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O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?

21 de jun.
17 min de leitura

Atualizado: 26 de jul.

Fenomenologia do não-saber em onze passagens

Uma imagem simbólica e poética representando o ensaio "A atenção como método negativo". No centro, uma figura humana serena e contemplativa, de olhos fechados em atenção profunda, sentada à beira de uma fonte antiga e profunda coberta por pedras, areia e folhas secas, simbolizando o não-saber obstruído. Da água escura da fonte, uma luz suave e sutil irradia de baixo para cima, como uma aurora interna ou ressonância vivida, em tons de azul profundo, roxo misterioso e dourado etéreo emergindo. Ao fundo, um céu ao amanhecer com horizonte entre escuridão e luz nascente, evocando espera paciente e generosidade. Elementos sutis flutuando: vibrações ondulantes representando ressonância, silhuetas etéreas de quatro figuras (Weil, Zambrano, Minkowski, Hillesum) em pose de escuta. Estilo artístico filosófico, como pintura renascentista misturada com surrealismo suave de Dalí ou Magritte, atmosfera calma, introspectiva e sagrada, alta resolução, composição equilibrada e simétrica.

PASSAGEM III


A Atenção como Método Negativo


"A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade. Poucos são capazes de dar atenção a um ser que sofre. É quase um milagre. É uma graça."

— Simone Weil, A espera de Deus


"A razão poética não abandona o sensível para encontrar a verdade: ela desce ao sensível, mergulha nele, e é nesse mergulho que a verdade aparece — não como objeto encontrado mas como luz que se irradia de dentro das coisas."

— Maria Zambrano, Filosofia e Poesia


"O tempo vivido não é o tempo medido. É o tempo que ressoa — que vibra em nós antes de ser pensado, que nos precede antes de ser nosso."

— Eugène Minkowski, O Tempo Vivido: Estudos Fenomenológicos e Psicopatológicos


"Há em mim uma fonte muito profunda. E nessa fonte há Deus. Às vezes consigo chegar até ela; mais frequentemente ela está coberta de pedras e areia. Mas a fonte está lá."

— Etty Hillesum, Diário 1941-1943, 26 de agosto de 1941


I.

A passagem anterior demonstrou que o não-saber abissal, aquele que Clarice pergunta como manejar, não é problema solucionável mas condição a habitar. Esta passagem enfrenta a consequência imediata dessa demonstração: se o não-saber não se resolve, o que se faz com ele não é da ordem da solução. É da ordem de outro verbo, mais antigo, mais silencioso, mais exigente. Weil chamou esse verbo de atenção. Zambrano chamou de razão poética. Minkowski chamou de ressonância vivida. Etty Hillesum não nomeou; apenas praticou, e o que ficou é o diário.


Mas antes de entrar nos quatro pensadores, é necessário fazer uma advertência sobre o que atenção não é, porque a palavra foi sequestrada por uma modernidade que a transformou em seu oposto. A atenção, hoje, é quase sempre entendida como foco: concentração de energia psíquica sobre um objeto com vistas a extrair dele o máximo de informação no mínimo de tempo. É o que se treina nas escolas, o que se cobra nas empresas, o que se gere com aplicativos de produtividade. Essa atenção é essencialmente predatória: ela vai ao objeto para retirar algo dele; ela termina quando a extração está completa; ela é bem-sucedida quando transforma o não-saber em saber administrável.


A atenção de Weil é o avesso exato disso. Ela não vai ao objeto para extrair; ela espera. Não se impõe ao real; consente com ele. Não termina quando obteve o que queria; permanece mesmo quando não obteve nada. É uma forma de presença que se recusa a ser instrumental, e é precisamente por isso que ela é, diz Weil, a forma mais rara e pura de generosidade. Porque dar atenção verdadeira a algo ou alguém é suspender, por um momento, a própria necessidade de que esse algo ou alguém seja útil, compreensível, redutível ao que já se sabe.


II.

Simone Weil (1909–1943) é um dos casos mais estranhos e mais fecundos da filosofia do século XX . Estranha não apenas pela trajetória biográfica (judia que se aproximou do catolicismo sem nunca se batizar; intelectual que trabalhou em fábricas para entender a alienação do corpo; combatente que morreu de tuberculose agravada pela recusa de comer mais do que a ração mínima dos compatriotas sob ocupação), mas pela própria natureza de seu pensamento, que recusa as categorias disponíveis e força o leitor a inventar novas.


Em A Espera de Deus — correspondências e ensaios reunidos postumamente — ela desenvolve uma teoria da atenção que é simultaneamente epistemológica, ética e espiritual. Epistemológica porque diz respeito ao modo de conhecer; ética porque envolve uma relação com o outro; espiritual porque a atenção plena, em seu limite, se aproxima do que ela chama de oração. Mas o que importa aqui é antes de tudo a dimensão epistemológica: o que a atenção faz com o não-saber.


A atenção weiliana começa por um paradoxo: ela exige que o sujeito esvazie sua própria inteligência. Não que suspenda o pensamento, mas que suspenda a pressa do pensamento: a tendência a preencher imediatamente qualquer lacuna com o que já se sabe, a tendência a categorizar antes de olhar, a tendência a interpretar antes de perceber.


A atenção verdadeira começa na recusa de preencher. É um ato de decreação do eu — termo que Weil usa em outro contexto mas que aqui se aplica com precisão: o sujeito que dá atenção retira-se um pouco de si mesmo para deixar espaço ao que está diante dele.


Em  A gravidade e a Graça, ela formula isso de modo que soa quase contraditório: "a faculdade de atenção ativa é muito diferente da faculdade muscular de concentração que se exercita nos estudos escolares. A atenção consiste em suspender o próprio pensamento, deixando-o disponível, vazio e penetrável ao objeto." Vazio e penetrável são as palavras de uma epistemologia que inverte a direção usual: em vez de o sujeito ir ao objeto e nele introduzir suas categorias, é o objeto que entra no sujeito, mas apenas se o sujeito tiver feito o espaço necessário. E fazer espaço é precisamente o que a atenção faz.


O que isso tem de radicalmente relevante para a pergunta de Clarice é o seguinte: a atenção weiliana é um modo de fazer com o não-saber que não o elimina, não o resolve, não o converte em saber, mas que o hospeda. Hospedar o não-saber é já uma ação. É já uma resposta à pergunta. Não a resposta final, não a última palavra, mas o começo de uma relação com o não-saber que não é fuga nem supressão. É presença ativa diante do que não se sabe, com a disponibilidade de deixar que esse não-saber aja sobre quem o sustenta.


Há um detalhe na teoria de Weil que a maioria dos leitores passa por cima e que é, a meu ver, o mais importante: ela diz que a atenção é a forma mais rara de generosidade não apenas em relação ao outro humano, mas também em relação à realidade em geral. Dar atenção ao não-saber, ao próprio não-saber de si mesmo, é também um ato de generosidade: é tratar o não-saber não como inimigo a vencer ou lacuna a tapar, mas como hóspede que merece espaço. É uma postura que a modernidade quase impossibilitou porque a modernidade nunca ensinou a conviver com o que não se sabe; ensinou apenas a eliminá-lo.


III.

Maria Zambrano (1904–1991) passou cinquenta anos em exílio. Expulsa da Espanha pela ditadura franquista, viveu em Cuba, no México, em Roma, em Genebra. É uma das grandes pensadoras ibero-americanas do século XX e, ao mesmo tempo, uma das menos lidas fora do mundo de língua espanhola e portuguesa. Sua obra é um caso exemplar do que Édouard Glissant chamará de direito à opacidade: ela pensa em margens, em bordas, em territórios que o cânone filosófico europeu deixou por conta do literário.


Sua obra central — Filosofia e Poesia, de 1939, e o posterior O Sonho Criador, de 1965 — parte de uma pergunta que tem parentesco direto com a de Clarice, embora formulada em outro registro: por que a filosofia e a poesia se separaram? Por que o logos ocidental decidiu que conhecer significa abstrair, generalizar, elevar-se acima do singular e do sensível, e relegou ao poético a tarefa de permanecer no concreto, no afetivo, no irredutível?


A resposta de Zambrano é que essa separação foi um erro, e um erro com consequências: ao abstrair-se do sensível, a filosofia perdeu acesso a uma camada do real que só a atenção ao singular pode alcançar. Ela propõe, em seu lugar, o conceito de razão poética: um modo de conhecer que não abandona o rigor mas que o exerce de modo diferente: descendo ao particular em vez de ascender ao universal; deixando-se afetar pelo objeto em vez de objetivá-lo a distância; buscando a verdade não na forma clara e distinta do conceito mas na luz que irradia de dentro das coisas quando se tem paciência para esperá-la.


A razão poética é, portanto, uma epistemologia da espera, e nisto ela é parente próxima da atenção weiliana. Mas Zambrano vai além de Weil em um ponto crucial: ela articula o papel do sonho e da aurora como formas de conhecimento que operam precisamente no registro do não-saber. Em O Sonho Criador, ela analisa o sonho não como sintoma freudiano a ser interpretado mas como modo de contato com o que a vigília não alcança: o sonho sabe coisas que a consciência diurna não sabe, e esse saber onírico não é inferior ao racional; é diferente, complementar, irredutível.


A aurora, por sua vez, é a figura temporal que Zambrano usa para descrever o momento em que o não-saber começa a tomar forma sem ainda tornar-se saber pleno. Não é a noite, o não-saber puro, sem articulação. Não é o dia, o saber estabelecido, claro, comunicável. É o entre-dois: o instante em que algo que estava no escuro começa a ter contorno, sem que ainda se possa dizer o que é. A aurora epistemológica é o momento mais fecundo do conhecimento, e é também o mais frágil, porque tende a ser apressado: a luz acende e queremos nomear antes de ver, classificar antes de reconhecer.


A razão poética de Zambrano ensina a permanecer na aurora, a sustentar o não-saber no momento em que ele começa a tornar-se algo, sem forçar essa transformação antes do tempo. É um método negativo no sentido teológico do termo: define o que não faz em vez de prescrever o que faz; protege o não-saber de ser apressado em vez de impor ao não-saber uma forma. E nesse sentido é, para a pergunta de Clarice, uma das respostas mais precisas disponíveis: fazer com o não-saber pode significar não apressá-lo, deixá-lo na aurora, onde ele tem mais potência do que teria se fosse forçado ao dia do conceito antes de estar pronto.


IV.

Eugène Minkowski (1885–1972) é um dos mais singulares psiquiatras-filósofos do século XX. Formado na tradição da fenomenologia de Husserl e Bergson, praticante de psiquiatria clínica em Paris, estudioso da esquizofrenia não como desordem neurológica mas como perturbação da relação com o tempo vivido. Seu livro O tempo vivido: estudos fenomenológicos e psicopatológicos, de 1933, é uma fenomenologia da temporalidade subjetiva que vai muito além da psiquiatria e alcança território genuinamente filosófico.


O conceito central que nos interessa aqui é o de ressonância vivida (résonance vécue). Minkowski observou, em sua prática clínica, que certos pacientes, especialmente os esquizofrênicos, haviam perdido a capacidade de ressoar com o que acontecia ao redor.

Eles percebiam os eventos, registravam os fatos, processavam as informações, mas não vibravam com eles. O mundo havia se tornado, para eles, externo de modo absoluto: algo que estava lá fora sem jamais tocar o dentro. E Minkowski chamou essa incapacidade de ressoar de perda do contato vital com a realidade; o que é, pensado de outro modo, uma perda do não-saber produtivo.


O que ele quer dizer com isso é sutil e importante. A ressonância vivida é a capacidade de ser afetado pelo real antes de compreendê-lo, de deixar que o mundo aja sobre nós antes de transformarmos essa ação em representação. É o contato pré-reflexivo, pré-conceitual, que a fenomenologia de Husserl buscava na Lebenswelt, o mundo-da-vida que antecede a ciência. Sem essa ressonância, tudo que se percebe é já traduzido: filtrado pelas categorias disponíveis, neutralizado pela familiaridade, transformado em objeto antes de ter sido sentido como presença.


A conexão com o não-saber é esta: a ressonância vivida é o modo pelo qual o real chega a nós antes de ser sabido. É o momento em que o não-saber não é ainda lacuna; é contacto. O bebê que vê pela primeira vez uma chama não sabe o que é fogo, mas ressoa com a luz, o calor, o movimento: há um não-saber que é pleno de presença, que antecede qualquer categorização. E o adulto que perdeu a capacidade de ressoar antes de saber, que só experimenta o mundo depois de já tê-lo traduzido em conceito, perdeu, na terminologia de Minkowski, o contato vital com a realidade. Perdeu, em outros termos, o acesso ao não-saber como forma de presença.


Fazer com o não-saber, à luz de Minkowski, significa antes de tudo recuperar ou preservar a capacidade de ressoar: de deixar que o real chegue antes de ser imediatamente traduzido; de sustentar, por um momento que a pressa moderna torna cada vez mais difícil, o não-saber como zona de contacto antes da zona de representação. Não é regressão ao pré-linguístico , é re-educação da atenção para que ela não pule o primeiro contato em direção à primeira categorização disponível.


Há em Minkowski, ademais, uma análise do que ele chama de medo obscuro: o medo difuso, sem objeto determinado, que o esquizofrênico sente quando o futuro perde sua estrutura narrativa e se torna pura abertura inarticulada. Esse medo é, para os pacientes que Minkowski estudou, patológico. Mas para o sujeito saudável, essa mesma experiência — o futuro como abertura inarticulada, o não-saber do que está por vir — é precisamente o que torna a existência viva. A diferença entre a patologia e a saúde não é a presença ou ausência do não-saber; é a relação que o sujeito consegue estabelecer com ele. O sujeito que ressoa suporta o não-saber do futuro porque ele vibra com o presente. O sujeito que não ressoa enrijece diante do não-saber porque perdeu o fio que o conecta ao que está acontecendo agora.


V.

Etty Hillesum (1914–1943) não era filósofa no sentido acadêmico: era filha de uma família judaica holandesa de classe média, tinha formação em direito e literatura russa, tocava piano, lia Rilke e Dostoiévski, passava por uma crise pessoal profunda quando a Alemanha ocupou a Holanda. Entre 1941 e 1943 ela manteve um diário, às vezes cotidiano, às vezes semanal, que foi publicado postumamente e que é um dos documentos humanos mais extraordinários do século XX. Ela morreu em Auschwitz em novembro de 1943.


O que torna o diário de Etty Hillesum filosoficamente relevante, e não apenas historicamente comovente, é o modo como ela pratica, sem teoria mas com plena consciência, o que Weil chamaria de atenção e Zambrano de razão poética. Ela não tem sistema; tem postura. E essa postura é, em suas próprias palavras, a de alguém que aprendeu a descer até uma fonte interior que permanece disponível mesmo quando tudo à volta colapsa.


A fonte, imagem que ela usa repetidamente, é precisamente a metáfora do não-saber como reserva viva. A fonte não é transparente: não se vê o fundo. Não é controlável: ela brota por razões que ela mesma não compreende completamente. E no entanto é real, é a coisa mais real que ela tem, é o lugar ao qual ela retorna quando a realidade exterior — as leis antijudaicas, as deportações, o medo — se torna insuportável. Ela escreve: "Às vezes consigo chegar até ela; mais frequentemente ela está coberta de pedras e areia. Mas a fonte está lá."


A pedras e areia que cobrem a fonte são, no contexto do diário, tanto as circunstâncias externas quanto os próprios estados interiores: a ansiedade, o desespero, a raiva, a confusão. E o que Etty pratica, com uma consistência que cresce ao longo dos dois anos do diário, é precisamente a atenção weiliana: a capacidade de descer até a fonte mesmo quando ela está coberta; de esperar, sem pressa, que as pedras e a areia se assentem; de confiar que o não-saber que habita o fundo da fonte não é vazio mas plenitude ainda não articulada.


O que distingue Etty Hillesum de outras escritoras de diário do mesmo período é que ela não usa a escrita para escapar da realidade, mas para aprofundar o contato com ela. O diário não é refúgio; é laboratório de atenção. Ela anota o que sente antes de saber o que sente; ela escreve sobre coisas que não entende na esperança não de entendê-las mas de ficar com elas por tempo suficiente para que elas lhe mostrem algo. É a aurora de Zambrano em prática cotidiana: ela não apaga a escuridão; fica nela até que a luz apareça por si mesma.


Há uma entrada do diário, datada de 3 de julho de 1942, quando as deportações para o leste já tinham começado, que é, a meu ver, o mais próximo que qualquer texto do século XX chegou de uma resposta à pergunta de Clarice. Ela escreve: "Não sei. Simplesmente não sei. E no entanto há algo em mim que sabe como continuar. Não é coragem, não é fé no sentido religioso. É algo mais simples e mais impossível de nomear: é simplesmente estar aqui, presente, com tudo o que isso traz, incluindo o que não entendo." Ela não nomeia o que faz com o que não sabe. Mas ela o faz: está aqui, presente, com o não-saber incluído.


VI.

Os quatro pensadores desta passagem chegaram, por caminhos muito diferentes, a um mesmo território: a atenção, seja qual for o nome que se lhe dê, é o modo de habitar o não-saber que não o violenta. Mas é preciso agora dar um passo adiante e perguntar: em que sentido a atenção é um método? E em que sentido ela é negativo?


É um método no sentido de que é uma prática: não se aprende a dar atenção lendo sobre atenção, assim como não se aprende a nadar lendo sobre natação. A atenção precisa ser exercida, repetida, desaprendida e reaprendida. Weil insistia que os estudos escolares, quando bem conduzidos, poderiam ser uma escola de atenção, não porque o conteúdo importa mas porque a prática de sustentar a presença diante de algo difícil, de não abandonar antes de compreender, forma o músculo da atenção. Mas a maior parte das instituições de ensino não forma esse músculo, forma o músculo oposto: o da extração rápida de respostas.


É negativo no sentido em que a teologia apofática, a teologia negativa, é negativa: não por ausência de conteúdo, mas por recusa de afirmação prematura. A teologia negativa diz que Deus não é isto, não é aquilo, não é nenhuma das coisas que se pode dizer, e nessa via negativa, paradoxalmente, chega mais perto do que qualquer afirmação direta chegaria. Da mesma forma, a atenção como método negativo diz ao não-saber: você não é ignorância, não é defeito, não é lacuna, não é problema, e nessa recusa de categorização inadequada, abre um espaço onde o não-saber pode finalmente ser o que é, sem precisar fingir que é outra coisa.


A atenção como método negativo não produz um saber sobre o não-saber. Ela produz uma relação diferente com o não-saber. E uma relação diferente é já, concretamente, uma transformação, não do objeto mas do sujeito que se relaciona. Quem aprende a dar atenção ao próprio não-saber não passa a saber mais; passa a carregar o não-saber de outro modo, com menos ansiedade, com mais curiosidade, com a capacidade de perceber que o não-saber não é o oposto da vida plena mas, muitas vezes, sua condição.


VII.

Há uma objeção que precisa ser enfrentada, e ela é de natureza política, não apenas filosófica. Ela soa assim: a atenção como método negativo, a espera, a hospitalidade ao não-saber, tudo isso pressupõe condições de existência que não são universais. Para dar atenção no sentido de Weil, é preciso ter tempo, silêncio, espaço interior que não seja constantemente invadido pela urgência da sobrevivência. Para descer até a fonte no sentido de Hillesum, é preciso que haja uma fonte, e que ela não tenha sido destruída pela violência, pela pobreza, pela exclusão sistemática.


A objeção é justa. Weil ela mesma a enfrentou quando decidiu trabalhar nas fábricas, e o que ela descobriu foi devastador: a fadiga extrema, a monotonia brutal, a humilhação constante do trabalho industrial destroem a capacidade de atenção. Não porque os trabalhadores sejam menos capazes, mas porque as condições que o capitalismo industrial cria são especificamente hostis a qualquer forma de presença que não seja a atenção predatória exigida pela linha de produção. Em A Condição Operária, ela documenta isso com uma honestidade que beira a crueldade consigo mesma: ela foi para a fábrica querendo dar atenção e o que a fábrica fez foi sistematicamente eliminar sua capacidade de dar atenção a qualquer coisa além da tarefa imediata.


Isso significa que o método negativo da atenção não é politicamente neutro. Ele pressupõe e ao mesmo tempo reivindica condições de existência que a ordem vigente distribui desigualmente. Falar de atenção ao não-saber sem falar das condições materiais que possibilitam ou impossibilitam essa atenção é idealismo não declarado: o pecado filosófico que a tradição marxista sempre denunciou, e com razão. A Passagem VII deste ensaio, dedicada ao direito à opacidade e ao não-saber como resistência política, voltará a esse ponto com mais instrumentos. Por ora, basta nomear a tensão: a atenção é necessária e é uma prática de privilégio; é uma resposta ao não-saber e é uma condição que precisa ser conquistada antes de ser exercida.


VIII.

Voltemos a Clarice porque é nela que o fio deste ensaio se ata, e é a ela que precisamos retornar quando a abstração ameaça perder o contato com o singular que a originou.

A obra de Clarice Lispector é, do começo ao fim, uma prática de atenção no sentido que as quatro figuras desta passagem elaboraram. Em A Maçã no Escuro, Martim foge e ao fugir presta atenção às pedras, às plantas, aos animais, com uma intensidade que é o avesso da fuga: a fuga o leva ao lugar onde finalmente pode olhar sem precisar saber o que está olhando. Em A Paixão Segundo G.H., a personagem olha a barata com uma atenção que a dissolve, não a barata, mas G.H. mesma: ela deixa que o objeto a atravesse, e o resultado é uma espécie de conhecimento que nenhuma biologia e nenhuma psicologia poderiam ter produzido. Em Água Viva, a narradora escreve em tempo real de atenção: ela não escreve sobre o que percebeu; ela escreve enquanto percebe, e o texto é o rastro dessa percepção antes de ela ter se transformado em conceito.


Em todos esses casos, a atenção não produz saber no sentido convencional. Produz presença ampliada. E presença ampliada é o que Minkowski chamaria de ressonância vivida em alta potência: o sujeito não apenas registra o real, vibra com ele, é transformado pelo contacto, sai diferente de como entrou. Não mais informado. Mais habitado.


O que Clarice faz, e o que esta passagem tentou articular teoricamente, é oferecer ao não-saber um espaço de existência que o respeita. Ela não pergunta "como saber o que não sei?" mas "o que fazer com o que não sei?", e a atenção é a primeira e mais fundamental resposta: fazer com o não-saber significa, antes de tudo, não expulsá-lo. Deixá-lo estar. Deixar que ele ressoe. Esperar na aurora. Descer até a fonte mesmo quando está coberta de areia. Estar aqui, presente, com tudo o que isso traz, incluindo o que não se entende.


IX.

Uma última nota sobre o que está em jogo nesta passagem, e que vai além do argumento filosófico imediato.


A atenção no sentido de Weil, de Zambrano, de Minkowski, de Hillesum, é hoje uma capacidade em extinção. Não porque os seres humanos tenham se tornado menos capazes, mas porque o ambiente criado pela economia da atenção, o sistema que monetiza a captura do foco humano para fins publicitários e de consumo, é especificamente projetado para impossibilitar a atenção verdadeira. A notificação interrompe antes que a ressonância se complete. O scroll impede a aurora. O conteúdo infinito preenche qualquer vazio antes que o vazio possa tornar-se espaço.


Nesse contexto, a pergunta de Clarice — "o que é que eu faço com o que eu não sei?" — é não apenas filosófica mas contracultural. Ela pressupõe que o não-saber existe; que tem direito de existir; que merece ser habitado e não imediatamente preenchido. Ela pressupõe uma relação com o tempo que a modernidade acelerada torna cada vez mais difícil: a paciência de não saber; a coragem de permanecer no não-saber sem pedir ao smartphone que o resolva; a capacidade de descer até a fonte mesmo quando a superfície está ocupada por estímulos.


Responder à pergunta de Clarice com a atenção como método negativo é, portanto, fazer uma escolha que não é apenas epistemológica. É uma escolha de vida sobre o tipo de relação que se quer ter com o real, com o tempo, com si mesmo. Uma escolha que a maioria das estruturas da modernidade contemporânea pune sutilmente. E que, precisamente por isso, vale a pena defender.


* * *


Esta passagem percorreu quatro figuras em torno de um único conceito que tem muitos nomes: atenção, razão poética, ressonância vivida, descida à fonte. O que todos esses nomes nomeiam é uma postura diante do não-saber que não o elimina nem o lamenta: que o hospeda, que o respeita, que lhe dá o tempo que ele precisa para mostrar o que tem a mostrar.


Essa postura não é passiva; é a forma mais ativa de presença que existe, precisamente porque ela resiste à tendência de preencher imediatamente o que está vazio, de saber antes de sentir, de categorizar antes de ver. É um método negativo porque define o que não faz em vez de prescrever o que faz. E é, por isso mesmo, a única forma de fazer com o não-saber que não o destrói ao fazê-lo.


A passagem seguinte — a quarta — desce ao corpo. Porque o não-saber não habita apenas a mente: ele tem endereço somático, gestual, tônico. E é o corpo, antes de qualquer reflexão, quem primeiro não sabe, e quem primeiro precisa saber o que fazer com isso.

 

O problema estava mal posto. Agora está, ao menos, posto de outro modo.


Obras referenciadas nesta passagem


HILLESUM, Etty. Diário 1941-1943. Tradução de Arie Poldervaart e Fernanda Rodrigues. São Paulo: Ágape, 2010.


LISPECTOR, Clarice. A maçã no Escuro. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1961.


LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Artenova, 1973.


LISPECTOR, Clarice. A Paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964.


MINKOWSKI, Eugène. O Tempo Vivido: Estudos Fenomenológicos e Psicopatológicos. Tradução de Maria Emília de Lima Paccaud. São Paulo: EDUSP, 1995. 1. ed.


WEIL, Simone. A Espera de Deus. Tradução de Manuel Leopoldo e Silva. Lisboa: Relógio D'Água, 1994.


WEIL, Simone. A Condição Operária. Tradução de Alexandre Hahn. São Paulo: Paz e Terra, 2015.


WEIL, Simone. A gravidade e a Graça. Tradução de João Paulo Monteiro e Cristina Pinto-Alves. Petrópolis: Vozes, 2007.


ZAMBRANO, María. O Sonho Criador. Tradução de Maria Amélia V. de Oliveira. São Paulo: Hedra, 2012.


ZAMBRANO, María. Filosofia e Poesia. Tradução de Celso Alberti. São Paulo: Ática, 1990.






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