontrou um lugar. Não era vereda, não era caatinga, não era nada do que se pode nomear. Era um "entre-lugar", ele disse. O ar parado, sem cheiro, sem vento. E no meio, uma árvore seca, retorcida, e nela, a tal ave.


"Era cinza, menino. Cinza como cinza de fogo frio. E os olhos... os olhos eram dois buracos de esquecimento. Olhei para eles e vi que ela não estava ali para me levar. Estava ali porque sempre esteve ali. Em tudo. No nascimento do bezerro, no riso da moça, na semente que germina. Ela é a parte que não se mexe."


Fiquei calado. A voz dele era baixa, de confessar pecado grave.


"Perguntei pra ela, com o pensamento: 'E o voo? Cadê seu voo?' E ela, sem abrir o bico, respondeu no meu íntimo: 'Meu voo é o seu caminhar. Minha asa é o seu destino. Eu não venho depois. Eu sou o chão que você pisa.'"


Naquela hora, disse meu avô, entendeu a grande armadilha. A gente passa a vida temendo o bicho-papão do fim, o tal pássaro da morte. Mas o medo real, o medo que serpeia no osso, é que a morte não é o fim. É a sombra da própria vida. É o avesso do pano. É o silêncio entre uma nota e outra da canção. E pior: que a gente carrega ela dentro, desde o primeiro choro.


"Saí daquele lugar andando devagar, menino. Me senti... duplo. Como se eu e minha sombra tivéssemos virado amigos e decidido caminhar lado a lado, sem medo. A morte não voa. Ela apenas é. Como a raiz da árvore é. Como o fundo do rio é. E saber disso não é tristeza. É uma liberdade sem nome."


Meu avô guardou a história por anos. Só contou naquela noite. E nunca mais falou. Morreu dormindo, anos depois, com um suspiro tão leve que nem afofou o travesseiro.

Agora, eu já homem feito, com minhas dores e ganâncias, entendo. Procuro esse "entre-lugar" em tudo. No instante entre o sono e a vigília. No silêncio depois de uma palavra de amor. Na pausa da respiração antes do choro.


A metafísica dos livros, cheia de palavras gregas e torres de conceito, é bonita, mas é casa vazia. A verdadeira metafísica é isso: saber que o pássaro cinza está na árvore, mas que a árvore também está dentro de você. E que, no fim das contas, viver não é fugir do pássaro. É aprender a sentar debaixo da mesma árvore, na mesma sombra, e ouvir o vento que não se move.


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