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O Que Eu Faço Com o Que Eu Não Sei?

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Fenomenologia do não-saber em onze passagens


Mulher sentada diante de uma mesa de madeira, em um ambiente de estudo acolhedor e pouco iluminado, contempla pensativamente uma paisagem urbana ao entardecer pela janela. Sobre a mesa, há um caderno aberto com anotações manuscritas, uma caneta, uma xícara e livros de filosofia, criando uma atmosfera de reflexão sobre o não-saber e a permanência da pergunta.

PASSAGEM XI


Coda: a pergunta permanece (e isso é a resposta)


"Não entender é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras."

— Clarice Lispector, Água Viva


"Quando entendo, é tarde demais."

— Clarice Lispector, A Hora da Estrela


"A última palavra ainda não foi dita. Talvez nunca seja dita. Talvez seja isso a que chamamos de vida — o espaço entre a penúltima e a última palavra."

— Edmond Jabès, Le Livre des Ressemblances


"Há que ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante."

— Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra


I.

Uma coda, na música, não é um apêndice. Não é o que sobra depois que a obra terminou. É o movimento pelo qual a obra retorna a si mesma, pelo qual os temas que percorreu reaparecem, transformados pelo percurso, reconhecíveis mas não idênticos ao que eram no começo. A coda não conclui: ela recapitula, não no sentido de resumir, mas no sentido de voltar a tocar o que foi tocado com a mão que o percurso formou. A mão que escreve estas linhas é diferente da mão que escreveu a Passagem I; não mais sábia, não mais segura, mas mais habitada pelo não-saber que percorreu. E é com essa mão que este ensaio retorna, pela última vez, à pergunta de Clarice.


"O que é que eu faço com o que eu não sei?"


A pergunta está intacta. Dez passagens não a responderam, e não poderiam, porque ela não é do tipo que se responde. Ela é do tipo que se torna cada vez mais necessária à medida que se a habita: quanto mais se percorre o não-saber, mais clara se torna a pergunta que ele exige, mais precisa a formulação que Clarice encontrou com sete palavras que nenhum sistema filosófico elaborado produziu com a mesma economia e a mesma profundidade.


Mas a pergunta está intacta de um modo diferente do modo em que estava no começo. No começo — na Passagem I — ela apareceu como ferida: algo que interrompe, que não inaugura método, que recusa ser procedimento. Agora, ao final, ela continua sendo ferida, mas uma ferida que se aprendeu a reconhecer. Uma ferida que tem nome, que tem história, que tem companhia. Uma ferida que foi percorrida por Jabès e Celan, por Marcel e Jankélévitch, por Weil e Zambrano, por Merleau-Ponty e Hillesum, por Blanchot e Pizarnik, por Cixous e Evaristo, por Glissant e Krenak, por Pessoa e Levinas, por Han e Axelos. Uma ferida que foi, ao longo de dez passagens, cercada de pensamento sem ser fechada: que é o único trato honesto que uma ferida filosófica verdadeira permite.


II.

Esta coda não tentará resumir o que as dez passagens disseram. O resumo seria uma forma de violência, uma simulação de fechamento onde não há fechamento, uma promessa de transparência onde o que foi percorrido é constitutivamente opaco. O que ela tentará, em vez disso, é algo mais difícil e mais honesto: deixar que a pergunta de Clarice reverbere: encontrá-la no fim com a mesma disponibilidade com que foi encontrada no começo, e verificar o que o percurso fez com essa disponibilidade sem fingir que a completou.


O que o percurso fez foi isto: mostrou que o não-saber tem múltiplas faces, múltiplas raízes, múltiplas consequências, e que cada uma delas exige um trato diferente, uma atenção diferente, uma linguagem diferente. Mostrou que o não-saber não é uno: é o não-saber da ignorância solucionável, o não-saber estrutural de certas classes de fenômenos, o não-saber abissal do sujeito sobre si mesmo e sobre o real que nunca se deixa esgotar. Mostrou que o não-saber tem dimensão corporal: que o corpo não sabe antes da mente e de modos que a mente não alcança. Que tem dimensão expressiva: que a escrita nasce dele e o preserva em forma articulada sem o resolver. Que tem dimensão política: que o direito a não ser completamente sabido é um direito fundamental que o poder sistematicamente viola. Que tem dimensão subjetiva: que o eu que carrega o não-saber é ele mesmo não-saber, múltiplo, disperso, sem duplo estável. Que tem dimensão contemporânea: que o presente o proibiu sem proibir, ao preencher todos os espaços onde ele poderia existir.


E mostrou, por fim, que há quatro modos de fazer com o não-saber — habitar, jogar, rezar, escrever — que não o resolvem mas que criam com ele uma relação que não é resignação nem violência: que é o manejo honesto de uma condição irredutível.


Tudo isso o percurso mostrou. E a pergunta de Clarice permanece.


III.

Há algo que precisa ser dito sobre o que significa que a pergunta permaneça, porque há duas leituras possíveis dessa permanência, e elas são radicalmente diferentes.


A primeira leitura é a pessimista: a pergunta permanece porque o ensaio fracassou, porque o percurso não alcançou o que prometia alcançar, porque dez passagens de análise filosófica não foram suficientes para resolver o que deveria ter sido resolvido. Nessa leitura, a permanência da pergunta é defeito: sinal de que algo faltou, de que o método não foi adequado, de que o pensador não chegou aonde queria chegar. É a leitura que a modernidade do desempenho impõe como padrão: o pensamento que não produz resultado é pensamento que falhou.


A segunda leitura é a que este ensaio defende: a pergunta permanece porque é uma questão abissal, e as questões abissais não são respondidas por percursos, sejam eles quais forem. Elas são transformadas pelos percursos. Aprofundadas. Tornadas mais precisas, mais habitadas, mais ricas em suas implicações. A permanência da pergunta não é defeito: é fidelidade. É o sinal de que o ensaio não mentiu, não fingiu que o não-saber foi resolvido porque o percurso o percorreu, não prometeu fechamento onde há apenas abertura que amadureceu.


Jabès escreveu, em algum dos sete volumes do Le Livre des Ressemblances (O Livro das Perguntas): "A última palavra ainda não foi dita. Talvez nunca seja dita. Talvez seja isso a que chamamos de vida — o espaço entre a penúltima e a última palavra." A vida, nessa formulação, é o espaço que a última palavra — a palavra que fecharia, que concluiria, que responderia definitivamente — cria ao não chegar. E esse espaço não é tristeza: é o espaço onde acontecem todas as penúltimas palavras, todas as aproximações, todos os percursos como este que se recusam a encerrar o que não pode ser encerrado. A pergunta que permanece é a condição de possibilidade de tudo o que se disse a seu respeito, e de tudo o que ainda será dito, por outros, em outras línguas, em outros contextos, com outros pensadores que este ensaio não alcançou.


IV.

É preciso agora falar de Clarice; não da obra, não da pergunta, mas da pessoa que formulou a pergunta. Porque há algo na biobibliografia de Clarice Lispector que ilumina, de modo indiretto mas preciso, o que significa que a pergunta permaneça como resposta.


Clarice nasceu em 1920 numa aldeia ucraniana chamada Tchechelnik, num momento em que sua família fugia de um pogrom. Chegou ao Brasil com dois meses de idade. Cresceu no Recife, pobre, entre línguas: o ídiche em casa, o português na rua, e o hebraico da sinagoga que ela frequentou sem nunca ter se convertido ao judaísmo que a língua do lar pressupunha. Quando tinha nove anos, a mãe morreu de consequências de uma violação sofrida anos antes na Ucrânia. Clarice acreditava — e carregou essa crença ao longo da vida — que havia nascido para salvar a mãe, e que havia falhado.


Essa crença racionalmente infundada, emocionalmente devastadora, é o pano de fundo de toda a sua obra. Não no sentido freudiano banal de que a obra seja a expressão disfarçada de um trauma: a obra de Clarice é muito maior do que qualquer trauma individual. Mas no sentido de que ela escreveu de um lugar que sabia irremediavelmente marcado: de alguém que chegou ao mundo sob o signo do não-saber mais doloroso que existe — o não-saber de quem não sabe o que poderia ter feito diferente, de quem carrega um não-saber que tem a estrutura da culpa sem ter a substância da culpa, porque o que aconteceu não dependia de nenhuma escolha que ela pudesse ter feito.


A pergunta "o que é que eu faço com o que eu não sei?" tem, lida à luz dessa biografia, uma gravidade que qualquer leitura puramente epistemológica deixa escapar. Ela é também a pergunta de quem não sabe o que fazer com o não-saber de ter chegado tarde, de não ter podido salvar, de carregar uma dívida impossível de pagar porque o credor já não existe para receber o pagamento. O não-saber de Clarice não é apenas filosófico; é encarnado num corpo que chegou ao mundo marcado pelo que não pôde controlar e que passou a vida perguntando, pela escrita, o que se faz com isso.


E o que ela fez ao longo de três décadas, de Perto do Coração Selvagem (1943) a A Hora da Estrela (1977), o último romance publicado poucos meses antes de sua morte, foi escrever; habitar; jogar; e rezar, à sua maneira: com o corpo de linguagem que era a única mediação disponível entre ela e o que excedia qualquer linguagem. O não-saber permaneceu ao longo de toda a obra: não foi resolvido pelo último livro mais do que havia sido resolvido pelo primeiro. Mas foi, ao longo do percurso, trabalhado, transformado em algo que o mundo pôde encontrar e reconhecer e carregar consigo.


V.

Uma coda, em música, pode terminar com o mesmo acorde com que a obra começou, o que é sempre uma surpresa, sempre um retorno que parece novo porque o percurso transformou o ouvinte que o percorreu. Este ensaio termina retornando a algumas das formulações que o percorreram, não como síntese, não como recapitulação ordenada, mas como reencuentro: a verificação de que as vozes que acompanharam o percurso ainda estão lá, ainda dizem o que disseram, mas agora ditas numa sala que a leitura deste ensaio transformou.


Jabès disse que a pergunta é a única casa possível para o exilado. Ao fim deste ensaio, a formulação tem um peso que não tinha no começo: porque o exilado, agora, não é apenas figura do judeu sem terra; é figura de qualquer sujeito que não encontra nas categorias disponíveis a casa adequada para o que carrega, e que descobre que a pergunta, a questão abissal, a que não pode ser respondida sem deixar de ser ela mesma, é o único lugar onde o não-saber que ele é pode morar sem ser expulso.


Celan disse que a poesia pode significar uma virada da respiração. Ao fim deste ensaio, a formulação ilumina não apenas a poesia mas qualquer forma de fazer com o não-saber que seja genuíno: o habitar, o jogo, a prece, a escrita, cada um deles é, quando praticado com honestidade, uma virada da respiração. O momento em que o sujeito que estava sufocado pelo não-saber encontra, no gesto de não resolvê-lo mas de habitá-lo de outro modo, uma respiração diferente. Não mais fácil; diferente. Não resolvida; possível.


Weil disse que a atenção é a forma mais rara de generosidade. Ao fim deste ensaio, a formulação tem uma extensão que no começo não era visível: a atenção ao não-saber, ao próprio não-saber, ao não-saber do outro, ao não-saber que o real guarda como reserva irredutível, é uma generosidade que se dirige não a uma pessoa mas ao que excede qualquer pessoa. É a generosidade de quem não exige que o real seja transparente antes de aceitar a relação com ele.


Glissant disse que reivindica para todos o direito à opacidade. Ao fim deste ensaio, a reivindicação tem um fundamento que no começo apenas se anunciava: o direito à opacidade é o direito ao não-saber irredutível, o direito de não ser completamente sabido por si mesmo nem pelos outros, o direito de permanecer, em alguma medida essencial, além do alcance de qualquer categorização. É o direito que Clarice exerceu ao formular sua pergunta: o direito de não saber e de perguntar o que se faz com isso, sem precisar pedir ao saber que resolva antes de formular.


Pessoa disse que não é nada e que tem em si todos os sonhos do mundo. Ao fim deste ensaio, a formulação é a mais precisa disponível para o que a pergunta de Clarice abre: o sujeito que não sabe o que é, que não tem substância determinada, que não tem identidade fixa, que é múltiplo e disperso e sem duplo estável, tem precisamente por isso a capacidade de conter todos os sonhos do mundo. O não-saber de si não é pobreza: é a condição de uma abertura que o eu que sabe completamente o que é nunca poderá ter.


VI.

Há uma última coisa que este ensaio precisa dizer, e que nenhuma das dez passagens anteriores disse diretamente, embora todas a pressupusessem.


A pergunta de Clarice, "o que é que eu faço com o que eu não sei?", não é apenas uma pergunta sobre o não-saber. É uma pergunta sobre a vida. Sobre o que se faz com a vida quando a vida é, em sua maior parte, não-saber: não-saber o que acontecerá, não-saber o que se quer no sentido mais fundo, não-saber quem se é, não-saber o que as perdas significaram, não-saber o que as alegrias valeram, não-saber se o que se fez foi o que havia para fazer. A vida, na maior parte do tempo, é exatamente isso: o não-saber que se move, que muda de forma, que às vezes pesa e às vezes voa, que nunca cessa completamente e que, se cessasse, significaria que algo essencial havia acabado.


Fazer com o não-saber é fazer com a vida. Não a vida heroica que sabe o que quer e vai buscar com determinação invulgar. Não a vida iluminada que chegou à clareza depois de um percurso espiritual extraordinário. A vida ordinária, a vida de quem acorda sem saber completamente o que o dia pedirá, que enfrenta escolhas sem garantia de que são as corretas, que ama sem saber completamente o que o amor é, que perde sem saber completamente o que perdeu, que continua sem saber completamente por quê.


Clarice sabia isso. Sabia que sua pergunta era, no fundo, essa: a pergunta sobre o que se faz com a vida quando a vida é, inevitavelmente e irredutivelmente, mais do que qualquer saber disponível. E a resposta que ela encontrou — não em palavras, mas em obra, mas em percurso, mas em décadas de escrita que recusou a clareza prematura — é a mesma resposta que este ensaio tentou articular sem pretender possuir: continua-se. Habitando. Jogando. Rezando. Escrevendo. Com o não-saber como companhia permanente, não como inimigo a vencer.


VII.

Nietzsche disse que é preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante. A formulação é excessiva — como quase tudo em Nietzsche — mas o que ela aponta é preciso: a ordem prematura não produz obra, não produz pensamento, não produz vida. O que produz é o caos domesticado, o não-saber que foi contido antes de ter dito o que tinha a dizer, a multiplicidade que foi forçada à unidade antes de ter revelado o que sua multiplicidade continha.


O caos de que Nietzsche fala não é desordem; é o estado do não-saber que ainda não encontrou sua forma, que ainda está em processo de tornar-se algo sem saber o que será. E a estrela dançante não é o produto que o caos eventualmente entrega ao mercado: é o que emerge quando o caos foi habitado com paciência suficiente, jogado com disponibilidade suficiente, rezado com abertura suficiente, escrito com honestidade suficiente. A estrela dança porque o que a gerou estava em movimento, porque o não-saber que a originou nunca foi completamente fixado.


Clarice Lispector deu à luz estrelas dançantes. Não porque soubesse como fazê-lo; ela não sabia, e era precisamente porque não sabia que as estrelas podiam dançar. Ela perguntou o que fazer com o que não sabia, e ao longo de trinta e quatro anos de escrita, descobriu que a pergunta era o fazer: que habitar a pergunta com rigor e com honestidade e com as companhias filosóficas e literárias que foi encontrando ao longo do caminho era já, em si mesmo, a resposta que a pergunta podia receber.


VIII.

Um ensaio que se recusa a concluir precisa, ao menos, ser honesto sobre por que se recusa. Esta coda se recusa a concluir não por incapacidade, não porque não haja palavras para uma conclusão. Recusa-se porque qualquer conclusão seria uma traição: traição à pergunta de Clarice, que é abissal e não admite fechamento; traição ao percurso das dez passagens, que mostrou que o não-saber aprofunda à medida que é percorrido em vez de diminuir; traição ao leitor, que merece encontrar a pergunta ainda aberta ao final, ainda disponível para ser sua, ainda capaz de exigir o que exige de qualquer sujeito que a encontra com honestidade.


A conclusão seria o gesto pelo qual o ensaio dissesse: está feito, está resolvido, está arquivado. Pode seguir. E o que a pergunta de Clarice exige é precisamente o contrário: que não se siga, ou que se siga carregando a pergunta. Que o leitor que chegou até aqui não feche o livro com a sensação de ter recebido uma resposta, mas com a sensação — mais inquieta e mais fecunda — de que a pergunta é agora sua, de que o não-saber que ela nomeia é agora mais habitado do que antes, de que as companhias filosóficas e literárias que o percurso ofereceu estarão disponíveis quando o não-saber pesar.


Porque o não-saber pesará. Sempre pesa: isso é o que ele é. E é também o que ele tem: o peso que é específico do que é real, do que não pode ser trocado por uma versão mais leve, do que está ali independentemente de o sujeito ter ou não ter acordado para ele. O peso do não-saber é, no fundo, o peso do real, o peso que Rosset chamou de idiotia, que Marcel chamou de mistério, que Krenak reconhece no rio e na pedra e na floresta que não precisam de nossa compreensão para existir.


E o que se faz com esse peso — com o peso do real que excede o saber — é, finalmente, o que Clarice perguntou. E a resposta, se há uma, é esta: fica-se com ele. Não se o deposita em algum lugar seguro onde não perturbe. Não se o transforma em tarefa a ser concluída. Não se pede ao primeiro sistema filosófico disponível que o gerencie em nome do sujeito. Fica-se com ele, com tanta atenção quanto possível, com tanta honestidade quanto a coragem permite, com tanta companhia quanto se consegue encontrar. E essa permanência com o que não se sabe, essa recusa de abandonar o não-saber antes que ele tenha dito o que tem a dizer, é o que a vida intelectual e a vida tout court têm de mais parecido com sabedoria.


IX.

Clarice Lispector morreu em 9 de dezembro de 1977, seu aniversário de cinquenta e sete anos. Deixou, além dos livros, uma advertência ao leitor inscrita em A Hora da Estrela: "Este livro é uma pergunta."


Toda a sua obra é uma pergunta. E a pergunta mais precisa que ela formulou, a mais desnuda, a mais filosófica, a mais intransigentemente honesta sobre a condição do sujeito que pensa, foi esta: o que é que eu faço com o que eu não sei?


Este ensaio foi uma tentativa de habitar essa pergunta com o rigor que ela merece e com a abertura que ela exige. Não de respondê-la, porque a pergunta que precisa de dez passagens para ser suficientemente habitada não é a pergunta que uma décima primeira pode responder. De fazer companhia a ela: de trazer para perto dela os pensadores que ela convoca, os territórios que ela abre, os modos de fazer que ela sugere sem nunca impor.


E agora o ensaio termina, não porque chegou aonde queria chegar, mas porque chegou aonde podia chegar. O que fica além desse ponto pertence ao leitor: ao seu não-saber específico, às suas companhias filosóficas e literárias próprias, aos seus modos de fazer que este ensaio não previu e que são, precisamente por não terem sido previstos, os mais necessários.

*


"O que é que eu faço com o que eu não sei?"

A pergunta permanece.

Isso é suficiente.

Isso é a resposta.


*

Nota do ensaísta


Este ensaio foi escrito na consciência de que o não-saber do ensaísta é parte constitutiva do ensaio. Há pensadores que este percurso não alcançou e que o haveriam enriquecido: Rosa Luxemburgo sobre a esperança que não cede ao sabido, Benjamin sobre o anjo da história que vê o que nós não queremos ver, Tsvetaeva sobre o poema que acontece antes da poeta, Simone de Beauvoir sobre a existência que precede a essência e que portanto começa sempre no não-saber do que se tornará. Há línguas e tradições que este ensaio não tocou: o pensamento budista sobre o não-saber como via de libertação, o sufismo sobre o não-saber como porta para o divino, o confucionismo sobre o não-saber como início de qualquer ética genuína.


Essas ausências não são descuidos: são o não-saber do ensaio, o que ele não sabe que não sabe, o que ficou fora do campo de visão, o que esperava nas margens enquanto o centro estava sendo percorrido. São, portanto, o convite ao próximo percurso: ao ensaio que este não foi mas que poderia ser, ao leitor que encontrará nessas ausências o ponto de partida de seu próprio fazer com o não-saber.


A pergunta de Clarice não pertence a este ensaio. Pertencia a ela, e agora pertence a quem a encontrou aqui, e a quem a encontrará em outros lugares, em outras línguas, sob outras condições, com outros não-saberes que este ensaio não chegou a nomear.


Obras referenciadas nesta passagem


CELAN, Paul. O Meridiano e outros textos. Trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Perspectiva, 2011.


GLISSANT, Édouard. Poétique de la Relation. Paris: Gallimard, 1990.


JABÈS, Edmond. Le Livre des Ressemblances. Paris: Gallimard, 1976.


LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.


LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Artenova, 1973.


LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: A Noite, 1943.


NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.


ROSSET, Clément. Le Réel: Traité de l'Idiotie. Paris: Minuit, 1977.


WEIL, Simone. Attente de Dieu. Paris: Fayard, 1966.


Obras consultadas ao longo do ensaio (seleção geral)


ADORNO, Theodor W. O ensaio como forma. In: Notas de Literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.


AXELOS, Kostas. Le Jeu du Monde. Paris: Minuit, 1969.


BLANCHOT, Maurice. L'Espace Littéraire. Paris: Gallimard, 1955.


CIXOUS, Hélène. La Venue à l'Écriture. Paris: Union Générale d'Éditions, 1977.


CORALINA, Cora. Meu Livro de Cordel. Goiânia: UFG, 1976.


EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. Belo Horizonte: Mazza, 2006.


FANON, Frantz. Peau Noire, Masques Blancs. Paris: Seuil, 1952.


GLISSANT, Édouard. Poétique de la Relation. Paris: Gallimard, 1990.


HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.


HELDER, Herberto. A Faca não Corta o Fogo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2008.


HILLESUM, Etty. Diário 1941–1943. São Paulo: Àgape, 2010.


IRIGARAY, Luce. Speculum de l'Autre Femme. Paris: Minuit, 1974.

JABÈS, Edmond. Le Livre des Questions. 7 vols. Paris: Gallimard, 1963–1973.


JANKÉLÉVITCH, Vladimir. Le Je-ne-sais-quoi et le Presque-rien. Paris: PUF, 1957.


KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


LEVINAS, Emmanuel. Totalité et Infini. La Haye: Martinus Nijhoff, 1961.


LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.


LISPECTOR, Clarice. A Maçã no Escuro. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1961.


LISPECTOR, Clarice. A Paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964.


LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Artenova, 1973.


MARCEL, Gabriel. Être et Avoir. Paris: Aubier-Montaigne, 1935.


MBEMBE, Achille. Critique de la Raison Nègre. Paris: La Découverte, 2013.


MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la Perception. Paris: Gallimard, 1945.


MERLEAU-PONTY, Maurice. Le Visible et l'Invisible. Paris: Gallimard, 1968.


MICHELSTAEDTER, Carlo. La Persuasione e la Rettorica. Milão: Adelphi, 1982 [1910].


MINKOWSKI, Eugène. Le Temps Vécu. Paris: D'Artrey, 1933.


PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.


PIZARNIK, Alejandra. El Infierno Musical. Buenos Aires: Siglo XXI, 1971.


PRADO, Adélia. Bagagem. Rio de Janeiro: Imago, 1976.


RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. São Paulo: Globo, 2001.


ROSENZWEIG, Franz. Der Stern der Erlösung. Frankfurt: Kauffmann, 1921.


ROSSET, Clément. Le Réel: Traité de l'Idiotie. Paris: Minuit, 1977.


ROSSET, Clément. Le Réel et son Double. Paris: Gallimard, 1976.


SACHS, Nelly. O e o Nada. São Paulo: Perspectiva, 1999.


SLOTERDIJK, Peter. Du musst dein Leben ändern. Frankfurt: Suhrkamp, 2009.


VALENTE, José Ángel. Mandorla. Madrid: Cátedra, 1982.


WEIL, Simone. Attente de Dieu. Paris: Fayard, 1966.


WEIL, Simone. La Pesanteur et la Grâce. Paris: Plon, 1947.


ZAMBRANO, María. Filosofía y Poesía. México: FCE, 1987 [1939].


ZAMBRANO, María. El Sueño Creador. Madrid: Turner, 1986 [1965].






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