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Metafísica do Vulto

há 7 minutos
8 min de leitura
 Ilustração sombria de um homem sentado na cama, olhando para uma silhueta escura no corredor de casa. A luz fraca do abajur contrasta com a penumbra e reforça o clima de suspense e dúvida entre o sobrenatural e a imaginação.


O Vulto e Eu


Toda noite é a mesma coisa. Por volta das três da madrugada, acordo com a certeza de que há alguém no corredor. Não ouço passos, não vejo nada além da silhueta escura contra a penumbra do fim do corredor, mas a certeza é absoluta. É um vulto.


Fico imóvel na cama, com a respiração suspensa, fazendo o possível para não fazer barulho e, ao mesmo tempo, tentando transformar minha audição num radar. O coração bate na garganta, o que é uma posição incômoda para um órgão tão nobre. Passado um tempo que pode ser um minuto ou uma hora, o vulto simplesmente se desfaz, ou eu durmo de novo, e pela manhã acordo com a sensação de ter sido visitado por algo que estava ali, mas não estava.


Contei para minha mulher. Ela disse que é o meu reflexo no porta-retratos da estante. Disse que a claridade da rua bate no vidro e faz aquela mancha. Explicou até a posição estratégica da Lua, a inclinação do quadro e o coeficiente de refração do vidro. Uma aula de física aplicada ao medo noturno. Fiquei aliviado por alguns dias.


Até que, na última noite, o vulto apareceu de novo. E, pela primeira vez, tive a nítida impressão de que ele me olhava de volta. Mais do que isso. Tive a impressão de que ele me reconhecia. E aquela presença muda, que antes era apenas uma ameaça amorfa, passou a ter uma intimidade perturbadora. Era como se ele soubesse do meu medo de dentista, daquela briga besta que tive com o pai em 1987, da letra daquela música do Chico Buarque que eu canto no chuveiro. Era o meu vulto. Exclusivo.


Foi aí que a ficha caiu. Pensei: se o porta-retratos explica a mancha, explica também o olhar? Explica o reconhecimento? A física explica a metafísica do vulto? O vulto é a sobra da luz, ou a sobra da gente?


Comecei a achar que o vulto não era um intruso. Ele era a parte de mim que não cabe no corpo. A sobra que a alma projeta quando a gente dorme e ela resolve dar uma volta pelo apartamento, checar se a porta está trancada, ver como estão os livros na estante. Uma espécie de síndico do espírito.


Na manhã seguinte, comentei com meu filho, que é adolescente e acha que sabe tudo. Ele me olhou com a superioridade de quem domina o universo dos games e disse:


— Pai, para. Isso é apneia do sono. Você para de respirar, o cérebro entra em pânico e projeta uma ameaça para te acordar. O vulto é você tentando não morrer sufocado.


Pronto. Desmontaram minha teoria metafísica. Meu vulto noturno, minha alma penumbrenta, era só um alerta biológico. Uma falha no sistema de respiração. Não era um encontro marcado com o além, era um peido cerebral.


Fiquei aliviado, mas também um pouco decepcionado. Sem a apneia, eu sou só eu. Mas naquela noite, antes de dormir, fiquei pensando. E se o meu filho estiver errado? E se a medicina estiver errada? E se aquele vulto, aquele ser de escuridão que me observa com conhecimento de causa, for, na verdade, o Luís Fernando Verissimo que existe dentro de mim, esperando a hora certa para sair e escrever uma crônica sobre isso?


Fiquei com a sensação de que estava sendo vigiado por uma versão melhor de mim mesmo. Um vulto mais inteligente, mais observador, que certamente iria dormir tranquilo depois de encontrar a piada certa. Enquanto isso, fico eu aqui, às três da manhã, esperando ele aparecer de novo. Não para pedir socorro, mas para, quem sabe, me ditar um final melhor para essa história.


A Vez do Vulto


Eu tava aqui, deitado na cama, quando vi um vulto no corredor. Não aqueles vultos de filme de terror, com capuz e foice. Era um vulto comum, desses que a gente vê toda noite e finge que não viu. Mas esse me olhou. E piscou.


Levantei, fui até a cozinha, peguei uma cerveja. Quando voltei, ele ainda estava lá. Agora sentado no sofá. Pensei: pô, o cara já tá até à vontade. Sentei na poltrona em frente. Ficamos nós dois, eu e o vulto, tomando cerveja no escuro. Ele tomava a dele sem fazer barulho, um cavalheiro.


— Você existe ou é coisa da minha cabeça? — perguntei.


Ele deu de ombros. Ou pelo menos eu acho que deu. É meio difícil interpretar ombros de vulto.


— Porque se você existe, tudo bem. Mas se é coisa da minha cabeça, eu preciso parar de comer pizza antes de dormir.


O vulto apontou pra TV desligada. Quer dizer, acho que apontou. Pode ter sido um espirro. Vulto espirra?


— Quer ver TV? — perguntei.


Ele balançou a cabeça. Negativamente. Acho.


Ficamos mais um tempo em silêncio. Eu olhando pra ele, ele olhando pra mim. Ou pra parede atrás de mim. Difícil saber.


— Você é algum parente meu que já morreu? — tentei puxar assunto. — Porque se for, sente aqui do lado. Faz anos que não vejo meu tio Gastão.


O vulto não se mexeu. Talvez não fosse o tio Gastão. Talvez fosse outro parente, mais distante. Um trisavô envergonhado.


— Quer dizer, se você for meu trisavô, fique à vontade. A casa é sua. Mas se for o tio Gastão, senta aqui. A gente tinha tanta coisa pra conversar...


O vulto continuou imóvel. Comecei a achar que ele era um vulto antissocial.


— Tudo bem — falei, levantando. — Vou dormir. Fica à vontade. A cerveja que acabou, se quiser mais tem na geladeira. Mas a luz da cozinha tá queimada, cuidado pra não tropeçar.


Deitei na cama, olhei pro teto. O vulto continuava lá, no sofá. Pensei: amanhã cedo ele vai embora. Ou vai ficar pra sempre. Vai depender do meu estado de espírito.


Acordei no outro dia, fui até a sala. O vulto não estava mais lá. Mas no sofá tinha uma lata de cerveja vazia e um bilhete. No bilhete, escrito a carvão: "Volto amanhã. Sua sogra mandou um abraço."


Sentei no sofá, olhei pro bilhete. Pensei: meu Deus, o vulto conhece minha sogra. Pior: minha sogra conhece o vulto. E eles se dão bem.


Agora tô aqui, esperando a noite chegar. Não sei se vou dormir no quarto ou na sala. Não sei se compro mais cerveja ou menos. Não sei se conto pra minha mulher ou deixo quieto.


Só sei que o vulto disse que volta. E que trouxe lembranças da sogra. Isso, meus amigos, não é vulto. É mensageiro. E mensageiro que traz notícia de sogra, em qualquer dimensão, é sempre mau presságio.


O Vulto Diz Que É Meu Primo


Outro dia descobri que tem um vulto no corredor da minha casa. Não é desses vultos aterrorizantes. É um vulto comum, comum a ponto de você não notar se não olhar com atenção — mas que, uma vez notado, você não consegue mais ignorar. Tipo aquele arranhão na tela do celular que você jurava ser impressão sua até o dia em que passou a unha e ele continuava lá. Ele sempre esteve lá.


No começo achei que fosse o reflexo da geladeira. Ou a luz do vizinho de cima arrastando a cadeira de madrugada. Analisei com seriedade: a janela no fim do corredor, o ângulo do poste, a armação dos meus óculos pendurada na parede — tudo apontava para uma explicação científica. Aí o vulto se mexeu. Não um mexer de vento. Um mexer de quem, quando você entra no ambiente, desvia de leve o corpo. Como alguém que te dá espaço no elevador, mas você não faz ideia de quem seja.


Liguei para um amigo. O amigo disse: isso é paralisia do sono, você está estressado. Falei que não estou estressado. Ele disse: então você está estressado e não sabe. Falei que essa lógica é igual a "você não está com raiva, mas no fundo está". Ele disse: exatamente, é essa mesma. Desliguei.


Na noite seguinte, o vulto continuava lá. Resolvi conversar com ele.


— Você é alguém que eu conheço? — perguntei.


Ele não falou. Vulto não fala, o que é bem razoável.


— Se você é alguém que eu conheço, se mexe. Se não conheço, fica parado.


Ele se mexeu. Me arrependi na hora. Porque eu não tinha pensado no passo seguinte. É como jogar uma moeda na fonte e desejar a paz mundial, e a paz mundial acontece, e você fica ali, sem saber o que fazer, porque só tinha uma moeda.


— Tá bom — falei. — Então você é qual parente meu?


Ele não se mexeu. Ou seja: eu conheço, mas não é parente. Conheço mas não é parente, contei nos dedos, umas quarenta e poucas pessoas. Não dá pra perguntar uma por uma, "é você?", porque o vulto vai me achar um idiota — e olha que vulto é só um vulto, mas vulto também tem critério.


Mudei de estratégia. Parei de dar bola. Sentei no sofá, peguei o celular, fiquei rolando coisas que não me interessam, fingindo que o troço no corredor não existe. Essa é a habilidade suprema do adulto: fingir que não existe. No trabalho, finge que não viu. No relacionamento, finge que não está acontecendo. No país, finge que não é com você. A gente é tão bom nisso que às vezes engana a si mesmo. Mas vulto não cai nessa.


Ele veio até o sofá e sentou. Do meu lado. Como um vizinho que aparece sem ser convidado, mas você não tem coragem de mandar embora, vai que ele precisava de algo.


— O que você quer, afinal? — perguntei.


Ele se aproximou. Se tivesse rosto, aposto que estava rindo. Aquele riso de "finalmente você perguntou".


— Você veio me dizer alguma coisa?


Ele acenou. Ou pelo menos fez um movimento que dá pra interpretar como aceno. O aceno do vulto é sutil, tipo vento passando na cortina — você acha que ele se mexeu, mas também acha que foi você que se mexeu.


— O que você quer me dizer?


Ele apontou pra mim. Depois apontou pra mim. Depois apontou pra mim de novo.


— Eu? Eu mesmo?


Ele acenou.


— Quer dizer que você sou eu?


Ele não se mexeu. Ou melhor, não negou. Na gramática do vulto, não negar é afirmar — igualzinho ao jeito de conversar de certas pessoas.


Fiquei ali, digerindo a informação. Quer dizer que eu, três da manhã sem dormir, conversei vinte minutos com o meu próprio vulto e ainda ofereci lugar pra ele sentar. Antigamente eu ia me achar maluco. Mas agora, pasme, achei que fazia sentido. Porque se o vulto sou eu, claro que ele sabe tudo sobre mim. Sabe a burrada que eu fiz aos vinte anos, sabe que ano passado peguei uma sacola a mais no mercado sem pagar, sabe que semana passada, na reunião, fingi que o sinal tinha caído pra desligar o telefone porque eu simplesmente não queria falar. Ele sabe de tudo. É a materialização de tudo que eu não admito. É a minha falta de compostura. É o meu "dá pra fazer, mas deixa pra lá". É o meu "tô bem" seguido daquele suspiro.


— Por que você não disse logo? — perguntei.


Aí ele se mexeu. Levantou, foi até o fim do corredor e sumiu. Na noite seguinte, não veio. Na outra também não.


Confesso que senti falta. Você conhece essa sensação? Um sujeito que você não queria ver aparece, você se irrita, ele vai embora e você sente que falta alguma coisa. Comecei a achar que ele ficou ofendido. Porque eu disse "por que você não disse logo". Essa frase é bem grosseira, na verdade. O cara passou não sei quantas noites ali, pontual, sentado no corredor esperando eu perceber, e a minha primeira reação é reclamar da eficiência dele.


Agora o corredor está vazio. Quando levanto de madrugada pra ir ao banheiro, olho pra aquele canto. Nada. A explicação científica voltou: reflexo da geladeira, ângulo do poste, armação dos meus óculos. Tudo racional de novo.


Mas eu sei que ele ainda está por aí. Só mudou de lugar. Agora ele não fica mais no corredor — fica sentado depois de cada vírgula que eu escrevo, esperando eu admitir. Esperando eu admitir que aquele vulto não é outro. Sou eu. São os meus "deixa pra lá" que não foram ditos, as mensagens não enviadas, os encontros que não fui, os medos que não reconheci. Sou eu escolhendo não falar, mas falando por dentro o tempo todo.


Então agora escrevi isto aqui. Serve como carta de desculpas. Vulto, volta. Dessa vez não pergunto por quê. Você chega, senta, que eu te ofereço um copo d'água.


Se quiser sentar no sofá e fingir que não existe rolando o celular, também pode. É o seu direito. Afinal, você sou eu.

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